Renata Brandão


Semanas de 24 de novembro a 07 de dezembro – Hanói

Quinze dias no Vietnã

reuniao-unes.jpg

A nossa estada no Vietnã foi marcada por muitas reuniões de trabalho, muito estudo histórico e leituras intermináveis de documentos, que juntos nos ajudaram a entender um pouco mais da cultura social do Vietnã.

Por todos os países que passamos, vivemos experiências de trabalho completamente diferentes e todas elas enriqueceram bastante a missão da nossa jornada. A Índia vai ser lembrada pelas visitas de campo em áreas remotas, onde convivemos com indianos em suas casas, conhecemos áreas rurais, desertos e montanhas e pudemos entender um pouco da multiplicidade cultural daquele país. Bangladesh chamou a atenção pelo aspecto religioso que se mistura com a vida social, econômica e política do país, onde o islamismo fundamentalista regue o comportamento das pessoas de uma maneira que muito nos impressionou.

Aqui no Vietnã focamos os esforços para entender o regime político do país e sua história de guerra, que muito importa para a interpretação atual do povo e sua cultura. Pela primeira vez na vida conheci um país socialista e confesso que a surpresa foi grande.

Reuniao-no-P.jpg

Não poderíamos entender os aspectos sociais do Vietnã sem entender seu regime político comunista. Na verdade falar de uma coisa significa falar da outra. O Partido Comunista é o Vietnã. Não existe nada no país onde a política não exerça controle. Desde a vida das pessoas, empresas, organizações não governamentais, imprensa, cultura, tudo o PC tem acesso, tudo é regulamentado pelo partido e inspecionado por suas rígidas leis.

Bandeira-do-.jpg

A sociedade reconhece o partido com uma subserviência incontestável. Não existe, ou pelo menos não é divulgada, uma oposição política no Vietnã. Os meios de comunicação pertencem ao partido e não existe nenhum jornal livre no país. Todos os dias pela manhã alto-falantes espalhados pela cidade de Hanói comunicam as diretrizes do partido, lançam campanhas do governo e fazem comunicados públicos, numa espécie de lavagem cerebral e auto-afirmação de poder.

Nas escolas as crianças aprendem a gostar do partido, são educadas para respeitá-lo e honrá-lo pelo seu papel histórico no país. O que é em parte uma grande verdade. A história do Vietnã é a história do Partido Comunista. O PC foi o responsável pela libertação do Vietnã dos franceses e foi quem venceu a Guerra do Vietnã contra os EUA. Seus méritos são um exemplo de organização social, união partidária e filosófica e acima de tudo, estratégia e coragem.

As marcas da organização social que uniu o povo em prol da guerra de independência e libertação são as mesmas que os une para o desenvolvimento do país. As organizações de massa – união de mulheres, de jovens, de agricultores, dos veteranos da guerra – continuam ativas e participativas, o que para mim foi o aspecto do Vietnã que mais impressionou.

Veteranos-de.jpg

A politização da sociedade e seu senso de co-responsabilidade com o futuro do país é algo de causar inveja a qualquer país do mundo. Enquanto que no Brasil política significa “problema” e assuntos públicos são de responsabilidade do “governo”, aqui no Vietnã as pessoas se envolvem com as causas mais diversas. Mobilizam se, se comunicam, formam entre si alianças de interesse e de poder surpreendentes, e fazem a diferença.

Obviamente que trabalham a favor do Partido Comunista, por ele e para ele, mas isso não importa. O que vale é que eles participam das mudanças do país, não como beneficiados somente, mas como protagonistas de sua própria história.

Não existe um único vietnamita que não faça parte de alguma organização de massa. Nas pequenas vilas, em áreas remotas ou nas grandes cidades o espírito é o mesmo. Formam comunidades pequenas, que conglomeradas foram organizações maiores e somadas fazem parte de uma instituição nacional. E o país funciona dessa maneira, de pessoa para pessoa, de comunidade para comunidade, com uma eficiência unitária espetacular.

Enquanto que outras nações do mundo dependem dos jornais e meios de comunicação para transmitir informações, o Vietnã tem as pessoas, os grupos sociais, que funcionam muito bem.

Estivemos conversando durante a nossa visita com a “União dos Jovens” e ficamos admiradas com o envolvimento dessa classe no país. Diferentes da maioria dos jovens brasileiros, que se preocupa com a própria carreira e maneira de ganhar dinheiro, os jovens do Vietnã são super politizados e ativistas. Servem ao país, essa é a verdade. Trabalham pelo coletivo, fazem pelo todo e não por si próprios. Os que tem acesso à educação sabem da responsabilidade pública de transferir os seus conhecimentos e fazem trabalhos voluntários com a mesma regularidade com que trabalham para o seu próprio sustento (Veja a matéria).

Durante a nossa visita ao Vietnã fomos convidadas pela UNV (United Nations Volunteers) para participar do Dia do Voluntário, que foi juntamente comemorado com o Dia de Combate à Aids e o Dia dos Deficientes Físicos.

Em-dia-de-gr.jpg

Como voluntárias, estivemos durante todo o domingo (30/11) no evento, produzindo um vídeo, filmando seus acontecimentos e fazendo entrevistas para doar as fitas para a organização, que estava necessitando deste trabalho.

Doando-as-fi.jpg

Mas não éramos as únicas, na verdade a grande maioria das pessoas que estava doando parte do seu tempo em prol das causas do evento, era jovem com menos de 30 anos.

Por-um-causa.jpg

Os jovens foram o segundo foco de abordagem da nossa pesquisa no país. Visitamos um projeto que beneficia meninos e meninas de rua em estado de exclusão social. Chamado KOTO, a iniciativa tira os meninos da rua e lhes dá moradia, educação e treinamento profissional na área de gastronomia e hotelaria, e o projeto é um sucesso em Hanói. O KOTO possui um restaurante aberto ao público na cidade onde os jovens fazem seus treinamentos e oferecem um serviço digno de restaurantes de padrão internacional. Uma idéia social incrível, auto-sustentável e que impressiona pela qualidade das ações que desenvolve. O marketing social é o seu maior mérito. Os meninos são super simpáticos, atenciosos e a alegria que transmitem é a melhor coisa que eles “servem” no restaurante (Veja a matéria e o relatório da visita).

KOTO.jpg

Mas durante a visita, questionei a existência de um projeto para meninos de rua em Hanói, uma vez que eu não havia encontrado nenhum deles pela cidade. O responsável pela iniciativa me esclareceu a dúvida. O governo havia retirado todos eles na semana anterior a nossa chegada, numa ação para “limpar” a cidade para o Seagames – uma espécie de “Pan-americano” asiático que vai acontecer em Hanói a partir do dia 05 de dezembro. Fiquei chocada! Os meninos de rua haviam sido recolhidos e levados para abrigos ou para suas cidades de origem.

E realmente conhecemos uma Hanói maquiada, dissimuladamente limpa e civilizada para os jogos pré-olímpicos. Mas o governo não conseguiu “limpar” os vendedores de rua que são uma realidade na cidade. Culturalmente, os vietnamitas vivem suas vidas na rua. Cozinham pelas calçadas, lavam roupas, jogam cartas em grupos por mesas espalhadas pelos corredores de pedestres, enfim, passam a maior parte do tempo na rua.

O que é explicado pela falta de espaço que tem em suas casas. O custo de moradia em Hanói é muito alto e as pessoas moram em residências muito pequenas. Tradicionalmente também as famílias do Vietnã são muito grandes, compostas de pais, filhos e na maioria das vezes os avós. E o jeito é fazer da rua uma extensão da casa, como a gente viu em Hanói.

Vida-de-rua.jpg

Ao contrário disso, os cachorros ficam presos em casa e os gatos nas coleiras. Podem acreditar! Não é possível ver cachorros de rua na cidade. Isso porque os vietmanitas comem esses bichos e se eles ficarem soltos, já eram! Verdade! Além dos cachorros e gatos, a comida vietnamita oficial é composta de carne de porco e massas à base de arroz, que são servidas em forma de ensopados. Eles também comem muitos legumes e frutas.

Comida-Vietn.jpg

Ainda falando das ruas, é impossível caminhar em Hanói. As calçadas ficam intransitáveis por causa das motos que estacionam livremente pelas vias de pedestres e andar ou mesmo atravessar as ruas é na certa um perigo de vida.

Aventura-de-.jpg


Video: Trânsito de Hanói ( Transito de .MPG )

Assim como os rishshows na Índia e as bicicletas em Bangladesh, aqui no Vietnã as motos é que mandam. São milhares delas por todo o lado e a melhor maneira de se transportar na cidade é montando na garupa de um moto-taxi. Uma aventura garantida no dia! Os acidentes de motos acontecem a todo o momento e são a principal causa de mortes no país.

E as pessoas andam de moto com um lenço no rosto para se proteger da poeira e as mulheres o usam também por causa do sol. As mulheres orientais não gostam de se bronzear e preferem manter a pela branca. Em compensação não preservam o mesmo cuidado para manter os dentes brancos. No Vietnã as pessoas têm a tradição de mastigar ervas que deixam os dentes pretos ou vermelhos, dependendo da espécie que mascam, por acreditarem que os fortalece. Realmente fortalecem. As pessoas de idades aqui não perdem os dentes e obviamente, o mercado de dentaduras no país é um fracasso.

Lenco-no-ros.jpg

Uma coisa me deixou muito intrigada em Hanói: a quantidade de grávidas pelas ruas. Toda hora via uma delas e estava ficando preocupada com os números de natalidade do país. Fui comentar a minha percepção com o Embaixador do Brasil no Vietnã e ele me esclareceu o “fenômeno”. Esse ano que está preste a acabar foi um ano propício para a gravidez segundo as crenças religiosas do país, que misturam o budismo, o confucionismo e o taoísmo. Mas para que as crianças tenham as virtudes prometidas para os nascentes desse ano, elas devem vir ao mundo antes do dia 20 de janeiro, quando eles comemorarão a entrada do ano 2547.

Para concluir as minhas percepções inutilmente culturais, mas no mínimo curiosas, a diversão dos vietnamistas é cantar. As casas de Karaokê estão por toda a cidade e eles passam as noites dentro delas, cantando e tirando o sono dos que querem dormir! Aja paciência e ouvido!

Nos aspectos mais pessoais, o Vietnã vai ser lembrado...

*Pelas muitas reuniões regadas a chá de milho de pipoca. Isso mesmo! Eles têm o costume de beber um chá que parece pipoca líquida. Muito estranho!
* Pelos amigos brasileiros que encontramos na Embaixada do Brasil em Hanói, e que nos proporcionam um jantar com feijão, arroz e bife! Perfeito!!!!

Jantar-a-bra.jpg

*Pelas comidas de rua, sentadas em banquinhos nas calçadas, onde pagávamos baratinho por um ensopadinho com massinha de arroz e carne de porco.

Comida-de-ru.jpg

*Pela comunicação muito difícil com os vietnamitas que em sua maioria não fala inglês. Pela dificuldade de entender as placas e direções da cidade, todas escritas em vietnamita, uma língua monossilábica que mistura uma fonética oriental com a escrita usando o analfabeto ocidental. Muito diferente! A sensação que a gente tem é eles parecem que estão engasgando enquanto falam porque as palavras são muito pequenas e nasais...

Escrita-muit.jpg

*Pelo reencontro com o Pepe, irmão da Laura, uma grande amiga minha espanhola. Ele trabalha para a Comissão Européia e está morando em Hanói há quase um ano. Foi muito legal encontrá-lo, saímos para jantar e dividimos nossas percepções sobre o Vietnã.

Jantar-com-P.jpg


*Pelo visual das pessoas usando os chapéus típicos do país contrastando com a modernidade urbana de Hanói. Fantástico!
Foto: Chapéu
*Pelos croissants, banheiros com banheira e igrejas góticas, as boas heranças francesas deixadas no país...(he,he,he)

Igrejas.jpg

E assim finalizamos o terceiro país visitado nessa jornada - Vietnã. Depois de 15 dias de trabalho intensos, onde fizemos dezenas de reuniões com diversas instituições (PNUD- ONU, UNV, UNESCO, Care Foundation, Ford Foudation e Embaixada do Brasil), visitamos dois projetos sociais (KOTO e Paccom) e participamos como voluntárias em um evento, sentimos que a nossa missão havia sido novamente cumprida.

Hora de partir para o próximo destino: Tailândia!

Viajando.jpg





Semana de 17 a 23 de novembro – Atravessando fronteiras

Saímos de Khoen Kaen, na Tailândia, e por três dias (acreditem!) viajamos para chegar em Hanói, no Vietnã, o terceiro país da expedição que será visitado. Nesse meio tempo viajamos por horas sem fim de ônibus, pegamos van, paramos em diversas vilas no meio do caminho, atravessamos duas fronteiras, ficamos paradas para revista em imigração, enfim tudo aconteceu!

Viajando-o-j.jpg

Laos

Começamos a viagem na segunda-feira bem cedo em direção a Vientiane, a capital de Laos. Atravessamos a fronteira do país e chegamos na cidade no começo da tarde, onde tivemos que pernoitar para seguir viagem no dia seguinte. Aproveitamos a oportunidade para conhecer um pouco de Vientiane, fomos a um templo e apreciamos o pôr do sol no Rio Mekong, um dos mais importantes da Ásia.

Em-templo-bu.jpg

Vietnã
Na tarde de terça-feira pegamos o ônibus que nos levaria direto para Hanói, mas não imaginávamos a viagem que nos aguardava! Passamos 28 horas viajando, parando em todas as vilas que existiam no meio do caminho, enfrentando as piores condições de estradas que podem existir, com fome, sede, e para completar, o ônibus que pegamos estava fazendo contrabando de Red Bull, a bebida energética, do Laos para o Vietnã e foi descoberto na imigração. Tivemos que parar, retirar todas as bagagens para serem revistadas e esperar por 2 horas até que a mercadoria fosse apreendida para então seguir viagem.

Contrabando-.jpg

Tudo acontece com a gente!!!

Enquanto esperávamos ficamos assistindo ao jogo de futebol do Brasil contra o Uruguai, que estava acontecendo ao vivo no Rio de Janeiro. Que felicidade! Isso na fronteira de Laos com o Vietnã, do topo de uma montanha, onde não existe absolutamente nada, só a guarda da imigração e a televisão!!!

Brasil!.jpg

Os gringos
A melhor parte tudo foi que tivemos a companhia de muitos gringos. Pela primeira vez em toda a viagem encontramos gringos mochileiros em ônibus... As 28 horas até passaram mais rápido porque viemos conversando, trocando experiências, e obviamente, rindo muito da nossa própria falta de sorte com o ônibus! Era melhor rir do que chorar...

Nosso-onibus.jpg

Chegamos!
Chegamos em Hanói na quarta feira quase 10 horas da noite e eu nem preciso dizer qual era o nosso estado físico! Imundas, famintas, com dores por todo o corpo e com um humor...

E na quinta feira morremos! Não éramos ninguém no dia seguinte. As dores pelo corpo estavam ainda piores e o cansaço não nos deixou fazer muita coisa. Tiramos um dia de ócio!

Na sexta ressuscitamos! Começamos a fazer os nossos contatos e iniciar os agendamentos dos projetos sociais que serão visitados no país. Temos muito trabalho pelo frente!

O fim de semana nós passamos em Hanói, passeando um pouco pela cidade, trabalhando um pouquinho, fazendo algumas pesquisas, enfim, vivendo que nem gente comum, mesmo em circunstâncias incomuns!

Minhas primeiras impressões vietnamitas...

A moeda do Vietnã é tão desvalorizada que uma Coca-Cola, por exemplo, custa 7.000 dongs. Eu fui tirar dinheiro no caixa eletrônico e sai com um bolo de dinheiro!! Me senti até rica com milhões na mão!!!

Os preços para estrangeiros no país são diferenciados e os valores chegam a ser abusivos! Eles muitas vezes só repassam os preços em dólares...e obviamente com uma taxa de conversão nada oficial.

Ao invés dos rickshaws, como na Índia e Bangladesh, o Vietnã é o país das motos...São milhões delas pela rua!

O comércio de rua é uma realidade. Por onde andamos encontramos vendedores de frutas, de pão francês (herança da colonização francesa!) e de muitas outras mercadorias que vão de eletrônicos a artigos orientais chineses. Os chineses também são numerosos no país!

Vendedores-d.jpg

As mulheres vietnamitas são super independentes e muito ocidentalizadas, se compradas aos outros países do sudeste asiático. Característica compreensível em um país que passou por diversas guerras e as obrigou a buscar meios de sustento familiar para compensar a ausência dos homens, que saiam para a guerra.





Sexta, 14 de novembro - Cruzando fronteiras

Dia-de-andar.jpg

Tentamos de todas as maneiras possíveis atravessar Miamar por terra para chegar na Tailândia, de onde seguiríamos viagem para o Vietnã, mas infelizmente não existe acordo fronteiriço entre os dois países que permita passagem de estrangeiros de ônibus. Tivemos que fazer esse percurso de avião, o que por um lado foi bom porque ganhamos um pouco de tempo na jornada.
E hoje foi o dia de pegar o vôo! Parecíamos duas crianças andando de avião pela primeira vez...
Sabe, depois de tantos perrengues em ônibus, trens, vans, richshaws e camelos (he,he,he) a gente deu tanto valor ao avião...
Voamos de Chittagong, em Bangladesh, para Chang Mai, na Tailândia. Uma viagem peculiar, porque éramos, juntamente com mais 2 mulheres, as únicas almas femininas em meio a mais de 120 passageiros homens...

Na-fila-do-e.jpg





Fim de semana, 15 e 16 de novembro – Chang Mai/ Khon Kaen – Tailândia

A Tailândia me surpreendeu. Um país muito civilizado que contrasta com a pobreza do restante dos países do sudeste asiático! Impressionante! Cidades limpas, trânsito sinalizado e organizado, pessoas educadas e muito bem vestidas, enfim, tomei um susto!

Mas não vai ser agora que vamos explorar a Tailândia propriamente. Só estamos de passagem porque o nosso destino no momento é o Vietnã. No começo de dezembro voltaremos para cá para fazer um melhor reconhecimento do país e aí poderei falar com mais detalhes.

Alice de volta à Tailândia
A Alice morou na Tailândia em 1995 quando participou do programa de intercâmbio do AFS – Intercultura Brasil, hoje parceiro do Projeto Realice. Hospedada em uma casa de família, ela experimentou a sensação de ser tailandesa por um ano, e agora, de volta ao país, não pode conter a emoção de reviver os velhos tempos.

Passamos o fim de semana em Khon Kaen na casa da família que a hospedou. Alice estava muito feliz de rever os “pais” tailandeses e eu pude dividir com ela esse momento!

Com-a-famíli.jpg

E fiquei impressionada como ela, depois de 7 anos, não esqueceu o tailandês. Mesmo eu não entendendo nada, fiquei muito surpresa com a desenvoltura dela com a língua! Fiquei tão orgulhosa da minha amiga (he,he,he) que resolvi fazer uma “câmera escondida” e gravei uma conversa dela com os pais...Veja que coisa!

Video: Alice falando tailândes ()

AFS Intercultura Brasil
O AFS é uma organização não-governamental que promove programas de intercâmbio culturais para jovens em todo o mundo (
www.afs.org.br). Assim como a Alice eu também experimentei a sensação de morar um ano fora do Brasil com uma família hospedeira, vivendo os costumes do país e aprendendo sua cultura. Por um ano estive na Alemanha e sou muito grata ao AFS pela oportunidade que me proporcionou.
Hoje o AFS é parceiro do Projeto Realice e está apoiando essa aventura socialmente responsável oferecendo casas de famílias nos países por onde passamos.





Um relato de Bangladesh – De 03 a 13 de novembro de 2003

...eu, sinceramente, já estava me sentindo polida de escrever relatos diários, limitada nas 24 horas que correspondem a um dia, e resolvi que ia me dar a liberdade de fazer relatos mais atemporais sobre Bangladesh, me desligando dos fatores de tempo e espaço. Farei referências aos dias quando achar que eles são uma informação importante, quando não, deixarei os relatos em aberto, como eles verdadeiramente são.

Divindindo-a.jpg

Um país sem respostas

Eu tenho a sensação de que entrei e saí de Bangladesh sem entender muito bem o país. A complexidade social somada ao antagonismo cultural e principalmente religioso que permeiam a vida das pessoas me fez pensar de são necessários alguns meses para que as primeiras conclusões possam surgir.

Nos nossos 13 dias de visita a Bangladesh pude ver muita coisa, ouvir muitas histórias e depoimentos, experimentar diferentes sensações, mas não me sinto segura para fazer definições, pelo contrário, estou ainda mais confusa depois de tudo o que vi.

Reuniao-em-p.jpg

Um país com uma população absurdamente grande que assusta. Nas grandes cidades ou nas áreas rurais é possível perceber que existe muita gente para pouco espaço, e os problemas sociais são conseqüências disso. Desemprego, fome, falta de saneamento básico, educação e segurança colocam o país no ranking dos países mais pobres do mundo. E tudo isso está exposto, visível e transparente.

Mercado-de-S.jpg

Na capital Dhaka a situação de pobreza do país está ainda mais concentrada. Nas ruas muitas pessoas pedindo dinheiro, crianças fora da escola trabalhando em mercados ou em casas de família como empregados domésticos, em um regime que beira à escravidão, idosos sem casa e sem assistência estão esquecidos no país e muitos sem tetos vivendo em becos por toda a cidade.

Em-um-campo-.jpg

O trânsito e a poluição do ar, sonora e visual das grandes cidades é algo assustador. Carros e ônibus dividem espaço com os rickshaws, os triciclos considerados o maior meio de transporte do país, transformando as ruas em um caos aberto. Em todo o país eles são quase 300 mil registrados, fora os que ilegalmente estão pelas ruas. Em Dhaka ou Chittagong, os dois principais centros urbanos do país, os quais tivemos a oportunidade de visitar, o cenário é o mesmo. Para percorrer 2 km das duas cidades são necessários quase uma hora no trânsito, respirando um ar que de tão impuro causa náuseas e dores de cabeças fortíssimas. Isso tudo somado ao barulho das buzinas que são as responsáveis pela conduta no trânsito. Os semáforos não existem e mão e contra-mão não são respeitadas e o jeito é buzinar! Conseqüência: o barulho é ensurdecedor!

Engarrafamen.jpg


VIDEO: Transito de Dhaka ( transito de .MPG )

De dentro de um rickshaw, presa em horas e horas no trânsito, eu via a cidade de Dhaka funcionar, observava seus habitantes, prestava atenção em seus costumes e a cada quilômetro percorrido eu me surpreendia com um aspecto cultural do país que se revelava. Travestis de burca, mulheres em trabalhos pesados como obras civis pela rua, homens comuns de mãos dadas em trocas de carinhos, guardas de trânsito que não controlam o trânsito, pessoas rezando, muitos deficientes físicos pedindo esmolas, homens brigando, muitas pontes pela cidade, poucas mulheres comuns da rua, algumas prostitutas, enfim, uma visão anulava a interpretação da outra e ao fim minhas respostas de perdiam no vácuo do antagonismo. Vou explicar com detalhes cada uma dessas “visões” reais.

Pobreza-um-r.jpg

A maioria da população de Bangladesh é muçulmana e o islamismo tem um papel de destaque, influenciando não só a vida religiosa do país, mas também e principalmente os aspectos políticos, sociais e pessoais de seu povo. Os bengaleses são fiéis dedicados, fazem as 5 orações diárias curvando-se a Meca, respeitam o Ramadã, o jejum de 29 dias onde não comem durante o dia, usam as vestimentas tradicionais e muitas mulheres respeitam o uso da burca. As que não são tão extremistas usam o panjabi, uma roupa que consiste em um vestido comprido, com uma calça por baixo e um lenço para cobrir o colo, considerado a parte feminina que deve ser mais preservada. Algumas mulheres, sob influência indiana, usam saris.

Usando-Punja.jpg

Religião
Falar de religião para mim é sempre uma tarefa difícil. Considero o assunto muito delicado, complexo e subjetivo e não faço muita questão de contestar, mas sim conhecer para fazer minhas interpretações pessoais e ao final cultivo um grande respeito por todas as crenças.

Durante essa viagem eu já convivi com hindus que acreditavam em reencarnação de ratos, já estive com protestantes em igrejas, em templos budistas e dessa vez, estou hospedada em uma casa de família muçulmana. As diferenças entre as culturas religiosas são gritantes e eu tenho feito um trabalho de encontrar e analisar os pontos comuns entre elas. Aos poucos estou chegando a algumas conclusões que ainda são muito prematuras para serem divididas em palavras, mas assim que eu achar que pensei algo sensato eu publico (he,he,he).

Mas voltando ao assunto do islamismo, existe muita contradição entre o que a religião prega, o que os homens interpretam e como ela na prática se aplica. Eu confesso que não conheço a fundo o islamismo e que só tive a oportunidade de folhear o Alcorão algumas vezes e por isso não quero me atrever a tecer comentários sobre a religião em si, mas gostaria de relatar sobre os reflexos dela em Bangladesh.

Mulheres muçulmanas
Por exemplo, as mulheres são obrigadas a respeitar o purdah, a tradição islâmica de reclusão feminina, mas muitos homens obrigam a suas mulheres a se prostituírem pelo dinheiro. O Alcorão cita também a fragilidade feminina e prega que os homens devem protegê-las, mas os casos de violência contra a mulher aqui em Bangladesh são bárbaros de tão violentos. Muitas mulheres não trabalham fora porque o marido não permite e muitas não são permitidas de se distanciarem mais de 1 Km de casa.

Contrastes-c.jpg

Um prova concreta. Na casa de família onde estivemos hospedadas a mulher não trabalhava e passava o dia inteiro em casa em um ócio, a meu ver, enlouquecedor. Nem as tarefas de casa ela executava porque pagava 100 takas (ou R$ 5) para uma criança de pouco menos de 10 anos para fazer. Ela só saía de casa para buscar a filha na escola e voltava para casa. No caso dela, que pertence a uma classe mais bem posicionada financeiramente e melhor esclarecida, o marido a permitia de sair livremente na rua, mas não a deixava trabalhar.

Mas isso não é regra. Muitas exceções estão surgindo na classe feminina e tudo indica que essa realidade irá mudar bruscamente nos próximos anos. A Primeira Ministra do país é uma mulher, quase 80% da mão de obra das indústrias têxteis de Bangladesh são mulheres, existe um número expressivo de congressistas mulheres no poder, enfim. Mas elas ainda assim não conquistaram tudo.

Mulheres-for.jpg

Uma coisa muito estranha que eu percebi aqui é que homens e mulheres são criados para estarem distantes um do outro. A única coisa que os aproxima é o casamento, em outros casos eles recebem tratamentos diferenciados e estão fisicamente sempre afastados. Na escola meninos e meninas não se misturam, numa reunião de trabalho os homens sentam-se em um lado da mesa e as mulheres do outro, nas mesquitas cada um tem seu lugar reservado: os homens na frente e as mulheres ao fundo, e por ai vai. Dificilmente você encontra casais nas ruas (na verdade é raro encontrar mulheres nas ruas) e quando os vê eles estão afastados, normalmente o homem na frente. Os casais não andam de mão dadas e nunca se tocam em público numa demonstração de carinho.

Por outro lado, os homens bengaleses (assim como os indianos) andam de mãos dadas pelas ruas, se acariciam durante uma conversa, sentam no colo um do outro, dentre outras demonstrações de afeto que dispensam detalhes. Eles não são gays, apesar do homo-sexualismo no país ser uma realidade mascarada. São homens comuns, casados e trabalhadores que cultuam esse comportamento como uma coisa da cultura, o que ao meu ver é incompreensível. Por que eles não são tão amáveis assim com suas mulheres? Por que os homens podem se tocar publicamente mas os casais não? Por que? (...)

*Eu não fotografei nenhum ato de carinho entre os homens de Bangladesh por medo da reação, mas faça você mesmo a imagem: dois homens, um sentado e o outro em pé de frente para o outro, com as mãos dadas balançando... Foi assim que eu vi dois policiais em uma praça em Dhaka. Detalhe: uniformizados.

Por essa razão, podem acreditar, muitas mulheres estão tendo relações mais afetivas com outras mulheres, o que era de se esperar! Em vilas do interior e em favelas ou zonas pobres isso acontece com mais freqüência. Não são raros os casos de mulheres casadas com o mesmo marido que possuem relação entre elas.

Injustiça
O islamismo também exerce um forte poder na vida política e jurídica do país. Uma coisa que me deixou intrigada: Bangladesh não possui um código civil para direito de família, por exemplo. Neste caso eles se portam ao Alcorão (pasmem!). Eu li no jornal “Daily Star”, na seção Carta do Leitor, um relato de uma mulher que está lutando pela guarda dos filhos, depois que ela abandonou o marido. O marido teria se casado com uma segunda mulher sem sua permissão (desobedecendo ao Alcorão, que diz que a primeira mulher tem que aceitar as demais...), e ela furiosa, teria o deixado. O marido quer os filhos, que normalmente é sempre do direito do homem (!) e ela estava há meses na justiça tentando a guarda como direito. Mas como a segunda mulher do marido estava grávida, ela não poderia, segundo o Alcorão, exercer esse direito. Agora vem a pergunta: o que tem a gravidez da segunda esposa a ver com a guarda dos filhos dessa mulher?

Ela escreveu um relato emocionado para o jornal e em resposta a justiça pediu que ela aguardasse o fim da gravidez...

Fiquei chocada! Essa mulher não tem a quem recorrer, não existe lei que a defenda de tamanha injustiça, ela não pode fazer nada senão esperar 9 longos meses para, então, garantir a guarda dos filhos. Que história triste! Quem quiser ler a nota, me mande um e-mail porque tenho o material scaneado. Faço questão que replicar esse relato!

Corrupção

E eu, chocada, fui debater o assunto com o Pai da família hospedeira e a resposta, explicação ou desculpa (sei lá!) que ele me deu piorou ainda mais a minha impressão. Ele é Capitão reformado do exército de Bangladesh e por isso uma pessoa instruída e para mim considerada uma fonte confiável.

Ele me garantiu que pelos meios legais essa mulher não garantirá a guarda dos filhos, porque com certeza o marido é uma pessoa financeiramente bem posicionada e subornará todas as instâncias judiciais para ter os filhos com ele, e que infelizmente neste caso a mulher não possui nenhum direito reservado. Não adiantava ela ir para a mídia ou onde quer que fosse, nada trabalharia a favor dela.

Não é a toa que Bangladesh é o país mais corrupto do mundo, segundo pesquisa de organismo internacional renomado. Por três anos consecutivos o país ocupa o primeiro lugar do ranking e pelo caminhar da carruagem vai continuar eternamente no pódio! (Desculpe-me o pessimismo, mas injustiças me tiram do sério!). Os maiores responsáveis pela “premiação” são os serviços públicos, políticos corruptos envolvidos com desvio de verbas e por fim, a polícia militar.

Muitos policiais estão envolvidos com casos de estupros de todos os tipos no país. Estupro de mulheres e meninas, de prostitutas e de homo-sexuais; e por isso estão incluídos no grupo de risco para a transmissão da Aids no país. É tradição em Bangladesh, por exemplo, que as prostitutas têm que se “entregar” para os policiais de graça, mas muitas vezes isso vem acompanhado de violência e roubo. Esse caso já é de conhecimento das autoridades, mas pouco vem efetivamente sendo feito para mudar esse quadro inescrupuloso de abuso de poder.

Poder
As sociedades orientais possuem hierarquias sociais que independem da classe econômica ou grau de instrução das pessoas. São distinções baseadas em tradições familiares, em nomes e sobre-nomes, e em alguns países, como a Índia por exemplo, essa diferenciação social recebe o nome de castas. Bangladesh possui a mesma tradição, que mistura herança familiar com posições religiosas, e o resultado dessa segregação gera preconceito e abuso de poder. Apesar das leis do país não reconhecerem mais essa cultura social, na prática ela ainda é muito aplicada.

Os que pertencem às classes mais baixas estão confinados a essa situação. Nas mesquitas ocupam lugares específicos nas últimas fileiras de fiéis, recebem oportunidades de trabalho e acessos sociais diferenciados, enquanto que os mais renomados se beneficiam do poder sobre os demais.

E esse jogo de poder e subserviência faz parte das relações sociais no país. Por onde estive pude perceber claramente essa situação. O autoritarismo e humildade convivem lado-a-lado e fazem parte da personalidade das pessoas.

Enquanto um motorista de rickshaw (a bicicleta) é agredido por um policial no trânsito com um cassetete por uma manobra imprudente (!), logo à frente ele se aborrece com um colega e reagi com o mesmo autoritarismo e desrespeito.

Durante uma visita a uma indústria têxtil em Dhaka pude observar as relações entre o alto e baixo escalão de funcionários e fiquei assustada com a forma como eles se tratam. O conceito de respeito aqui tem conotações bem diferentes do nosso ocidental. Um chefe se refere aos seus funcionários de uma maneira que classificaríamos de humilhação, mas que eles estão acostumados a entender. Gritos e insultos são comuns, expressões ríspidas e imperativas são empregadas num discurso seco e nada simpático. E os que recebem as ordens o fazem de cabeça baixa, mãos para trás, num gesto de resignação e respeito. E a alternância de “papéis” é algo comum e intrigante.

Em-visita-a-.jpg

E esse é mais um aspecto bem peculiar da cultura do oriente que tenho observado pelos países por onde tenho passado, e que aqui em Bangladesh achei ainda mais saliente. Na visita ao campo de refugiados Biharis que fizemos (veja a matéria de Bangladesh) pude começar a entender a origem desse comportamento através da educação das crianças. Elas são educadas autoritariamente com ordens, recebem penalidades físicas em público se fazem algo de errado – de tapas na cabeça a varadas com paus de madeira – e não se abalam com a correção, apesar de se redimirem pelo erro. E não são somente os pais que exercem o papel corretivo com as crianças, mas sim a comunidade. Algo muito diferente.

Homens-baten.jpg

Este é um aspecto que rege as relações entre eles, mas que não se estende aos visitantes. Pelo contrário, o respeito e a gratidão que sentem pelos que estão de passagem pelo país é algo que os torna um povo muito prestativo e atencioso. A religião não lhes permite grandes proximidades e culturalmente cria algumas barreiras, principalmente entre mulheres e homens, mas ainda fazem questão de serem solistas e muito receptivos. Tivemos duas experiências curiosas: numa delas estávamos na rua procurando por uma direção e um homem parou para nos ajudar e nos acompanhou até a porta do nosso destino, desviando seu caminho e perdendo quase uma hora do seu dia com isso; em outro caso, quando chegamos em Chittagong, um senhor, receoso por sermos mulheres e estarmos sozinhas, nos acompanhou com o táxi até o hotel e só nos deixou a sós quando percebeu que estávamos seguras e bem instaladas.

Video: Carinho das pessoas em visita a campo de refugiados ( Carinho das .MPG )

Viajantes mulheres em país muçulmano
Mas infelizmente boas ações como essas não estavam disponíveis todos os dias (o que não retira a minha impressão positiva do povo de Bangladesh), mas tenho que confessar que ser viajante - mulher - ocidental - branca em país muçulmano é algo que exige muito sangue frio, percepção e sensibilidade para perceber as diferenças culturais, morais, costumeiras e práticas, digamos assim. Por exemplo, mulheres não se sentam expostas em restaurantes. Existem lugares reservados com cortinas para que possam comer em privacidade e longe dos olhares masculinos. Cuidado com o que se veste é fundamental e por isso tivemos que comprar roupas locais para não chamarmos ainda mais a atenção. E mesmo o fato de andar pelas ruas gera um desconforto que não é comum. Todos olham, querem se aproximar e se paramos para comprar uma bebida que seja, quando olhamos estamos rodeadas de homens curiosos. Não me senti em perigo em nenhuma situação, mas a insegurança andava sempre comigo.

Escondidas-e.jpg

Mas Bangladesh não é só isso. Eu poderia escrever mil linhas e não conseguiria resumir a minha experiência no país. Foram quase quinze dias recheados de surpresas, vivências muito ricas; boas idéias sociais foram visitadas, tive contato com pessoas muito interessantes, enfim, poderia escrever um livro sobre o tema. Mas tenho que ser mais resumida, afinal preciso garantir que alguém irá ler este relato, e gostaria de me despedir com palavras mais conclusivas.

Bangladesh é muito mais do que pobreza concentrada, é muito mais do que corrupção, é mais do que um país marcado por lutas de independência e catástrofes naturais. É muito mais do um país persuadido por uma religião complexa, sistema político caótico e leis desleais. Bangladesh é um país de gente (muita gente) trabalhadora, nacionalista, que lutou por muito tempo por um país justo, democrático e independente e que há mais de trinta anos vem buscando esse fim. E como um país se faz com as pessoas, Bangladesh tem tudo para crescer, só precisa ter a chance de potencializar seus qualidades e pôr fim a sua história.

Bangladesh tem o meu voto de confiança e a minha geração ainda vai ver o despertar dessa tão jovem nação! E só uma questão de tempo e oportunidade!

Só para não sair sem falar das curiosidades...
*As mulheres casadas em Bangladesh são reconhecidas e identificadas pelo brinco no nariz, sabiam?

Brinco-no-na.jpg

*Em época de Copa do Mundo os torcedores de Bangladesh se dividem em duas torcidas: Brasil e Argentina! (Dá para entender?). Como o time de futebol do país não é lá grandes coisas, eles são fanáticos pelos dois times latino-americanos e durante os jogos fazem aportas, vestem as camisas e obviamente, acabam em briga!

*As mães aqui têm um costume muito esquisito de pintar os olhos dos bebês com lápis preto. Acham que fica bonito...

Crianças-em-.jpg

*Por ser um país de maioria muçulmana, sexta feira é o dia de descanso em Bangladesh e por ser religiosamente muito respeitado o comércio inteiro fecha. E é o único dia de descanso, porque a semana útil aqui começa no sábado e vai até sexta. Eles trabalham seis dias na semana e durante oito horas diárias. Que dia as pessoas vão ao banco, resolvem problemas burocráticos e fazem compras? Não sei...

*A culinária de Bangladesh consiste em arroz (muito arroz!) e galinha. Isso foi o que a gente comeu todos os dias na casa de família em que ficamos hospedadas...e detalhe, a mesma galinha da janta eles comem no café da manhã...

Arroz,-Galin.jpg

*Isso que vocês estão vendo é o sistema de proteção contra incêndio existente na maioria dos estabelecimentos de Bangladesh. Um cabide com baldes de areia!!! Essa foto eu tirei durante a visita à fábrica têxtil, em Dhaka. Agora cá para nós, isso não apaga nem brasa de churrasqueira...que perigo!!!

Sistema-cont.jpg

*Durante a visita a fabrica de roupas em Dhaka, eu tive um insight muito pessoal que registrei em video e queria dividir com vocês...

Video: Uma bermuda nunca mais será uma simples bermuda ( uma bermunda.MPG )





SEMANÁRIO - De 27 de outubro a 02 de novembro - Nova Dehli / Dhaka

A semana rotineira se repetiu, só que desta vez passamos os nossos dias reconstruindo os prejuízos que a Alice sofreu com a perda dos documentos no trem. Voltamos à Embaixada do Brasil para ela fazer outro passaporte, tivemos que tirar novos vistos para a Índia e para Bangladesh, que havíamos solicitado na semana passada.
Conseguimos tudo com tranqüilidade e na quarta feira estávamos prontas para seguir viagem novamente.

Alice-com-o-.jpg

Nepal, um destino desviado
No nosso cronograma de trabalho planejávamos visitar o Nepal e já estávamos com as agendas para os projetos sociais comprometidas no país quando resolvemos cancelar a nossa viagem ao país no Himalaia. Somado aos contra-tempos do trem, que atrasou ainda mais a nossa viagem, o Nepal está passando por alguns problemas políticos internos que estão comprometendo a segurança do país. Esses dois fatores nos levaram a desviar a viagem para Bangladesh. Foi uma opção muito difícil que tivemos fazer, mas a consideramos mais sensata e pertinente com os nossos objetivos.

Um pouco de história para os interessados II: A situação política no Nepal
O Nepal é desde de 1990 uma monarquia parlamentarista e as primeiras eleições livres do país em 1991 levaram o Partido Comunista do Nepal-Unificado Marxista-Leninista ao poder. Mas no ano seguinte, em 1992, o partido perde o apoio do Congresso e o Partido do Congresso Nepales, o famoso PCN, assume o país.
Em 1996 um partido clandestino conhecido como Partido Comunista Nacional, inspirado na filosofia do líder chinês Mão Tse-tung, inicia uma guerrilha no Nepal para derrubar a monarquia. Conhecidos como os “maoístas”, eles formaram um “exército” com mais de 50 mil guerrilheiros e durante cinco anos de disputa com o governo mais de 1,8 milhões de pessoas morreram no país.
Para completar o cenário caótico do Nepal, em 2000 uma chacina mata o rei, a rainha e mais nove membros da família real nepalense e esse acontecimento leva milhares de pessoas às ruas em protesto, que são fortemente reprimidos pela polícia. As investigações apontaram o príncipe herdeiro Dipendra como o autor do crime. Ele teria matado a família durante um jantar no Palácio porque estava sendo impedido de casar com uma jovem neta de um político indiano. Os soberanos temiam que o casamento causaria uma reação popular no país que poderia colocar o Nepal sobre a influência da Índia. Ele disparou balas contra todos os parentes e depois se matou. Mas ainda assim, agonizando no hospital e em como, ele foi declarado Rei. Mas dois dias depois ele veio a morrer e o seu Tio Gyanendra, que estava ausente do jantar real no dia da chacina, é coroado.
O Rei Gyanendra continua no poder, absoluto, e os “maoístas” nas ruas organizando rebeliões, que tem colocado o país em um estado de segurança muito delicado e instável. A situação de paz no Nepal é mantida a base de acordos, mas ainda assim podemos ver nos jornais novos ataques dos guerrilheiros que se apossam de áreas rurais do país e tomam conta de fronteiras em protesto à monarquia absoluta e ao PCN, que também continua no poder.

Viagem para Bangladesh
Iniciamos a nossa longa viagem para Bangladesh na quinta feira e só chegamos em Dhaka, a capital do país, no sábado à noite. Nesse meio tempo pegamos um trem de Nova Dehli para Calcutá e durante 26 horas praticamente atravessamos a Índia de um lado a outro, depois pegamos um ônibus e por mais 12 horas viajamos e cruzamos a fronteira entre os dois países. Ufa! Chegamos!

Viagem-de-tr.jpg


O que é Bangladesh? O que existe em Bangladesh? O que estamos fazendo em Bangladesh?

Olhaacondica.jpg

Calma. Tudo será explicado!
Confesso que temos muitas coisas para falar deste país, muitas coisas serão reveladas nos próximos dias, há muito que ser descoberto sobre o povo de Bangladesh, seus costumes e vidas. Mas vamos por parte. Vou começar pelo o que eu sei.

*Bangladesh é uma “Índia independente”, em outras palavras, o território que hoje compreende o país pertencia à Índia, passou a ser do Paquistão e há pouco mais de trinta anos é Bangladesh independente.

*Bangladesh é um dos países com a maior densidade populacional do mundo, em outras palavras, aqui tem mais gente por metro quadrado do que em qualquer outro país. Para vocês terem uma idéia, em Bangladesh vive cerca de 140 milhões de pessoas em uma área territorial menor do que o Estado de São Paulo.
Vocês conseguiriam imaginar mais 100 milhões de pessoas no Estado de São Paulo? Obviamente que não, né? Mas é possível.
E olhando as estatísticas, lugares como Cingapura (cidade e não país), Hong Kong, Vaticano e Mônaco (pasmem!) tem a relação habitante/km² ainda pior.
Aqui em Bangladesh são quase 1000 habitantes por km² e em Mônaco são 17.000!!! (Tudo bem que Mônaco é o segundo menor país do mundo - só perde para o Vaticano, mas mesmo assim os ricos também vivem empoleirados...). Só para efeito de comparação (e alívio!) no Brasil a relação são de 20 habitantes/ km².

*Bangladesh é um país de maioria islâmica. Cerca de 85% da população do país é muçulmana e o país está entre os três maiores países islâmicos do mundo, juntamente com a Indonésia e o Paquistão. Detalhe: nenhum dos três países é árabe, o que atesta a expansão em massa da religião.

*Bangladesh tem a maior praia do mundo em extensão de areia. Cox’s Bazar, como é chamada, tem 120 km de praia ininterrupta. Localizada ao sul de Bangladesh, numa espécie de península, a praia é um dos principais atrativos do país.

*Bangladesh é o país mais corrupto do mundo. Por três anos consecutivos Bangladesh está liderando o ranking dos países mais corruptos do mundo, segundo pesquisa realizada pela ONG Transparência Internacional (TI). Nigéria e Paraguai ocupavam o segundo e terceiro lugar, respectivamente, enquanto o Brasil aparece na 45ª colocação, mesmo patamar da Bulgária, Jamaica, Peru e Polônia. O país mais correto do mundo é a Finlândia, seguido da Dinamarca e Nova Zelândia.

*Bangladesh tem o maior cemitério de barcos do mundo. Localizado em Chittagong, a segunda maior cidade do país e a principal base portuária de Bangladesh, o cemitério de barcos de pescadores e sucatas de outras embarcações ali abandonos é tão bizarro que se tornou ponto turístico do país. (Nós vamos tentar visitar a área para reportar mais detalhes...)

*Bangladesh é um país localizado em baixas latitudes, ou seja, cerca de 90% de seu território está a menos de 10 metros acima do nível do mar, e por isso o país sofre com as freqüentes inundações que provocam enormes prejuízos e mortes. Além disso, Bangladesh é alvo dos ciclones, que fazem estragos em toda a costa do país. Em 1991, por exemplo, meio milhão de pessoas morreram vítimas do fenômeno.

Acho que está bom para uma primeira apresentação, não? Estamos aqui porque vamos visitar alguns projeto de micro-credito e agricultura familiar, que depois conto mais detalhes.

Video: Bangladesh ()

Nossa família hospedeira
Estamos hospedadas na casa de uma família muçulmana típica de Bangladesh. Eles têm um bom padrão de vida e o pai da família é Capitão reformado do exército de Bangladesh (aí que medo!). Mas há alguns anos ele abandou a carreira militar e hoje trabalha em uma das maiores fábricas têxteis do país. A mulher é dona de casa e cuida dos dois filhos: uma menina de 16 anos, muito tímida e pouco falante, e do menino de 2 anos, uma pestinha!
Com isso estamos quase completando a nossa peregrinação por casas de famílias, onde já experimentamos viver com hindus, católicos, protestantes e agora muçulmanos. Só estão faltando os budistas (que vamos encontrar na Tailândia) e os ateus!

Familiahospe.jpg





SEMANÁRIO - De 20 a 26 de outubro - Nova Dehli

Essa foi uma semana intensa de trabalho escrevendo relatórios, matérias, fazendo contatos e por isso todos os dias foram muito iguais e quase que rotineiros. Todos os dias a gente acordava e se instalava em uma das salas do escritório onde também estávamos hospedadas e começávamos a trabalhar. Quando chegava a noite a gente parava para sair para comer e voltávamos para o escritório onde varávamos a madrugada produzindo...

Trabalhando2.jpg

Rotinas mutantes
Se eu passar mais de dois dias em um lugar já começo a criar hábitos locais e a fazer amizade com as pessoas. Todos os dias em comprava Coca-Cola na mesma venda, fazia ligações telefônicas da mesma cabine (onde o dono era um religioso fanático e enquanto eu esperava pela minha vez de telefonar, ele ficava me contando de suas crenças e seus Deuses...), ia jantar no mesmo lugar, comia a mesma comida (que era deliciosa!) e ao final de uma semana o Sr. do restaurante já sabia até o que eu ia pedir e a quantidade que queria...pena que tudo isso dura pouco. Daqui a pouco eu tenho que sair daqui e criar novas manias em outro lugar...

Estava pensando...
Os motoristas de motos em muitas cidades indianas não usam capacetes, apesar do trânsito ser muito caótico e os riscos serem grandes. Mas como eles poderiam usar capacetes e turbantes ao mesmo tempo? Tirar os turbantes eles não vão, então é preciso criar um capacete que proteja a cabeça, mas que seja colocado por cima do turbante...Imaginem isso?

Muitas dificuldades para sair de Nova Dehli
Passamos a semana inteira tentando encontrar a melhor forma de ir por terra para o Nepal, saindo de Nova Dehli e passando por Varanasi, a cidade famosa pelos rituais religiosos no Rio Ganges. Mas na Índia está acontecendo o Diwali, uma comemoração hindu que pela grandeza e importância pode ser comparada ao Natal para os cristãos. As pessoas viajam por todo o país para passar o festival com as famílias e por isso estamos tendo muitos problemas para conseguir sair da cidade.

Diwali, a maior festa hindu
Por outro lado estamos tendo a sorte de estar na Índia para ver as comemorações festivas do Diwali, a festa das luzes, como é conhecido pelos indianos. Durante cinco dias os hindus enfeitam suas casas com luzes e velas e as decoram com fitas e flores coloridas. As cidades ficam lindas e mágicas e as pessoas se presenteiam com doces e soltam fogos de artifício pelas ruas. Como os outros festivais indianos, o Diwali tem interpretações diferentes de acordo com as regiões do país. No norte da Índia por exemplo, o Diwali celebra o retorno do Deus Rama à Índia depois de uma temporada preso no Sri Lanka, e sua posterior coroação como Rei. Em Gujarat, outro Estado indiano, o Diwali homenageia Lakshmi, o Deus da riqueza, já em Bengal o festival é para o Deus Kali, e assim vai. Mas em toda a parte o festival significa a renovação da vida e por isso as pessoas compram roupas e jóias novas, fazem reformas em suas casas ou trocam de carro. O Diwali é o maior festival indiano e também marca o ano novo hindu e o fim do verão e a chegada do inverno no país.
...Estar aqui no Diwali vai ser uma boa forma de se despedir da Índia em grande estilo e vamos fazer a nossa “renovação” trocando de país (he,he,he)


Diwali.jpg

Sexta 24
Sabe aqueles dias que começam mal e terminam ainda piores? Hoje, sexta 24! Depois de uma semana tentando encontrar uma passagem para ir a Varanasi, compramos um ticket para o trem das 6 horas da manhã e adivinhem? Perdemos a hora e o trem!!
Acordamos desesperadas e já era tarde demais. Fomos para a estação de trem e para a nossa sorte (ou azar...que vocês entender porque...) conseguimos comprar um outro ticket para o trem das 10 horas da noite. Já estávamos com as nossas mochilas e as colocamos num guardador e fomos passear pela cidade, afinal não tínhamos tido tempo para conhecer Nova Dehli até então. Fomos a uma mesquita, andamos por mercados da Old Dehli e fizemos compras.

Mesquita
Dentre todas as obrigações religiosas de um muçulmano, uma delas é ir a uma mesquita todas às sextas-feiras, que é considerado o dia santo e sagrado no islamismo, onde devem assistir a uma cerimônia e ouvir a khut-bah, o sermão do meio-dia.

Mesquita.jpg

E foi exatamente neste horário que chegamos na Mesquita Central de Nova Dehli, na intenção de assistir à cerimônia religiosa e se interar um pouco mais sobre a religião islâmica, tão difundida mundialmente nos últimos anos e ao mesmo tempo considerada tão polêmica e estranha para muitos que não a conhecem.
Mas para a nossa surpresa e decepção não fomos permitidas de participar da reza. O fato de não sermos muçulmanas, somado ao fato de sermos estrangeiras e mulheres (!) transformou a nossa visita em uma frustração.

Expulsas-da-.jpg

Literalmente expulsas por um muçulmano ortodoxo responsável pela administração da Mesquita, tivemos que sair e assistir a toda a reza de fora da Mesquita.
Fiquei muito chateada com o que aconteceu e ofendida com o Sr. que não fez questão de ser nenhum pouco educado ou solista com a gente (Ouvimos “Saiam daqui!). Mas isso me causou ainda mais interesse em saber e conhecer mais a fundo os preceitos dessa religião tão extremista, tão fechada e tão segregadora.

Homens-rezan.jpg


Video: A reza muculmana ( Rezamuculman.MPG )

Fiquei do lado de fora vendo multidões de homens se dirigindo à Mesquita e pensando em como o islamismo evangeliza as pessoas e se expande pelo mundo se não é possível que se tenha acesso aos seus rituais e cerimônias antes que se torne um deles? Fiquei me perguntando onde estamos as mulheres. Elas não são bem vindas nas Mesquitas? Não participam das rezas? Alguém já foi expulso de uma Igreja, Sinagoga ou Templo antes?
Muitas questões e dilemas religiosos tomavam a minha cabeça e aos poucos fui me tranqüilizando de que não adiantava tirar de apenas uma experiência uma conclusão taxativa de uma religião, situação ou grupo de pessoas. Transformei essa injustiça em um desafio pessoal: farei todos os esforços para tentar achar uma resposta humanista, verdadeira e de bom senso que argumente e explique com sensatez o significado do que aconteceu. (Se é que encontrarei...)

E aí...
Voltamos para a estação pouco antes das 9 horas da noite porque precisávamos pedir o reembolso da passagem do trem da manhã que havíamos perdido.
A estação estava absurdamente lotada, gente que não acabava, um tumulto assustador e eu e a Alice tivemos que nos separar para dar tempo de resolver tudo antes de pegar o trem.

Multidao-na-.jpg

Ela foi para a fila do reembolso enquanto eu fui buscar as mochilas no guardador. Marcamos de nos encontrar na plataforma do trem, a maldita plataforma número 9!
Eu peguei as mochilas que somadas pesavam um pouco menos que 50 kg e com uma nas costas e a outra na frente andei da plataforma 1 até a 9, subindo e descendo escadas e atropelando milhões de pessoas que estavam na estação, e a Alice ficou no guichê.

Plataforma # 9
Quando cheguei na plataforma 9 e avistei o trem eu tomei um susto! “Meu Deus, o que é isso?”, pensei. O trem estava absurdamente lotado e não havia nenhuma porta em nenhum vagão em que eu pudesse entrar. Havia gente pendurada na porta, em cima do trem e pelas janelas eu podia ver pessoas amontoadas dentro dos vagões. Fiquei em estado de choque, olhando para o trem e pensando o que eu poderia fazer.

Trem-fantasm.jpg

A maioria das pessoas que estava dentro do trem não tinha ticket e iria viajar ilegalmente, e eu, com as reservas na mão, estava pensando que naquela altura e condição os meus acentos não tinham mais donos...
Pessoas passavam por cima das cabeças das outras tentando entrar no trem, muitos homens brigando, pessoas gritando e eu vendo aquilo tudo parada na porta do vagão que eu supostamente deveria pegar.

Um-caos.jpg

Eu não tive coragem de me mover, fiquei em estado de choque, parada na frente do trem, com as mochilas nos meus pés, vendo a condição sub humana que as pessoas se submetiam, e esperando a Alice chegar...
...E o trem saiu e a Alice não chegou...
Eu continuei parada no mesmo lugar esperando ela e depois de meia hora, quando a plataforma já estava vazia, vi que ela não estava lá. Continuei esperando achando que a Alice havia perdido a hora no guinche do reembolso e que estaria vindo.
Enquanto isso ratos passavam na minha frente, pessoas faziam suas necessidades nas plataformas no trem, outras dormiam espalhadas pelo chão, policiais em revistas andavam sem fazer revistas (...), muitos mosquitos e um barulho infernal.
...Mas eu estava esperando a Alice chegar e era melhor que não me movesse...
Depois de 40 minutos eu comecei a ficar preocupada e perguntei a um dos policiais se havia algum sistema de comunicação na estação onde eu pudesse fazer um chamado. Sim, tinha e foi para lá que eu fui. Achava que a Alice estava em uma outra plataforma e queria avisá-la que estava na plataforma 9 para que viesse me encontrar.
“Alice, favor dirigir-se à plataforma número 9, Renata espera por você”...
”Alice, favor dirigir-se à plataforma número 9, Renata espera por você”...
O anúncio foi feito 5 vezes.
... e eu na plataforma número 9 esperava pela Alice...
... que não vinha...
Nesse momento eu já estava muito mais preocupada, imaginando coisas e tentando achar tranqüilidade e serenidade para agir com a minha cabeça e não com a minha emoção...que neste momento, inconscientemente, falava mais alto...
Fui até o guichê do reembolso e perguntei ao atendente se uma “gringa” havia estava lá para pegar um reembolso e ele me confirmou que sim e me mostrou o livro onde ela assinou para atestar que havia retirado o dinheiro.

Hora da retirada: 21:53.
Pronto, neste momento eu confirmei que a Alice havia tido tempo de ir até a plataforma e que supostamente havia tomado o trem...
Nãooooo!!
A Alice entrou no trem? Como ela conseguiu fazer isso? Não é possível...
Fiquei parada pensando o que fazer...e pensei por 4 horas...até que às 5 horas na manhã, já exausta, decidi que o melhor que eu tinha a fazer era voltar para o escritório onde estávamos hospedadas para pedir ajuda às pessoas. Não adiantaria eu pegar o próximo trem porque definitivamente nos perderíamos uma da outra.
Voltei para o escritório e a primeira coisa que eu fiz foi escrever um e-mail para ela dizendo onde eu estava e contando o que havia acontecido comigo, e comecei a rezar para que ela tivesse a mesma idéia de checar o e-mail para saber de mim.
E foi exatamente o que ela fez quando desceu na primeira estação em que o trem parou, depois de 10 horas de viagem. Logo ela me ligou e fiquei sabendo que (coitada!) havia viajado em pé todo o tempo e que para completar, havia perdido todos os documentos (inclusive o passaporte) e dinheiro ao entrar no trem. Ela estava muito desesperada e chorando muito, traumatizada com o que havia vivido. As pessoas do escritório se mobilizaram e ela pegou um trem de volta no mesmo dia para Nova Dehli.

Alice no País do Pesadelo
Ela chegou no domingo pela manhã bem cedo, depois de mais 12 horas de viagem de volta. Estava aparentemente muita cansada e com os olhos inchados de tanto que chorou e nada dormiu. A Índia tinha se transformado em um pesadelo para ela (veja o depoimento dela no diário). Eu fiquei muito abalada com o que ela passou e fiquei o resto do dia fazendo todas as vontades dela, a bajulando bastante e dando todo o carinho e atenção que ela merecia para ficar melhor!


“Não há mal, que por bem não venha”
Sabiamente o ditado diz tudo o que concluímos dessa história. Eu e a Alice, cada uma em sua experiência, tiramos grandes lições do que passamos que vão contribuir para nosso amadurecimento e crescimento pessoal.
...E como diz o outro, “faz parte!” (Que lembrança mais besta! Eu estava indo tão bem...desnecessária a citação, eu sei. )





DOMINGO, 19 de outubro – Agra

Agra, a cidade do Taj Mahal
Acordamos bem cedo hoje para aproveitar o dia e ir a Agra, a cidade do famoso Taj Mahal, o monumento símbolo da Índia. Pegamos uma van lotada e apertada e por 4 horas viajamos por estradas terríveis e sem pavimentação até chegar à cidade.
Agra era a antiga capital da Índia no tempo dos Mongóis, no século XVI e XVII, mas hoje a cidade está muito mal tratada, suja, poluída e barulhenta. É inacreditável pensar que aqui fica uma das 8 maravilhas do mundo, o Taj Mahal.

Taj Mahal
O Taj Mahal está para a Índia assim como a Torre Eiffel está para Paris, sendo a construção que melhor representa o país mundialmente. Este famoso monumento mongol foi construído pelo Imperador Shah Jahan em memória a sua mulher Mumtaz Mahal, “a mulher do Taj Mahal”. É considerado o mais extravagante monumento construído por amor já visto, porque quando a Mumtaz morreu, em 1629, o imperador mandou construí-lo para guardar o seu túmulo. Mais de 20 mil homens foram recrutados de toda a Ásia para trabalhar na construção do Taj que durou mais de 20 anos para ser concluída. Arquitetos também foram trazidos da Europa e Oriente Médio.
Existem muitas histórias e algumas lendas sobre o Taj Mahal, mas uma delas conta que o imperador gostaria de ter construído um segundo Taj Mahal, todo trabalhado em mármore preto para ser a imagem negativa do monumento atual, onde ele gostaria que fosse depósito o seu túmulo, mas antes que ele começasse a iniciar este projeto, o seu filho, Aurangzeb, então no poder, o impediu (uma pena!)
Shah Jahan passou o resto da sua vida contemplando o túmulo da sua mulher no Taj Mahal da vista que possui do monumento no Agra Fort, o palácio real da cidade daquele tempo. Quando morreu seu corpo também foi depositado no Taj Mahal, ao lado de sua mulher.

TMahal.jpg

Uma decepção
Chegamos à cidade no final da manhã e fomos direto para o Taj Mahal. A Alice não estava conseguindo conter a ansiedade para ver o Taj, para ela era uma sonho a ser realizado. Mas para a nossa decepção, não o vimos propriamente. Isso mesmo. Os estrangeiros, para a nossa surpresa, precisavam pagar 750 rúpias de entrada, o que equivalem a R$ 50, enquanto que os indianos pagavam somente 20 rúpias. Ficamos indignadas com a descriminação e abuso do governo da Índia e com a falta de respeito com os estrangeiros que se dispõem a visitar o país. Em protesto, resolvemos não entrar e visitar o Taj Mahal.
Eu, que já não fazia tanta questão mesmo, nem liguei. Mas que é um absurdo, é com certeza.


Mas, como a gente não é boba...
Achamos um atalho e vimos o Taj Mahal quase todo. Obviamente que não entramos no monumento e não fizemos uma verdadeira visita analisando os detalhes e tudo mais, mas vimos muitas coisas sim. Achamos uma vista que fica atrás do Taj, onde na verdade fica um lixão e por onde passa um rio e de lá pudemos ver, enfim, o suntuoso monumento branco, todo de mármore trabalhando, realmente deslumbrante!
Para mim foi o suficiente! Vou comprar um bom livro de fotos (que vai me custar a metade do preço!) e vejo os detalhes em casa, sentada no sofá tomando um café!

TajMaha3.jpg


VIDEO: TAJ MAHAL ( TajMahal.MPG )

Eu tenho cara de U$ 100?
A cada dia que passa eu estou mais irritada com os vendedores ambulantes da Índia. Eles são insistentes, te perseguem, insistem para que comprem e não te deixam em paz até você dê um berro! No principio eu era muito educada, dizia não e agradecia, dava papo, mas agora a minha vontade é pegar uma bazuca e mirar em todos eles para que se explodam! (Nossa quanta violência!). Sinceramente, paciência tem limite. E agora eu estou mais espertinha e fico ainda mais indigitada com a cara de pau dos vendedores que acham que gringo é trouxa (e é mesmo!). Eles aumentam absurdamente os preços das coisas quando vêem que você é estrangeiro, a ponto de você barganhar e o preço cair mais da metade. Ai você compra, sai feliz da vida achando que fez um ótimo negócio, que é um bom comprador, e quando vai ver, caiu novamente no jogo sujo e desonesto dos vendedores indianos. Agora quando alguma coisa custa 100 rúpias, por exemplo, ofereço 5, e ainda fico no prejuízo!

Mulher-viajante...e brasileira
Não é fácil ser mulher-viajante, tenho que confessar e em se tratando de ser brasileira então, o negócio fica ainda mais complicado. Não corremos perigo físico propriamente dito (pelo menos aqui na Índia), mas estamos sempre tendo que passar por algumas situações das quais os homens são poupados! Quando perguntam da onde somos e falamos que somos do Brasil, pronto, pedimos para ouvir! A vontade que eu tenho é de dizer que eu sou do Suriname, de verdade!! Porque o Brasil construiu uma imagem internacional tão ligada à mulher, a sexualidade e a nudez?
...Fui a uma livraria um dia desses e peguei um guia de viagens do Brasil para folhear e a minha vontade era de chorar, de verdade! A cada duas fotos do livro, uma era de uma mulher semi-nua, e a outra de uma bunda (desculpem!) de fio dental! Sinceramente, o Brasil é muito mais que isso! O enfoque do guia é terrível, as abordagens falsas, apelativas, sem conteúdo cultural apropriado, enfim, uma catástrofe!
...Por outro lado, sinto um orgulho muito grande de ser brasileira. Quando não ouvimos gracinhas (deixa para lá!), a receptividade que recebemos das pessoas quando falamos que somos brasileiras é maravilhosa! O Brasil é um país muito querido, todos conhecem nossa alegria de viver, nosso futebol (Ronaldo é mais conhecido aqui do que Gandhi!), nossa floresta e o admiram muito por isso.
...Aqui na Índia existe um conjunto famoso que canta uma música do Brasil e todas a conhecem e quando falamos que somos brasileiras pronto(!), começam a cantar. “Brasil, lá,lá,lá, Brasil, Brasil, Brasil” Engraçadíssimo! Nós sentimos lisonjeadas!





SÁBADO, 18 de outubro – Nova Dehli

Dia comum de trabalho no escritório.





SEXTA-FEIRA, 17 de outubro – Nova Dehli

Visto para Bangladesh
Fomos para a Embaixada de Bangladesh e ficamos duas horas para conseguir um visto para o país. Muitos documentos e formulários são exigidos e uma fila de pessoas espera para ser atendida. Vamos precisar voltar amanhã para pegar o passaporte.

Reunião com a Unesco
Estivemos no escritório da Unesco em Nova Dehli e pudemos conhecer melhor o trabalho da organização no país. Fomos recebidas pelo Chefe do Departamento Cultural, Sr. Prithiviraj Perera, que nos descreveu os projetos voltamos para a educação que a Unesco Dehli está envolvida no momento. Um projeto de educação multi-gradual está sendo implementado e o assunto nos interessou bastante, porque é complementar ao Projeto da Escola do Vale do Rishi (ver matéria)

Unesco.jpg

Música para os nossos ouvidos
A noite fomos a uma concerto de música clássica indiana na Gate of Índia, um ponto histórico importante da cidade. Ganhamos os convites numa livraria a tarde e não poderíamos perder essa oportunidade única de escutar ao vivo os sons dos tablas e citas, instrumentos musicais indianos clássicos.





QUINTA-FEIRA, 16 de outubro – Nova Dehli

Tivemos de deixar o Albergue bem cedo para buscar um outro lugar para ficarmos hospedadas porque eles estão com todas as acomodações lotadas para os próximos dias, e esse foi o maior desafio do nosso dia.

Embaixada do Brasil
Hoje estivemos na Embaixada do Brasil e fomos muito bem recebidas pelas pessoas. Tivemos uma recepção com direito a pastel do Brasil e tudo. A Embaixada já havia sido comunicada do Projeto Realice e da nossa visita pelo Ministério das Relações Exteriores. Passamos a tarde conversando com a Secretária de Assuntos Sociais da Embaixada e infelizmente não pudemos ser recebidas hoje pela Embaixadora. Ela estava super ocupada com os tramites da visita do Ministro Celso Amorim à Índia no próximo domingo.

Desastre diplomático
A Embaixada nos cedeu uma linha telefônica para que pudéssemos trabalhar e gentilmente a Secretária Guiliana me cedeu a sua mesa. Para o meu desespero, estava eu trabalhando quando esbarrei em um copo e derramei toda a água na mesa da Secretária. Ela não estava na sala, tinha saído para uma reunião, e eu fiquei em estado de choque, sem saber o que fazer vendo aquela mesa toda inundada. Que vexame! Corri, peguei um pano e enxuguei tudo e pedi mil desculpas a ela pelo meu descuido. Fui gentilmente perdoada!

Enquanto isso...
A Alice corria a cidade em busca de uma hospedagem barata e bem localizada para a gente. Como está acontecendo um Festival de Cinema em Nova Dehli e na próxima semana a Índia terá um grande feriado, todas os albergues e hostess estavam lotados e só nos restava hotéis 5 estrelas. Impossível!
Então ela, muito sagaz, começou a contatar diversas pessoas amigas em outras cidades da Índia e acabamos encontrando um amigo do amigo do Madhav, da nossa segunda família em Mumbai, que mora em Nova Dehli. Resumo da opera, ele tem uma agência de viagens e nos fundos tinha um quartinho vazio que cedeu para a gente se alojar. Perfeito! Vamos ficar aqui e aproveitar as facilidades do escritório para trabalhar e planejar os próximos passos do Projeto.

No-Escritori.jpg

Lembranças do deserto
Tenho espinhos do deserto por todo o corpo. Toda hora preciso parar para fazer uma intervenção cirúrgica para retirá-los e a Alice é a minha enfermeira

Espinhos-do-.jpg





QUARTA, 15 de outubro – Nova Dehli

Chegamos no inferno. Nova Dehli é São Paulo piorada (e bota piorada nisso!). A cidade é cinza e enfumaçada e a poluição é tão grande que dá até falta de ar. Terrível.
Chegamos na estação às 13 horas e fomos para o Albergue da Juventude, de onde começamos a fazer os nossos contatos de trabalho na cidade. Queremos otimizar a nossa passagem pela cidade porque não dá para ficar muito tempo aqui não...Pelo amor de Deus, quero embora rápido!





TERÇA FEIRA, 14 de outubro – Jaisalmer / Nova Dehli

No-trem-para.jpg

Pegamos o trem para Nova Dehli e depois de dois dias imergidas em areia no deserto, fomos surpreendidas com uma viagem que parecia estar atravessando o deserto de novo. O trem não podia ficar com as janelas abertas porque uma nuvem de poeira entrava nos vagões e embasava tudo. Os olhos ardiam de tanta poeira e respirar estava sendo uma tarefa difícil. Depois de duas horas de viagem os acentos estavam cheios de areia e dormi nessas condições foi um sacrifício. Detalhe: a viagem durou 21 horas.





DOMINGO E SEGUNDA-FEIRA, 12 e 13 de outubro – Deserto do Thar

Uma viagem pelo deserto
Nós saímos cedinho de Jaisalmer em direção ao deserto de Thar, na fronteira com o Paquistão. Tivemos que planejar essa viagem com todo o cuidado porque a região não tinha nenhuma estrutura e era uma viagem de risco pela localização estratégica do deserto. Montadas em camelos enormes, passamos dois dias isoladas percorrendo regiões e comunidades remotas, numa mistura de aventura, desbravamento, imersão social e introspecção pessoal.

No-deserto-d.jpg

Conhecemos um colombiano chamado Alexandro que está realizando um estudo para uma Universidade da Holanda (Roterdam) em comunidades isoladas, onde pretende desenvolver projetos de auto-sustentabilidade de vilas em aéreas sem infra-estruturas de educação, moradia e comunicação principalmente. Nos juntamos a ele nessa viagem e fomos em buscas de histórias sociais, de idéias e projetos possíveis.
Encontramos uma região desértica com pequenas comunidades pinceladas em grupos pequenos, muitos distantes umas das outras. A fonte de renda dos moradores se abstinha a agricultura de uma espécie de melancia, que é cultivada na época das mansões, o período de chuva na Índia, e artesanatos locais, que são vendidos em grandes centros de comércio, como Jaisalmer, Jodhpur e Udaipur.

Video: Deserto ( Deserto.MPG )

As casas são feitas de barro e lembram muito a arquitetura do sertão nordestino. Nessa época do ano é possível encontrar água nos poços artesanalmente construídos pelos habitantes, mas no verão, quando a temperatura chega a 50 graus, as pessoas migram do deserto para grandes centros urbanos, onde conseguem trabalhos informais, e o principal destino é Nova Dehli.
Não encontramos escolas com freqüência e a maioria da população é iletrada. O meio de transporte dos habitantes é o camelo, que também é considerado uma fonte de renda local. Cada animal custa em média U$ 150 e são comercializados em grandes feiras no deserto. Em média um camelo vive entre 25 e 30 anos e as fêmeas parem uma média de 3 a 4 camelos em vida, o que garante a rentabilidade do negócio. Na maioria dos casos, este negócio é herança de família.
Um outro aspecto é que a maioria dos habitantes do deserto são muçulmanos, o que é explicado pela influência da proximidade com o Paquistão e as pessoas possuem fisionomias mistas, fruto da mistura de persas com hindus. O idioma local é o Urdu, um dos 15 dialetos oficiais da Índia.

Com-crianças.jpg

Pelas vilas em que passamos não encontramos nenhum trabalho de projetos sociais, o que nos fez pensar que a pesquisa do colombiano de desenvolvimento de comunidades isoladas tem fundamento e campo de atuação vasto. Mas ainda mais importante do que isso, é preciso estudar uma maneira de ajudar socialmente essas pessoas sem agredir seus costumes e tradições. Esse é o ponto chave do trabalho dele, que tivemos o prazer de acompanhar nesses dois dias no deserto.

Nossa rotina no deserto
Começamos a viajar no domingo bem cedo. Pegamos um Jipe e percorremos 70 km até chegar na primeira vila da nossa jornada, onde tomamos café e pegamos os camelos.

Meu-camelo-P.jpg
Por duas horas viajamos montadas no animal e quando o Sol começou a ficar muito forte paramos na sombra de uma árvore (que foi mapeada com muito cuidado...he,he,he) para comer e descansar um pouco até que o calor diminuísse.

No-deserto-o.jpg

Por volta das 16 horas voltamos a viajar e percorremos mais cerca de 20 km onde começamos a fazer as visitas nas vilas. Algo impressionante! Volto a dizer, o ser humano é o animal mais adaptado do mundo! Por volta das 18 horas, quando o Sol estava se pondo, paramos nas dunas para completá-lo e ali decidimos passar a noite.

Por-do-sol-n.jpg

Improvisamos uma fogueira e comemos um jantarzinho bem gostoso, com direito a areia e tudo. Estendemos nossos sleep bags na areia e ficamos esperando o nascer da lua, que para a nossa surpresa estava cheia. Um espetáculo natural emocionante. Dormimos ao relento, olhando para o céu e vendo estrelas cadentes.

Dormindo-ao-.jpg

Acordamos na segunda-feira com o nascer do Sol e logo nos preparamos para seguir caminho e pela manhã paramos em outras vilas. Quando o Sol estava a pino paramos novamente para dar água aos camelos e descansar um pouco. O calor e o clima do deserto cansam muito e a tarde seguimos viagem, dessa vez em uma rota sem parada, porque precisamos alcançar a vila onde o carro nos buscaria antes do anoitecer.

Camelos-tamb.jpg

Chegamos ao final da expedição desértica destruídas fisicamente, mas com o espírito e a alma renovados. Tínhamos espinhos em todas as partes do nosso corpo e nossas coisas estavam cheias de areia, mas nossas cabeças estavam fervilhando de aspirações.





SÁBADO, 11 de outubro – Jaisalmer

Jaisalmer, a Cidade Dourada

Jaisalmer-01.jpg Não existe nada na Índia parecido com essa cidade. Jaisalmer é uma fortaleza dourada no meio do deserto e sua beleza e originalidade te transpõe para um outro tempo, a idade média oriental. Esse lugar mágico e incomparável foi séculos atrás uma cidade estratégica para o comércio de camelos entre a Índia e a Ásia Central. Os comerciantes construíram naquele tempo magníficas mansões, chamadas de havelis, todas trabalhadas em madeira e pedras amarelas e douradas, que são as responsáveis pelo aspecto exótico da arquitetura do lugar.

Militares-do.jpg Pela proximidade com o Paquistão, Jaisalmer foi palco de uma disputa entre indianos e indo-paquistanes em 1947, data da Independência do país, e ainda nos dias de hoje a região é considerada delicada entre os dois países rivais. A Índia possui uma estratégica base militar do exército no deserto, nas cercanias do Forte de Jaisalmer. Na cidade é comum encontrar soldados armados em revista, carros tanques e outras ornamentarias bélicas.

Chegamos a noite na cidade, depois de mais de 8 cansativas horas de viagem pelo deserto. Daqui vamos partir para uma viagem pelo deserto para conhecer as comunidades que lá vivem.





SEXTA-FEIRA, 10 de outubro – Deshnok

Templo-Karni.jpg Templo da Karni Mata
Em Deshnok existe um grande templo dedicado a Karni Mata, uma deusa que viveu no século XIV e que ficou conhecida pelos milagres que realizou em vida, e por isso foi considerada como a reencarnação da Deusa Durga, a Deusa do poder para os hindus.
Ela viveu nessa região da Índia durante 150 anos e depois de sua morte o Marajá Ganga Singh mandou construir um enorme templo com portões de prata, cavernas trabalhadas em mármores branco e uma suntuosa cúpula de ouro no topo para adorá-la.

Video: Templo dos Ratos ( Templo dos r.MPG )

Ratos.jpg Mas não foi a arquitetura do templo que nos fez percorrer mais de 700 km para estar aqui, e sim os ratos. Isso mesmo, ratos. Assim como as vacas, os ratos também são considerados sagrados para os hindus e neste templo eles são adorados como deuses. Mais de 200 mil ratos vivem livremente no templo e são visitados por milhões de fiéis de toda a Índia.

A lenda diz que os ratos representam os membros da família da Karni Mata reencarnados e que a Deusa especialmente está reencarnada em um rato branco, único dessa cor em todo o templo.

Procurando-p.jpg Os hindus passam o dia inteiro dentro do templo procurando e rezando em buracos e ninhos para encontrar o tal rato branco, que uma vez visto, traz muita sorte. E realmente não é uma tarefa fácil encontrá-lo no meio de milhões de ratos que transitam livremente pelo grandioso templo.
Passamos a manhã toda neste templo produzindo um vídeo, acompanhando a adoração dos fiéis e obviamente, procurando pelo rato branco, que apareceu para a gente sem querer. (Muita sorte para as Realices, que a gente está mesmo precisando!)

Sentada-com-.jpg Devo assumir que essa experiência exigiu muito da minha pessoa (não gosto nem de lembrar...). Nunca imaginaria que um dia eu estaria rodeada de ratos, tranqüilamente os vendo passar de um lado para o outro, tão próximos de mim que às vezes tocavam o meu pé (ri, ri, ri!!). Nunca poderia imaginar que suportaria o cheiro de um lugar onde há muitos anos vivem milhões de ratos. Nunca imaginaria que eu pela imagem, pela notícia, pela experiência pegaria pelo rabo de um rato e sentaria em uma sacada para que eles viessem até a mim. Nunca imaginaria...

Pé na estada II
Saímos de Deshnok em direção a Jeisalmer, uma cidade histórica indiana, de onde partiremos para uma viagem por vilas e povoados do deserto.

Um balanço da Índia
Até o momento já percorremos mais de 6000 quilômetros na Índia passando por 10 cidades, fora as vilas e povoados. Dormimos em 16 lugares distintos, entre casas de família, pensões, escolas, acomodação de Igreja e hostel. Pegamos 12 conduções entre ônibus, trem, carro e van e passamos mais de 120 horas em trânsito. Aja fôlego para 40 dias de viagem!





QUINTA-FEIRA, 09 de outubro – Deshnok

Nosso-carro-.jpg Pé na estada
Saímos de Jaipur em direção ao norte da Índia para visitar uma cidade chamada Deshnok, onde vamos conhecer um Templo Hindu muito especial e peculiar. Na verdade um Templo inusitado, que não vou dar detalhes agora para não perder o impacto.
Como Deshnok não é um destino comum e usual, os acessos por trem e ônibus para a cidade são muito complicados e a maneira mais eficiente que encontramos foi alugar um carro para alcançar a cidade.

El-Babba.jpg Not Allowed
Obviamente que não nos atrevemos a dirigir nas estradas da Índia e por isso o carro que alugamos tinha um motorista, que merece um capítulo à parte neste diário. Carinhosamente apelidado por nós de Babba, o motorista era muçulmano e podia falar muito pouco inglês. Mas era um homem muito correto e nos acompanhou por três dias de viagem, atravessando as terras áridas no Estado do Rajastan, que pela proximidade com o Paquistão, é uma região que esta constantemente sendo vigiada pelo exercito indiano. Aos nossos pedidos mais diversos como parar para ir ao banheiro ou tirar uma foto sempre ouvíamos dele frases curtas, mas que ficaram marcadas em nossas cabeças. Not safe (não é seguro) e Not allowed (não é permitido) eram as mais comuns. Virou jargão!

Mulheres-do-.jpg Surpresas do Rajastan
As paradas para ir ao banheiro, tomar um chá ou mesmo comer eram sempre em vilas na beira de estrada e a cada trecho percorrido em direção ao norte do país, uma nova Índia ia se revelando. A diversidade de costumes, pessoas, culturas, religiões, hábitos e habitat desse país é algo fascinante. No caminho fomos aos poucos identificando e conhecendo as pessoas que vivem nos desertos do Rajastan, o clima foi ficando mais seco a cada quilômetro viajado e a beleza natural da região foi se revelando ao entardecer, quando paramos (mesmo sendo not allowed!) para contemplar o pôr do sol. (Babba, por favor!!!)

Bem-adaptada.jpg

Comer com as mãos IV
Descobri a culinária indiana. Acreditem! E não foi em restaurantes e sim nas quitandas de comida de rua, bem pé sujo, improvisada. Que delícia! Estou super adaptada com a comida e comer com as mãos para mim virou hábito! Tudo na vida é uma questão de costume, não é?

dsafsdfsdfsdfsdfsfsdfsfsd

sdfsfsdfsdfsdfsdfsdfsdfsdfsd

Semelhança-e.jpg Convivendo com os animais II
A diversidade de animais que eu encontro na Índia vai aumentando a cada lugar novo que conheço. Aqui em Jaipur os macacos estão em toda a parte e os camelos são meios de transporte comuns na cidade. Os elefantes também aparecem com freqüência, fora os burros, bezerros...e as vacas, claro!





QUARTA-FEIRA, 08 de outubro – Jaipur

A coisa mais especial do dia hoje foi que voltamos para a pensão em que estamos hospedadas, depois de um dia “feliz“ num cyber café, em uma bicicleta-taxi. Um homem pedala e a gente fica atrás sentada, sendo transporta. Confesso que me senti muito mal com isso. Uma coisa é um motor pilotado por alguém, outra é a força física de uma pessoa a serviço da outra. Me senti no tempo dos escravos. Ver aquele homem suando e pedalando para me carregar me fez estar numa posição de superioridade e ele de subserviência que não me agradou em nada. Consolei-me pensando que isso é o sustento dele e que eu estava lhe beneficiando.





TERÇA-FEIRA, 07 de outubro – Jaipur

Correios Indianos
Definitivamente a Índia e o Brasil precisam estabelecer mais acordos de cooperação. É impressionante como as relações entre os dois países são distantes. A primeira prova disso é que não existe acordo de telefonia internacional entre os dois países e por isso a gente não pode, por exemplo, fazer ligações a cobrar para o Brasil; e hoje eu tive a segunda prova deste fato. Fomos ao correio para enviar algumas fitas de video para o Brasil e para a minha surpresa e decepção(!), não se pode enviar speed post daqui para aí. Isso mesmo. Não existe parceria entre o correio indiano e o brasileiro para este serviço, somente para correio comum, aquele moroso, burocrático, sem garantias de recebimento, etc...Ou nós pagávamos milhões de dólares para uma empresa de courrier internacional ou pacientemente aceitávamos que as fitas iam demorar no mínimo 20 dias para chegar, e ainda sem garantia de entrega.
Passamos a manhã inteira na interminável fila dos correios e quando chegou a nossa vez tivemos que esperar até que o sujeito do caixa executasse todos os tramites burocráticos necessários, e depois de três horas conseguimos despachar nossas fitinhas. Aja paciência!

Amer Palace

No-Amer-Pala.jpg Resolvemos tirar a tarde para conhecer um monumento histórico de Jaipur e dentre tantas opções escolhemos o Forte Amer Palace, uma construção de 1592 que foi sede da antiga capital de Jaipur. O forte foi usado como base militar e é um exemplo típico da arquitetura dos Rajputs. Situado numa montanha e com vista para o lago dos terraços e varandas, o palácio tem espelhos em formatos de mosaicos espalhados por todas as paredes. Os Rajputs usavam muitos espelhos porque acreditavam que refletia como água, que era muito escassa no deserto.
Não pudemos tirar fotos dos detalhes de dentro do Palácio porque tínhamos que pagar uma taxa a mais, que o nosso curto orçamento não permitia...Estamos muito murrinhas mesmo!





SEGUNDA-FEIRA, 06 de outubro - Jaipur

Em plena Bahia indiana, eu e a Alice passamos o dia trancadas dentro de um quarto trabalhando. Acreditam?
(Acho bom acreditarem...)





DOMINGO, 05 de outubro - Jaipur

Depois de 18 horas de viagem, chegamos em Jaipur completamente empoeiradas, literalmente imundas, com as roupas pretas, as unhas asquerosas...
Quem nos visse naquele momento tomaria um susto! Se bem que ultimamente só andamos assim...aos trapos!
Nos acomodamos em uma pensão e depois de um banho (viva!) fomos dar umas voltas pela cidade.
Que lugar lindo, forte, mágico, divertido...cor de rosa!

Jaipur, a cidade rosada

Hama-Mahal--.jpg Jaipur é conhecida como a mítica Cidade Rosa porque simplesmente tudo aqui é cor de rosa! Todas as construções são pintadas de rosa, tradição herdada da cultura dos Rajputs, que povoaram o Estado do Rajastan a partir do século XII. Para eles o rosa era tradicionalmente a cor associada a hospitalidade.

Aqui em Jaipur, se compararmos a outras grandes cidades indianas, a Índia está menos sujeita às influenciais ocidentais. Muitos camelos, por exemplo, puxam carroças e dividem espaço nas ruas com bicicletas e dezenas de auto-rickshaw (aqueles triciclos típicos aqui da Índia). Além disso, as mulheres usam os mais coloridos saris enquanto os homens cultivam a tradição das longas barbas e os turbantes na cabeça.

O trânsito da cidade é um caos, as vacas estão por toda a parte e não há semáforos. Mas isso é o que torna esse lugar ainda mais atraente. A sensação que eu tive é que o tempo parou aqui há três séculos atrás.

Transito-cao.jpg

Um pouco de história para os interessados

Os Rajputs eram pertencentes à casta dos guerreiros e se estabeleceram no Rajastan onde criaram aqui um grande reinado. Através de habilidades militares excepcionais, os rajputs chegaram a ser rapidamente um clã muito poderoso e acumularam riquezas suficientes para criar um dos tesouros mais ricos da Índia nos séculos passados.
Ao longo de várias gerações usaram também de diplomacia para negociar com os mongóis e por isso foram se expandindo pelo país.
Construíram palácios, fortes e um império arquitetônico muito luxuoso e precioso.
O Rei Rajput Jai Singh II foi quem fundou em 1727 a cidade de Jaipur. Soldado, estadista, sábio, construtor, astrônomo e diplomata, ele também construiu o maior relógio solar do mundo, que continua preservado na cidade.
Situado dentro de uma muralha com sete portas de entradas, Jaipur é uma cidade onde o passado se confunde com o presente. Quando a cidade foi construída, comerciantes e artesões foram convidados a morar na cidade, transformando Jaipur num centro de jóias e pedras preciosas, tradição mantida nos dias de hoje. A turbulência política do norte da Índia no século XIX e a relativa paz reinante em Jaipur atraíram a atenção de homens de negócios, dando ímpeto adicional à cidade como centro comercial.
Jaipur foi o centro do artesanato, dos tecidos, antiguidades, jóias, pedras preciosas, estátuas de mármores, escultura de madeiras, cerâmica e esmeraldas, e hoje a cidade é ainda é um dos principais centros de exportação de artesanato do país.

Rajastan, a Bahia indiana

Ao meu ver, o Rajastan está para a Índia assim como a Bahia está para o Brasil. É o Estado mais rico em cultura e histórias deste país. É conhecida como a terra dos marajás e príncipes, terra de glória e esplendor. É a terra palco de inimizade entre famílias reais e guerras de aniquilação mútua; terra de mulheres que se escondiam por detrás de seus maridos, dos rajputes valentes e cavaleiros que viveram e morreram com orgulho, dignidade e honra pelo seu povo e suas crenças. Uma terra rica de tradições, de pompas e cerimônias.

Assim como a Bahia, o Rajastan está repleto de histórias que traduzem a realidade sócio-cultural de seu povo. Os coronéis da Bahia estão no Congresso e os Marajás do Rajastan, ainda afortunados, moram em palácios e desfrutam de uma vida de regalias. As pessoas daqui são quentes, vivas, dançantes e alegres.

O Rajastan é a terra dos festivais e comemorações da Índia. A Bahia terra do Carnaval. A culinária é peculiar, conhecida internacionalmente pela pimenta e temperos típicos. A muqueca baiana idem.

A rebeldia e ousadia dos Rajputes em guerrilhas pode ser comparadas aos líderes messiânicos de Canudos ou aos cangaceiros. Os contrastes sociais estão presentes em todos os cenários. O Rajastan, assim como a Bahia, possui um dos piores índices sociais do país: níveis de analfabetismo, taxas de mortalidade e desnutrição infantil.

O sertão da Bahia não está longe de se parecer com os desertos do Rajastan e para não me estender nas comparações, que são muitas, a corrupção aqui é mais descarada do que no resto no país. Não preciso dizer mais nada.





SÁBADO, 04 de outubro - Jaipur

Hoje passamos a metade do dia num cyber café e a outra esperando o ônibus para ir para Jaipur, nosso próximo destino. A viagem estava marcada para às 17 horas, mas o ônibus só saiu mesmo às 19.30 hs e neste meio tempo eu e Alice ficamos no meio da rua comendo poeira.





SEXTA-FEIRA, 03 de outubro - Indore

Chegamos muito cedo em Indore e passamos o dia com a Dita, nossa amiga indiana. A conhecemos através da Suzana, minha amiga brasileira, que a conheceu quando morava nos Estados Unidos (amiga da amiga da amiga também é nossa amiga!!! He,he,he). A Dita ainda mora nos Estados Unidos e está aqui na Índia de férias, para a nossa sorte. Ela nos ajudou muito a chegar na Índia e todas as famílias que ficamos hospedadas aqui são parentes dela...Então, esse encontro estava sendo esperado há muito tempo, porque queríamos abraçá-la e agradecê-la por tudo que fez por nós!
Dita! Gracias por tudo!





QUINTA-FEIRA, 02 de outubro - Nagpur

Em algum lugar do meu diário eu já escrevi que essa viagem é uma caixinha de surpresa, que eu nunca sei o que vai acontecer comigo, por exemplo, daqui a uma hora. A única coisa que eu tenho certeza aqui é que eu não tenho certeza de nada. Parece clichê, frase batida, mas é exatamente isso que eu sinto.
Hoje foi um dia que na minha cabeça ia ser de um jeito e no final foi totalmente diferente. Era para ter sido um dia comum, onde eu planejava ir para a Internet para responder e-mails (agora vocês vão entender porque eu demoro tanto a responder e-mails aqui na Índia), lavar algumas roupas, colocar o diário em dia, ir ao mercado e arrumar a mochila para pegar o ônibus para Jaipur. Isso foi o que eu pensei que fosse ser o meu dia...e olha o que ele virou:

No-visita-do.jpg Visita a Projeto Agrícola
O Sunil faz parte dos 2% da população cristã da Índia e ele é um homem muito envolvido com a Igreja e suas atividades. Ele é protestante da Igreja do Norte da Índia, uma entidade religiosa muito forte no país, inclusive o projeto do ônibus teve a ajuda dessa igreja e de outras entidades religiosas internacionais. Por seu envolvimento com a Igreja ele nos convidou para conhecer um projeto agrícola que a diocese a que ele pertence estava desenvolvendo e que era muito inovador e criativo.

Passamos a manhã conhecendo a estrutura desse projeto que oferece oportunidades de trabalho para mulheres de comunidades carentes que aprendem a cultivar ervas medicinais, algumas verduras e flores, que são posteriormente vendidos no mercado de Nagpur. Uma iniciativa social simples, porém que surte efeitos muito ricos para os beneficiados. Veja a matéria principal.

Dia de homenagem
Recebemos uma homenagem hoje na sede da Ong Scharandeep (veja a matéria) que me deixou desconcertada, emocionada, impressionada e muito feliz!!! O que eram aquelas pessoas falando do Projeto Realice? Agradecendo pela nossa visita? Fazendo apresentações para mim e para Alice para que pudéssemos conhecer e viver um pouco da cultura e do folclore da Índia?
Chorei.
Chorei por ser reconhecida. Chorei por estar aqui vivendo tudo isso. Chorei por sentir que todo o esforço estava sendo aos poucos recompensado. Chorei de alívio. Chorei de felicidade!
Lavei a alma!

Mais uma viagemzinha
Às pressas, como sempre, pegamos mais um ônibus daqueles (!) e fomos para Indore, uma cidade mais ao norte da Índia para visitar uma amiga indiana, que nos ajudou muito com os contatos neste país!





QUARTA-FEIRA, 01 de outubro - Nagpur

Hoje nós terminamos a filmagem do projeto do ônibus, nos despedimos dos amigos que fizemos nas vilas e voltamos para Nagpur. A viagem de volta passou bem mais rápido, eu não estou mais com febre e tudo está melhor.

Amigos-da-co.jpg Carinho das pessoas
Durante esse dois dias em que passamos nas Vilas tomamos mais de 50 litros de chás em visitas às casas das pessoas. Em toda comunidade que parávamos as pessoas queriam nos conhecer, conversar com a gente, nos convidavam para visitar suas casas, nos davam presentes e queriam nos abraçar, em demonstrações de carinho que eu jamais havia visto.

Viagem real
Tenho a certeza de que estou conhecendo a Índia de verdade. Estou vendo a Índia sem maquiagem para estrangeiros, a Índia sem clichês, a Índia sem globalização. Estar em pequenas vilas como as que visitamos, conviver com as pessoas que conhecemos, entrar em suas casas e ver seus modos de vida nos aproximada da Índia real, da Índia verdadeira, da Índia de pessoas comuns. Estou muito feliz com a experiência humana que essa viagem está me proporcionando! Nada do que eu vejo está nos cartões postais e nem descrito em guias de viagens. Está em mim!





TERÇA-FEIRA, 30 de setembro - Nagpur

Tudo-pela-bo.jpg Hoje foi um dia de trabalho de campo. Visitamos e acompanhamos o trabalho do projeto social da Unidade Móvel de Educação Digital, um ônibus que percorre vilas ensinando informática para jovens de baixa renda, filhos de agricultores. Um projeto muito bacana pela criatividade, alcance e envolvimento dos beneficiados.
Também foi um dia de produção de filmagem. Aquela mesma história de arma tripé, desarma tripé, filma, entrevista, passa o áudio, repete que errei, filma de novo. E assim vamos!

Funerais
Em passagem pelas pequenas vilas acompanhando o ônibus fiquei impressionada com a quantidade de funeral que passava. Muitos. Todo hora um. Cortejos só de homens (as mulheres não vão a funerais aqui) carregavam o cadáver (também não gosto dessa palavra, mas tem que ser ela!), em uma espécie de maca, aberto, coberto de flores, até uma área própria onde ele é cremado, na presença de todos. Essa é uma condição: as pessoas ficam para assistir o corpo sendo queimando e só vão embora quando tudo vira cinzas.
...Desculpe-me a forma direta da escrita, mas é uma questão cultural do povo indiano que gostaria de compartilhar e não consigo ser clara sem ser objetiva e franca.

Coco-cola
Só queria dizer que Coca-Cola não é igual no mundo inteiro. Aqui na Índia ela é mais aguada, doce e tem menos gás (ás vezes não tem nenhum!). Muito esquisita. E dizem as más línguas populares que a indústria da Coca-Cola aqui está falindo, exatamente porque não consegue manter o padrão internacional. E dizem as más-más línguas de que é comum achar bichos dentro das garrafas... Não seria nenhuma surpresa.

O-que-eu-fac.jpg Lixo ambulante
Quando eu cheguei na Índia fiquei chocada com a sujeira do país e mais do que isso, fiquei decepcionada com o comportamento dos indianos que, em pleno século XXI, ainda jogam o lixo nas ruas e sem o menor constrangimento. Pessoas instruídas, socialmente bem posicionadas, internacionalizadas jogam sujeira na rua. Todos os 1 bilhão de indianos jogam sujeira na rua.
Nas minhas primeiras semanas neste país eu ficava indignada vendo as pessoas lançarem para fora do carro garrafas de bebidas, cascas de bananas, na rua os indianos jogando desde papel a resto de comida no chão, enfim, não entendia.
Mas comecei a perceber que não é comum achar lixeiras pela cidade e para piorar, a limpeza urbana aqui também é raridade.
E a minha primeira reação de protesto, digamos, foi carregar comigo todo o lixo que eu mesma produzia. Não queria contribuir com a sujeira do país e andava com a bolsa cheia de papel, pacote de biscoito e garrafa de água vazia, carregava tudo comigo na esperança de achar um lixo para descarregar tudo. Mas eu fui percebendo que eu estava ficando com a bolsa pesada demais porque eu nunca achava “o” lixo para jogar as minhas coisas fora.
E para piorar a minha última tentativa de ser ecologicamente correta na Índia foi uma frustração. Depois de juntar em um saquinho todo o meu lixinho de um dia, eu cheguei na casa que estou hospedada em Nagpur e perguntei pelo lixo, e para a minha surpresa a mulher abriu a porta dos fundos da casa, que dava para um jardim, e falou: “joga aí!”.
Como assim joga aí?
E não tive opção, joguei. Mas o meu saquinho de lixo sumiu no meio de outros montes de saquinhos que já estavam lá.
Um pena.
E depois disso eu tive que optar: ou carregava o meu lixo de volta para o Brasil no meu mochilão ou aprendia a “jogar aí” todo os meus saquinhos de lixo...





SEGUNDA-FEIRA, 29 de setembro - Nagpur

Hoje partimos bem cedo para iniciar a nossa viagem para o interior para conhecer o projeto social do ônibus que percorre pequenas vilas em lugares remotos levando curso de informática para jovens. Saímos da casa onde estamos hospedadas bem no amanhecer e viajamos durante quarto horas.

Ainda doente
Pegar estrada para viajar às vezes já é muito cansativo quando se está bem imaginem com 39 graus de febre? Hoje eu achei que a viagem não ia ter fim, que as estradas estavam passando bem mais devagar pelo meu vidro, que o tempo tinha parado para todo mundo e que sou eu estava andando, e com febre. Que coisa! Tem horas que cismam em não passar!

Estradas indianas
Estou chocada com a péssima qualidade das estradas indianas. É um perigo viajar de carro ou ônibus neste país. As vias não possuem mão dupla e os carros disputam espaço com grandes caminhões e ônibus que vem na contra-mão e, além disso, não existe sinalização nenhuma e as regras de conduta se limitam ao uso da buzina. As estradas não possuem iluminação e buracos (na verdade rombos) estão por toda a parte. Uma verdade aventura...de muito mão gosto obviamente!

Vila-Makha,-.jpg Visita inusitada
Quando chegamos na cidade o ônibus já havia partido para a sua jornada de visita pelas vilas e o Sunil, o responsável pelo projeto social, resolveu nos fazer uma surpresa nos levando para conhecer um lugar muito inusitado da região. Fomos parar numa Reserva Florestal de preservação de tigres que fica numa área verde muito bonita, com ar puro e vegetação preservada. Mas não fomos visitar os tigres e sim uma comunidade tribal que mora do toco do parque. A Vila se chama Makha e nela vivem cerca de 200 pessoas da tribo Korkus, uma das milhares de tribos que compõem a cultura milenar indiana. Isolados do mundo, sem energia elétrica, saneamento básico, fonte de renda e água potável, essas pessoas vivem em uma situação de miséria que me entristeceu profundamente.

Flores-em-ag.jpg As pessoas moram em casas de têm cerca de um metro de altura, construídas com barro e palha. Não existe água na região e as mulheres são obrigadas a percorrer longos caminhos com baldes na cabeça para suprir as necessidades básicas, na verdade, as necessidades mínimas para a família. As pessoas defecam (eu não gosto dessa palavra, mas eu tenho que dizer assim!) nas ruas da vila e lá fica, a céu aberto, transmitindo todo o tipo de doença para a comunidade. É preciso prestar muita atenção ao andar pela vila para não pisar onde não deveria. Ainda neste cenário crianças correm de um lado para o outro, não freqüentam a escola por falta de professores e estão visivelmente desnutridas. Os homens da região trabalham em culturas agrícolas de subsistência e são na totalidade analfabetos.
Passamos a tarde na tribo conversando com a comunidade, visitando a escola sem professores, sem livros e cheia de crianças e fomos surpreendidas com uma apresentação de dança e música típicas que as pessoas, nobremente, prepararam para mim e para a Alice. Mais uma demonstração da receptividade, humildade e simpatia do povo indiano.

Vestida-para.jpg Entrando na dança
Eu me senti tão envolvida com as pessoas e com a música que resolvi fazer parte da dança. Uma das mulheres da tribo pegou em minha mão e me levou até a casa dela, me vestiu com sari (roupa típica), colares e pulseiras e vestida a caráter eu entrei na roda da dança. Foi um momento mágico para mim, e senti, pela reação das pessoas da comunidade, que foi também um momento mágico para eles.

De-Sari-e-tu.jpg Uma simples vontade minha de participar, de experimentar, de me envolver foi traduzida por eles como um ato de respeito pela cultura local, de prestígio e consideração. Com certeza essa dança ficará guardada na minha memória porque eu tenho a sensação de que proporcionei um momento de felicidade para aquelas pessoas, que obviamente não contiveram os risos ao me ver vestida de indiana tentando acompanhar a coreografia. Essa é a parte hilária da história!

Video: Entrando na dança ( Entrando na .MPG )

A gente topa tudo
Vamos dormir nos próximos dias na hospedaria da sede da Igreja Protestante de uma das vilas que estamos visitando (são tantas que não me recordo o nome). O lugar é muito simples, a cama muito dura (como todas as camas indianas), o banheiro bem precário e os mosquitos vão ficar no nosso quarto essa noite.
Mas não é só isso, o nosso quarto estava acupado quando chegamos e o hóspede anterior foi literalmente expulso para que pudéssemos nos alojar. Tadinho. Era um ratinho.
Nojento!






DOMINGO, 28 de setembro - Nagpur

Passei o dia em casa, escrevendo diário, lendo, comendo e tomando remédios. Tenho que ficar boa porque a semana promete!!!





SÁBADO – 27 de setembro – Nagpur

Chegamos ao meio dia e fomos apanhadas pelo pessoal do projeto e levadas para a casa do Sr. Sunil, o coordenador da iniciativa social que vamos visitar na segunda feira. Mais uma vez estamos muito bem e com uma família muito querida.

Doente
Eu passei o dia de cama com 29 graus de febre e sem saber o que eu era. Até então não era gripe, nem dor de barriga, não era nada. Eu só sentia uma dor no corpo muito forte e a minha cabeça também estava latejando.
...Nada acontece por acaso, pelo menos eu penso sempre assim, e essa febre é sem dúvida a resposta do meu corpo para todo o meu cansaço, é a determinação dos meus limites físicos e psicológicos...não existe outra explicação.





SEXTA-FEIRA – 26 de setembro – Chennai

Nosso primeiro trem na Índia
Minha primeira experiência “férria” não foi muito boa, mas dessa vez a culpa foi minha. Eu estava começando a ficar doente e não sabia até chegar em Nagpur, e depois de 19 horas de trem, incluindo os atrasos, que neste caso foram 3 horas e meia...não agüentei.





QUINTA-FEIRA – 25 de setembro – Chennai

Infelizmente não conseguimos comprar passagens para ir para Nagpur hoje (aqui na Índia é preciso fazer reservas para trens com muita antecedência), e tiramos o dia para resolver coisas comuns na cidade. Descansamos e planejamos nossos próximos passos.





QUARTA FEIRA – 24 de setembro – Rishi Valley - Chennai

Passamos o dia concluindo os nossos trabalhos sobre o Vale do Rishi e à noite resolvemos partir rumo a Nagpur, onde visitaremos outro projeto social, e fomos mais uma vez surpreendidas com o ônibus.

Lotacao do o.jpg Lotação
Vamos aos dados: uma viagem de 270 Km entre Mandanapalle e Chennai. Uma viagem que deveria durar no máximo quatro horas durou seis, fora as duas horas que ficamos esperando na rodoviária. Nossa passagem custou somente 100 rúpias (mais ou menos R$ 6) e o ônibus não tinha lugar para bagagem. Conseguiram visualizar o perrengue?
Era um ônibus comum, de transporte de cidade, com as cadeiras duras e sem conforto nenhum. Era tão igual a ônibus de cidade que muitas pessoas viajaram todo o trecho (isso mesmo, 6 horas!) em pé, e essa foi a pior parte do perrengue para mim. Eu e a Alice tivemos a sorte de viajarmos sentadas e viemos em cima dos nossos mochilões, mas como eu poderia dormir na minha cadeira sabendo que muitas pessoas, a maioria mais velha do que eu, estavam em pé?
(...)

Olha-como-a-.jpg Chegamos às 5 horas da manhã em Chennai e para nossa sorte o Emmanuel, o amigo do ônibus de Bangalore (aquele que a Alice ajudou emprestando a coberta...) foi nos buscar para nos levar para um hotel.


Polícia!
Eu quase fui presa porque estava fumando um cigarro na Índia. Isso mesmo, um cigarro Malboro e light ainda por cima!
Chegando na estação de Chennai e enquanto a gente esperava o pessoal que iria nos apanhar chegar, acendi tranqüilamente um cigarro para relaxar e para a minha surpresa dois policiais apareceram falando hindi e apontando para o cigarro. Na hora entendi que não era permitido fumar na estação, apesar de não haver nenhuma placa (nenhuma!) comunicando nada, e apaguei logo o cigarro.
Mas isso não foi suficiente. Com um inglês muito ruim eles estavam tentando me dizer que eu deveria ir para uma delegacia (acho!) e que teria que pagar uma multa. Eu e a Alice falamos que não iríamos sair dali de jeito nenhum (só com a presença dos nossos advogados... he,he,he) e que muito menos iríamos pagar multa alguma, afinal nada havia escrito sobre não fumar.
Mas para a nossa sorte logo o Emmanuel chegou e resolveu o problema. Adivinhe como? Dando dinheiro para os “puliças”, obviamente, que era o que eles queriam das “gringas” desde o começo.
...Eu fico impressionada com o meu comportamento “alemão” numas horas dessas...não fico nervosa, nem demonstro insegurança...pelo contrário, sou tão fria que espanto!
...Polícia está virando sinônimo de corrupção em todo o mundo. Que vergonha!
...Esse cigarro ainda vai me levar em cana...literalmente!





TERÇA FEIRA – 23 de setembro – Rishi Valley

Producao-Tot.jpg Produção total
Hoje acordamos cedinho e às 7 horas da manhã já estávamos em uma das escolas satélites do Vale do Rishi para filmar uma apresentação das crianças e tentar flagrar alguma mãe levando seus filhos para a aula. À tarde voltamos na mesma escola para registrar o final do dia e ver o professor fazendo atividades externas com os alunos.
Arma tripé, vê luz, controla áudio, muda de lugar, arma tripé de novo, está escuro, gravando, repete, eu errei, a câmera tremeu, o tripé está torto, gravando novo...agora sim!

A Alice é hipocondríaca!
Eu quando fico ansiosa como um chocolate e a Alice toma remedinhos (e come chocolate depois)...Todo dia ela acha uma dorzinha aqui e ali e já vai logo buscar os seus mil saquinhos de remédios para saber qual ela vai tomar hoje. Dor de cabeça ela tem todos os dias, dor muscular umas três vezes por semana, e por aí vai. Ela se diz adepta da “medicina preventiva” e se ela percebe que tem algo de errado com a barriga dela, por exemplo, ela não pensa e toma remédio para dor de barriga, verme, rins, estômago, coração, enfim, ela imagina tudo o que pode ser, faz uma combinação bem colorida, e toma.
(E Renata é exagerada!)





SEGUNDA FEIRA – 22 de setembro – Rishi Valley

Perdi meus óculos
Eu não sei o que acontece comigo, mas todas as vezes que estou viajando eu perco algum óculos, seja de grau ou de lente. E aqui na Índia não seria diferente: há três dias que não sei onde está o meu óculos de grau e isso já estava me deixando com uma dor de cabeça enorme, e então acordei hoje com o objetivo de arrumar novas lentes para mim. Custasse o que fosse!!


Oculus-novo,.jpg E para a minha sorte (mais uma delas!) aqui na escola tinha um médico equipado com todos os aparelhos para medir graus e fazer receitas de óculos. Perfeito! Em um dia meu novo óculos estava pronto e agora eu estou feliz!!!

Dias de cão
Quando estamos visitando projetos sociais eu e a Alice trabalhamos muito e o tempo inteiro. Mas nesse caso, em especial, estamos nos matando. Resolvemos produzir o nosso primeiro video contando a história do Rishi Valley e isso está nos tirando o sono, literalmente. Eu sonho com as imagens, com a tradução das entrevistas, com o off, vou comer escrevendo textos, tomo banho relembrando o que eu tenho que fazer...Acho que não sou normal não.

Dias-de-cao.jpg

Regime Semi-aberto
Estamos desde sexta feira alojadas em um dos quartos para hóspedes da Escola do Vale do Rishi e a sensação é que estou internada, no bom sentido. Todos os dias às 7 horas da manhã o nosso amigo Gopal (que carinhosamente apelidei de Alfredo!), que é o responsável pela Guest House, trás chá no quarto. Ás 8:15 temos que ir para o café da manhã, almoço às 12:45 e janta às 19:45. Tudo bem certinho e não podemos nos atrasar. Nada de barulhos, pelo contrário, o lugar é tão silencioso que assusta, o ar é muito puro e a Internet muito lenta (he,he,he).
Todos os alunos, professores e funcionários da escola moram aqui, mas com exceção das horas das refeições, não é muito comum encontrá-los. Mas as pessoas da coordenação da escola que estão nos recebendo são muito queridas (assim como todos os indianos que já cruzaram o nosso caminho!) e isso está ajudando muito o trabalho.

Isso-e-um-ba.jpg Bancos indianos
Hoje fomos na cidade mais próxima da escola, chamada Madanapalle, para trocar um pouco de dinheiro e para a nossa surpresa (ou choque!) vimos como um banco indiano funciona. Nada de computadores, senhas, boletas ou segurança. O banco mais parecia um cartório do interior do Brasil. Milhões de livros de registros, enormes, empoeirados, rasuradas, todos espalhados nas mesas dos supostos “caixas”, que usam calculadora para contar pilhas de dinheiros grampeados (fruto de uma moeda super inflacionada!) e caneta azul e vermelha para registrar os balanços positivos e negativos (deve ser!). Não estou conseguindo entender como um país pode financeiramente funcionar assim!


Vídeo: Ver pra crer ( MOV00567.MPG )


No escuro
Aqui na escola falta luz todos os dias por mais ou menos umas duas horas e nada nos resta a fazer a não ser esperar.
Paciência Renata! Paciência!
...Eu sinceramente estou achando ótimo. Não tem nada que eu possa fazer para mudar o problema e então relaxo e aproveito... aproveito para aceitar sem dor e sem culpa que não estou fazendo nada!!! Maravilha! Queria até que a luz faltasse mais vezes!!! He,he,he





SÁBADO / DOMINDO – 20 e 21 de setembro – Rishi Valley

Estamos em pesquisa de campo nas escolas do Vale do Rishi. Em breve mandaremos notícias.

Em-pesq.jpg

Empesq02.jpg





SEXTA-FEIRA – 19 de setembro – Bangalore – Mandanapalle – Rishi Valley

Depois de uma noite e um dia de viagem, alcançamos o nosso destino: o Vale do Rishi, o famoso complexo educacional indiano que está se tornando mundialmente conhecido por seu método inovador de ensino multi-nível.
Vamos ficar hospedadas na própria escola do Rishi Valley nos próximos dias e vamos tentar entender melhor como funciona esse novo processo que está revolucionando a educação rural na Índia. minha-cara.jpg
Como chegamos no final da tarde, só tivemos tempo de nos alojar, jantar (de bandejão!!!) tomar um banho e dormir, porque amanhã e os próximos dias serão longos e cansativos.

Vida de surpresas
Nessa viagem o que mais me impressiona (ou assusta, talvez) é que eu nunca sei o que vem depois. Em outras palavras, eu não sei o que irá acontecer na próxima hora, dia e semana. Não estou falando de planejamento, schedule ou coisas do tipo, estou falando de vivências. A gente chega numa casa de família e não sabe o que vai encontrar, compra uma passagem para um ônibus que não fazemos idéia de como é, comemos uma comida que não temos a menor noção de como é feita e que gosto tem, não sabemos se vai chover ou fazer sol, não sabemos se vamos achar internet na cidade ou não...enfim, estamos sempre experimentando sensações e sentimentos que nos pegam de surpresa...e isso às vezes é muito bom, e outras vezes não.
(...)
Quando eu encontro uma comida boa, tenho vontade de comer até morrer porque tenho medo da sensação de não encontrar mais uma comida tão boa como aquela...Quando acho uma cama boa para dormir, fico feliz porque não sei se amanhã terei que dormir no sleep bag no chão de algum lugar, quando encontro chocolates e doces tenho vontade de comprar potes porque não sei onde vou encontrar de novo... estou sempre pensando que tudo vai mudar (e vai com certeza!) e isso me faz viver mais intensamente.

Esqueci o que é
- Televisão
- Banho quente
- Máquina de lavar
- Papel Higiênico (não existe na Índia...eu já falei, as pessoas lavam com água...)
- Bebidas geladas
Enfim...





QUINTA-FEIRA – 18 de setembro – No Ônibus

Ônibus indiano II
Mudei de idéia: os ônibus da Índia também podem ser “trens fantasmas”. Foi isso que vivi nas últimas 24 horas viajando de Goa para Bangalore e de Bangalore para Mandanapalle (sul da Índia), onde ainda pegamos um ônibus escolar para alcançar o Vale do Rishi, o nosso ponto de chegada! Estou um caco! ( Onibus.MPG )

Madanapalle.jpg
Onibus para Madanapalle – Me senti a “Rainha do Deserto” Indiano...

Boa ação - boa reação
No ônibus de Goa para Bangalore (17 horas de viagem) passamos um frio que não nos deixou dormir. Em uma parada descemos para pegar no mochilão o nosso sleep bag e a Alice cedeu um cobertor dela para um indiano que também estava procurando a sua mala no bagageiro do ônibus, mas não estava conseguindo achar na escuridão. Essa boa ação da Alice nos salvou quando chegamos em Bangalore. Esse indiano que se chama Emannuel ficou tão impressionado com o gesto da Alice que nos ajudou a pegar o ônibus para Madanapalle, comprou as passagens para a gente (e não nos deixou pagar!!) e ainda nos deu biscoitos e refrigerante. Mais um anjo da guarda que apareceu no nosso caminho.





QUARTA-FEIRA – 17 de setembro – Goa - Ônibus

Hoje nos despedimos na bonança e pegamos o ônibus para Bangalore, onde vamos visitar mais um Projeto Social na sexta-feira.





SEGUNDA-FEIRA – 15 de setembro – Goa

Sabe um daqueles dias que quando acabam você pensa: porque eu acordei hoje? Não era melhor ter dormido o dia inteiro?
Hoje foi um desses dias para mim!!! Tudo o que eu tentei fazer eu não consegui concluir...e o pior de tudo é que no fim do dia eu estava cansada, arrasada e estressada...em plena praia na Índia.
Eu mereço!!
Tudo isso porque eu passei o dia trancada num cyber café para passar 5 míseros e-mails que não tenho certeza que chegaram...As conexões aqui na Índia são de chorar...
E foi o que eu fiz...chorei!
Vou dormir!

Passei-dia.jpg
Passei o meu dia inteiro assim





TERÇA-FEIRA – 16 de setembro – Goa

Hoje fomos para uma praia em Goa e nos sentimos em Marte!!! Não dá para pegar sol em praia movimenta na Índia...Não tem uma pessoa que não pare para ver as extra-terrestres gringas!
A gente também é muito sem noção! Fomos para uma praia que indiano freqüenta de calça comprida, camisa, as mulheres de sari e sombrinha para se protegerem do sol, e lá estávamos nós, bancando as turistonas de Marte de biquínis. Marcianas.jpg
Ahhhh, também a gente estava com muita vontade de pegar um “solzinho” à brasileira, deitar na praia e lê um pouco, enfim, pensamos simplesmente que nunca mais vamos ver essas pessoas na vida (que horror!) e relaxamos!! (Pagamos mico, claro!)

Show à parte
A situação de pobreza na Índia é muito grande e o que mais se vê são pessoas pedindo dinheiro na rua, e diferente do Brasil, os pedintes aqui são insistentes e te seguem (perseguem!) até que você dê alguma coisa ou grite para que entendam que não pode contribuir com nada. E eles estão por toda à parte.
Mas fomos surpreendidas na praia por duas crianças, um casal de irmãos, que para ganharem dinheiro fazem apresentações de dança e performances para as pessoas. Isso é muito comum aqui na Índia, mas confesso que fiquei fascinada por eles e queria dividir o que vi com vocês.
Apresentando, Anita e Madnum! Vejam até o fim!

Anita-e-Madn.jpg
Anita e Madnum

Palmas!!
Convivendo com os animais
Eu nunca precisei interagir com tantos animais em toda a minha vida...por onde eu passo vejo bichos...Vacas (muitas!), cachorros (eu acho que existe um cachorro para cada indiano... he,he,he), corvos (eu odeio esses corvos!!!! Eles não param de gritar e acordam a gente todos os dias...irritantes!!), mosquitos (são cinco mosquitos para cada indiano e 50 para os estrangeiros visitantes!), fora as “donas baratinhas”...

Aventura cibernética – Uma volta ao mundo por cyber cafés. Mudamos o nome do Projeto!
“O Projeto Realice está percorrendo a Índia em busca de conexões que permitam enviar e receber e-mail com anexo, acessar web pages e atualizar o site da expedição. Para saber mais sobre essa iniciativa, envie um telex para...”

Tá bom, vamos falar de vida noturna...
Hoje nós resolvemos sair com os nossos amigos vagantes e fomos para a inauguração de um novo Bar em Goa e confesso que nos divertimos muito!! O Pub estava lotado de gringos; escoceses, alemães, africanos, indianos (isso mesmo, aqui em Goa indiano é gringo! Quem manda aqui são os UK’s) e eu e Alice, as BRASILEIRAS!!! E a nossa presença foi suficiente para o cantor se empolgar e começar a cantar (ou tentar) algumas músicas brasileiras e lambada sempre é a opção (socorro!!!). Mas quando estamos longe do Brasil até Sidney Magal é bom de ouvir!!!
Veja... na verdade, ouça isso! ( Brazil.MPG )





DOMINGO - 14 de setembro - Goa - Filhas de Deus

Como também somos filhas de Deus, hoje tiramos um dia de nada! Acordamos e fomos para uma caminhada na Praia que revigorou as nossas energias!!! Vista bonita, silêncio, ar puro, tudo que precisávamos!

Campraia01.jpg Campraia02.jpg Campraia03.jpg

Gente bacana
Desde o primeiro dia em que chegamos na cidade, fizemos amizade com um monte de gente e especial com um turco que mora aqui há muito anos, e que tem um bar-pub com comidas ocidentais, que é o paraíso. Ele ficou tão nosso amigo que hoje pegamos a motoca dele emprestada para dar umas voltas na cidade...e eu nem preciso dizer que foi uma aventura!

( Viagem moto.MPG ) ( Vaca na rua.MPG )

Depois disso, fomos convidadas pelo Mike, um chefe de cozinha neo-zeolandês que também Amigesquis.jpg está de passagem pela cidade, para almoçar, e este foi o momento clímax do dia! Ele preparou um banquete para mais ou menos 20 pessoas, a maioria inglesa (gente muita esquisita), e eu e Alice (mais esquisitas ainda!). Comemos muito, muito e muito. Nos empanturramos!! Tinha frango, carne (!!!!), batata, enfim, tudo era familiar e delicioso! (Agora estamos passando mal, obviamente!)
A gente só cai em bocada!!!



Micos!
Eu ontem voltando para a casa me dei conta de que havia perdido a chave do quarto onde estamos hospedadas...Eram quase 11 horas da noite e tive que acordar o Sr. Francisco para abrir a porta. Hoje a Alice deixou a chave da motoca cair na areia e por pouco não passamos por mais um sufoco! Ai, ai, ai.


Saudade estúpida
Estou sentindo muitas saudades do meu celular. Estou tendo crises de abstinência e às vezes me pego procurando por ele, ora escutando ele tocar na minha cabeça...Acho que estou ficando louca.





SÁBADO - 13 de setembro - Goa

Ócio II

Eu juro que eu tentei não trabalhar hoje, mas sou daqueles tipos de pessoa que só consegue relaxar depois de ter feito tudo, mesmo quando esse tudo nunca acaba...Escrevi, arrumei algumas fotos e coloquei algumas coisas em ordem...e acho que acabei tudo! (Ou não?)





SEXTA- FEIRA - 12 de setembro - Goa

Ócio I

Depois de quase duas semanas na Índia, hoje foi a primeira vez que tivemos que praticar as nossas habilidades como turista. Hoje fomos "turistonas" mesmo! Não tínhamos nenhuma amigo indiano nos esperando em lugar nenhum, não tínhamos casa de família para ficar e o pior de tudo, não sabíamos direito onde estávamos (he,he,he).
Eu e Alice resolvemos tirar uns três dias de férias numa cidade de praia, antes de ir para Bangalore no dia 15 de setembro, onde já temos agendado mais um projeto social. Então, olhamos no mapa e vimos que Goa, uma cidade colonizada pelos portugueses, ficava no meio do caminho e era conhecida pelas belas praias. Isso era tudo que sabíamos do lugar! (A gente é muito sem noção!!!)

E assim começou a nosso dia de turista. Descemos do ônibus às 7 horas da manhã em Goa e já fomos cercadas por milhões de pessoas nos oferecendo os mais diferentes tipos de serviços turísticos imagináveis! (A gente aqui tem muita cara de "gringa", não tem nem como disfarçar... a gente anda pelas ruas e todo mundo olha para a gente... chega a ser constrangedor!). Resolvemos optar pelo serviço de táxi até o Departamento de Turismo da cidade, era a escolha mais segura a ser feita. Furada (!), porque o lugar estava fechado ou abandonado, sei lá! Então começamos a conversar com o taxista e ele nos trouxe para a casa do Sr. Francisco, que mora na frente da praia e tem um quarto que aluga para turista. Perfeito, era exatamente isso que estávamos procurando! Nada de hotéis e serviços de quarto. Estamos pagando R$ 20 Vida-boa.jpg para 3 noites cada uma e estamos achando caro ainda (he,he,he).

E agora estamos aqui, num quarto com varanda com vista para o mar, num lugar que ora tem energia, ora não, que a internet ora funciona, ora não, que os mosquitos ora aparecem, ora não, e que a única coisa que sempre está aqui é a praia, que é linda! Perfeito!

Vida de turista

Turista é o ser humano mais inseguro do mundo - nunca tem certeza do que está fazendo - A-toa.jpg mais perdido impossível - sempre acha que sabe onde está, mas está sempre perdido - mais enganado - cai em todas as promoções e "preços para amigos" existentes e faminto - você sempre pede uma coisa e vem outra totalmente diferente do que você tinha imaginado e sempre com um ingrediente que você não come nem morta, e você fica com fome!
Aja paciência! He,he,he





QUINTA- FEIRA - 11 de setembro - Pune - Projeto Social Visitado III - Sadhana Village

Hoje fomos visitar o nosso terceiro Projeto Social na Índia, voltado para adultos excepcionais e com problemas mentais. Tivemos conhecimento deste projeto pelo jornal Mumbai Times, no segundo dia que estávamos no país e nos apaixonamos pela iniciativa.

A 30 km de Pune, o Sr. Deshpande construiu uma Vila para assistir aos adultos com problemas mentais, que ele chama carinhosamente de "amigos especiais". Depois que sua filha ficou mentalmente doente por causa de uma encefália, ele resolveu não só ajudá-la, mas também pensar em uma maneira de integrá-la novamente numa sociedade que por natureza rejeita pessoas com este tipo de problema.

Assim ele criou a Sadhana Village, um projeto que oferece moradia, workshops, ambiente familiar e assistência médica e psicológica para adultos mentalmente desabilitados. O objetivo era criar uma atmosfera social para que as pessoas com problemas pudessem estar juntas e assim, dividir suas experiências e evoluções, sem preconceitos ou inferioridades. No Sadhana pessoas com as mais distintas doenças mentais convivem em harmonia, como uma família, e recebem aulas de percussão, bordados, fabricam velas, fazem caminhadas e compartilham de uma vida sossegada em casas espalhadas em meio à natureza e a tranqüilidade rural.

(Mais detalhes no Link Projetos Sociais)

Passamos o dia com os "amigos especiais", almoçamos com eles, fizemos velas e confesso que tenho uma simpatia especial por projetos voltados para a reintegração de grupos socialmente excluídos, frutos de preconceitos e esquecimento.
As pessoas com problemas mentais desenvolvem habilidades e talentos como conseqüência a suas limitações que surpreendem pela criatividade, paciência e dedicação, e por isso, merecem a nossa atenção.

Estar com os "amigos especiais" me leva para um mundo mais mágico, fantasioso, lírico e isso faz eu me sentir uma pessoa melhor.

Portas abertas
O Projeto Realice está tendo uma receptividade por parte das instituições sociais internacionais que está nos deixando muito impressionadas. Para todas as ONGs que escrevemos recebemos respostas positivas e quando confirmamos a visita a receptividade é a melhor possível. Eles fazem questão de nos apanhar para a visita, nos oferecem ajuda, respondem com atenção e seriedade ao nosso formulário, nos fazem novas indicações, enfim, nos tratam com muito carinho e acreditam no nosso trabalho. E muito bom sentir que as portas estão se abrindo no nosso caminho.


Ônibus indiano
Nossa primeira experiência de ônibus na Índia merece um capítulo à parte. Como estamos viajando com os transportes mais baratos possíveis (independente do que seja!), estávamos preparadas para o pior cenário possível: um "pau de arara" imundo, barulhento e sem nenhum conforto e para a nossa surpresa, viajamos de Pune para Goa num transatlântico sobre rodas, literalmente. A melhor viagem de ônibus de toda a minha vida, nem na Nova Zelândia não existe isso! Ao invés de cadeiras o que se tem são cabines individuais com camas. Isso mesmo: camas! O ônibus não é bonito, pelo contrário é velho, enferrujado e meio sujo (suportável), mas a cabine com cama faz você achar tudo lindo! Viagem de Rei!!!





QUARTA FEIRA - 10 de setembro - Saímos de Mumbai para Pune


Brincar de indianas

Resolvemos experimentar por alguns instantes a sensação de ser indianas de verdade. Colocamos roupas típicas da Geeta e fizemos algumas performances dançantes, que não vale a pena à descrição...Eu e a Alice não perdemos a oportunidade de rirmos da nossa própria cara...a gente se diverte com muito pouco... He,he,he.

Eu só não consigo entender até agora como as mulheres conseguem sobreviver ao calor deste país amarradas em 5 metros de tecido (que é o tamanho padrão dos Saris, roupas típicas das mulheres indianas...)

roupastip02.jpg roupastip.jpg


Pulando de galho em galho
Hoje saímos de Mumbai em direção a cidade de Pune, onde temos uma visita social marcada. Depois de uma viagem de 4 horas chegamos na cidade e vamos ficar hospedadas por uma noite na casa da família do sobrinho do Madhav, o pai da nossa segunda família. Com isso, completamos a nossa maratona de famílias indianas e batemos o recorde de mudança: três famílias hospedeiras em menos de 2 semanas!!! E isso está sendo uma experiência fantástica para a gente. Nada melhor do que viver com indianos para entender os indianos e a Índia. Geetamae.jpg

A despedida em Mumbai foi muito triste. A família é muito legal e sentimos muito por deixá-los. Essa é pior parte da viagem: conhecer pessoas legais, se apegar e ter que deixá-las! Pior ainda quando você ouve isso: "Qualquer problema voltem para casa, aqui na Índia você tem uma família". Corta qualquer coração!!!

Comer com as mãos III

Não agüento mais o tempero daqui! Estou comendo para sobreviver. Até já sonhei com strogonoff de frango e churrasco do meu Pai!!! Ai, ai, ai, estou cansada de ruminar essa gororoba daqui!

Cacoete Nacional
Os indianos têm um cacoete muito peculiar. Eles falam mexendo levemente com a cabeça de um lado para o outro como quem diz não e sim ao mesmo tempo. Fico confusa toda vez que faço uma pergunta a algum deles, porque nunca sei o que querem dizer...Até os gringos que moram aqui pegam essa mania... Que coisa maluca! Estou me controlando para não ficar igual!


Tratamento com os idosos
Um outro aspecto admirável da cultura dos indianos é o respeito e o tratamento exemplar que eles tem com as pessoas mais velhas. Aqui os idosos vivem com seus filhos, são muito respeitados e considerados membros superiores nas famílias. Quando encontramos com alguns deles temos que fazer um cumprimento especial que é se abaixar, tocar o chão, depois o peito e depois a cabeça, e só então apertar as mãos. Muito bonito de se ver e um exemplo para as culturas ocidentais que destratam e menosprezam os idosos!





TERÇA FEIRA - 09 de setembro - Mumbai - Festival de Ganesha, o Deus Hindu - Projeto Social Visitado II - Dom Bosco


Depois de uma noite em claro (mas nem tão às claras com as nossas emoções e ansiedades de ontem), e depois de um café da manhã com arroz, pimenta, cebola e curry (Alguém agüenta isso???), saímos em busca de mais uma idéia social. Fomos visitar o Projeto Social Shelter Dom Bosco, que pertence à legião do Salesiano Internacional. Uma instituição para meninos de rua e em situação de risco e violência familiar que encontram no abrigo uma esperança de vida nova e um futuro menos insignificante como o da rua e das drogas. Por se tratar de um projeto internacional, e que já existe no Brasil, a nossa visita serviu somente para ganharmos experiência e encontramos poucos aspectos inovadores, que não sejam os culturais obviamente.

Além disso, serviu também para nos dar outra aula de vida, esperança e dedicação. Vida porque a temos e devemos saber como conduzi-la, valorizá-la e experimentá-la, esperança que precisamos ter para acreditar que um mundo melhor é possível para todos, indiscriminadamente, e dedicação que temos que ter para realizar mudanças e transformações...em todos os aspectos.

***
Fazer essa viagem para mim está tendo um significado humano tão grande, que às vezes me faltam palavras para descrevê-la. Me sinto por vezes triste por vivenciar todas essas realidades sociais mas por outro lado me sinto privilegiada por estar aqui, fazendo alguma coisa para transformar o mundo de pessoas que não tiveram as mesmas condições, acessos e talvez sorte, que eu tive...Sinto-se obrigada a fazer alguma coisa, não posso ficar inerte a tudo isso...Eu tenho um papel a desempenhar nessa viagem e só vou sossegar quando ver que cumpri os meus objetivos, ou pelo menos tentei...Tenho que realizar minhas ambições sociais, esse é o meu desejo principal.

Ganesha Festival

Hoje é feriado aqui na Índia, é o dia do Ganesha, o Deus hindu Removedor de Obstáculos, um dos deuses mais queridos do hinduísmo, religião predominante da Índia. E para homenageá-lo, as pessoas saíram pelas ruas do país em procissão, dançando ao som de tambores, que muito lembraram o carnaval do Brasil, sinceramente. Aqui no Estado de Maharashtra, onde Mumbai é a capital, as comemorações são consideradas as mais bonitas da Índia e tivemos a sorte de conhecê-la. filmfestival.jpg
Multidões nas ruas, dezenas de estátuas do Ganesha de todos os tamanhos, algumas de tão grandes lembravam os carros alegóricos do carnaval, e muita música, dança e comida (nada de cerveja e bêbados...nem mulheres semi-nuas!). Nos sentimos em casa.

O povo indiano lembra muito o Brasil nos aspectos festas e músicas. São barulhentos, coloridos, vivos, alegres e não deixam ninguém de fora na hora da comemoração. Nós, mesmo cansadas da noite em claro e depois da visita ao projeto social, tivemos que entrar na dança, literalmente. Quem está na Índia é para se lambuzar de cultura e crenças, e não deixamos de experimentar mais essa sensação. Lá estávamos, Renata e Alice, no meio dos tambores, registrando nossa emoção.
Mas não pudemos ver o fim da festa, que acabou quando as pessoas entregaram as estatuas de Ganesha para Mar. A multidão de pessoas que esperam por este momento era tão grande que a segurança ficou abalada e por isso, deixamos a procissão pela metade.

Ganesha.jpg Estamos em Bollywood
Depois da procissão carnavalesca em homenagem a Ganesha, fomos ao cinema ver um típico filme indiano. Não poderíamos deixar de fazer isso, afinal estamos no maior país produtor de filme do mundo e na principal cidade da Índia do cinema. Mumbai, também conhecida como Bombai, é considerada a Bollywood da Índia, e não negou a fama.

Os filmes indianos são peculiares e me surpreendi com a qualidade da produção...Sinceramente? Espetacular. Dá um banho nos filmes americanos "abestalóides"! A maioria dos filmes indianos se confunde com musicais...eles cantam e dançam o filme inteiro, engraçadissímo!!! Morreu alguém no filme? Eles dançam. Uma história de amor? Eles cantam, História triste? Eles dançam. Impressionante! O filme que assistimos chama-se em hindi "Kuch naa Kaho", que quer dizer "Não me conte nada" e era uma história de amor, daquelas bem dramalhão, sabe? Mas gostei muito, apesar de não ter entendido os diálogos (o filme não tinha legenda), eu me envolvi com a história e dei muitas gargalhadas! Temos que tirar o chapéu para os indianos, eles são sensacionais no cinema e é uma pena que poucos filmes são exportados...





SEGUNDA-FEIRA - 08 de setembro - Mumbai -Projeto Social Visitado I - Smeha


Hoje acordamos cedinho para a nossa primeira visita social e confesso que hoje senti, pela primeira vez, depois de um ano de trabalho, o começo da nossa expedição social. Senti concretude na nossa idéia e fiquei muito feliz por isso. criancSmeh.jpg
Visitamos os Projetos Sociais da ONG chamada Smeha, todos voltados para mulheres e crianças em situação de extrema pobreza e que vivem nos Slums, favelas indianas, na cidade de Mombai. Os Projetos funcionam dentro de um hospital e foram iniciados por uma médica-pediatra em 1999 e hoje são referências na cidade (ver em Visita Social). Passamos o dia visitando os projetos e finalizamos o nosso dia dentro de um Slum.

Slums - Favelas Indianas
Os Slums aqui na Índia são as favelas do Brasil, em grandeza e situação de risco ainda piores. Aqui em Mumbai, por exemplo, mais de 7 milhões de pessoas vivem em favelas, o que representa metade da população da cidade. Visitando um dos Slums pudemos entender o que a grandeza dos números representa. Famílias inteiras moram em barracos de um único e pequeno cômodo, as casas são amontoadas umas sobre as outras, não existe infra-estrutura sanitária adequada e em alguns casos nem energia elétrica chega, porém em outros, contrastando com a miséria visível, existem casas com televisores e telefones.

Mas o que mais impressiona não é a pobreza, nem a sujeira, nem o amontoado humano e nem a falta de espaço, e sim o conformismo e podemos dizer "felicidade" dos moradores do Slums. Muitas dessas pessoas já receberam convites do governo para se mudarem para habitações comunitárias, mas a maioria delas recusa em prol do relacionamento social que estabelecem com o meio onde vivem.

E possível estabelecer uma relação comparativa perfeita entre os Slums indianos e as favelas do Rio de Janeiro, ressalvando obviamente as proporções, e com isso, pude chegar à conclusão de que mais importante do que combater o crescimento dessas áreas precárias nas cidades, que acontece em ambos os casos por êxodo urbano atraídos por empregos e melhores condições de vida, é preciso trabalhar a consciência e a educação das pessoas, do contrário nenhuma evolução poderá acontecer para transformar o problema.

Os Slums, assim como as favelas do Rio de Janeiro, são comunidades sociais que tem como características principais à relação de mutualidade entre os moradores, o laço afetivo e social e a cumplicidade entre as pessoas que, diferente do que pensamos, as tornam socialmente fortes e expressivas na defesa de seus interesses, que é o de ficar onde estão, mas não como estão. A mudança precisa acontecer na semente dos pequenos conglomerados da favela - talvez nas famílias e, aos poucos e sistematicamente, para não afetar a harmonia social vigente. A desordem nos slums é física e não humana, o que neste ponto difere de algumas favelas no Brasil, que encontram no tráfico um ponto de desacordo social. Qualquer mudança social em slums ou favelas precisa levar em consideração o aspecto humano mais profundo, que passa pelas relações sociais e não pode ser tratada somente como um re-mapeamento urbano e estrutural.

Por isso, mais do que nunca a educação exerce o seu poder de mudança, transformação e evolução social.

***
Voltando da visita não pude mais me concentrar em nada, precisava digerir a experiência que havia vivido. Como posso pensar em meus pequenos problemas cotidianos depois desse choque de realidades, contraste de paradigmas e miscelânea de emoções? Preciso de tempo para entender minhas sensações, minhas expectativas e minhas atitudes com relação a tudo que vejo, sinto e vivo por aqui.

Passei a noite toda acordada trabalhando, eu e a Alice, ainda sobre os efeitos do Jet Lag, que não passa...O que será de nós amanhã?





Mumbai, terça- feira, 02/09 – Chegada

Inacreditável
Imaginável
Imprevisível
Irregular
Irreconhecível
Impressionante

Assim eu descreveria as minhas primeiras sensações ao pisar na Índia.
Um outro mundo, uma nova concepção, uma outra forma de vida...
Por mais que eu tenha me preparado nos últimos meses para essa viagem; lendo guias, ouvindo depoimentos de ex-visitantes e habitantes deste país, consultado sites e literaturas, de nada serviu para amenizar o choque cultural, psicológico e físico que estou tendo aqui.
A Índia confirma a fama de ser um lugar singular neste mundo, peculiar em todos os aspectos - cultural, religioso, costumeiro e ao meu ver, não é um lugar para se visitar, é um país para ser experimentado, digerido, degustado...
Estou surpresa, essa é a verdade!
Desde as coisas mais simples as mais complexas, a Índia não se parece em nada com o que eu já vivi. Da casa, carro, rua, cheiro, banheiro, comida, vestimenta a religião, costumes, leis, padrões sociais e culturais, tudo estava até então, fora do meu alcance.
Mas tenho que dizer que estamos tendo sorte. Fomos convidadas a ficar hospedadas na casa de uma família indiana, que está nos recebendo com tanto carinho e atenção, o que está nos dando a sensação de estar em casa, apesar das circunstâncias e condições serem outras. O choque estaria sendo muito pior se tivéssemos que iniciar a nossa imersão na Índia sem a ajuda dessa família.

- A viagem do aeroporto para casa
***A viagem de 30 min. do aeroporto para casa foi suficiente para me tirar o sono e a exaustão que sentia depois de mais de 20 horas de vôo do Brasil para cá. Eram quase 2 horas da manhã quando chegamos e pelas ruas havia dezenas de pessoas, milhões de carros estacionados desordenadamente por todo o trajeto, o trânsito estava caótico, apesar da madrugada, e mesmo com pouca luz pública, era possível ver e também sentir e cheirar a sujeira, lama e poluição da cidade.
Chegando em casa, fomos acolhidas com chá e logo precisei passar pela primeira e grande prova de adaptação: o banheiro. Aqui na Ásia quase não existem vasos sanitários nas casas e o que se vê é um buraco no chão, próprio para a pessoa agachar e fazer xixi ... e tudo mais (ainda não passei por esse desafio!!!). O Xixi já foi uma etapa superada!
Depois dessa longa jornada, fui tentar dormir um pouco, mas uma mistura de sensações me impediram. Medo, insegurança, angustia, ansiedade, apreensão, que só passaram quando o dia amanheceu...
Nada como um dia após o outro...

fam-mumbai-0.jpg

- Nossa família
Viemos parar na casa da Família Sonwalker, uma família típica indiana, com homem, mulher e duas filhas. As meninas se chamam Jai e Jui, o que quer dizer em hindi, Jasmim grande e pequeno, respectivamente. Elas são doces, atenciosas e nos fazem se sentir em casa.

A família mora em um grande condomínio que pertence ao governo. O Pai, Sr. Avinash, trabalha numa usina de energia nuclear. Eles são muito humildes e nos ofereceram a casa para ficar nos primeiros dias, o que está sendo muito importante para a gente. Estar numa casa de família é mais do que visitar um país, é viver como o seu povo, dividir seus costumes, submeter-se a seus dogmas e limitações. É a melhor parte da viagem para mim.

A Mãe é típica indiana, submissa por criação e imposição social é doce por natureza feminina e materna. Está sempre disposta a nos ajudar e às vezes se coloca numa posição de subserviência que incomoda minhas convicções ocidentais. Mas, isso faz parte da cultura deste país e é meu papel entender o porque disso. Casou-se cedo, por obrigação e indicação do Pai. Assim como ela, a maior parte das mulheres indianas, hindus por religião, se casam. Eu perguntei a Sushama, o nome dela, como ela faria com a filha Jai, que tem a minha idade. Ela me respondeu que já está procurando um homem para ela, mas que não vai obrigá-la a casar-se agora, e que quando a Jui decidir, ela já terá o homem escolhido.

E isso é um capítulo à parte, que gostaria de conhecer mais a fundo: a relação entre homem e mulher neste país. Em minha primeira análise, passeando hoje pela rua, foi de que homens e mulheres aqui foram criados diferentes (até aqui nenhuma novidade) e foram educados religiosamente para estarem juntos (também nenhuma novidade), porém socialmente estão totalmente segregados. É pouco comum encontrar na rua grupos de homens e mulheres, amigos casais, amigos de escola...Na verdade, encontram-se muito mais homens do que mulheres em toda a parte. Isso se deve obviamente à religiosidade e à postura da mulher na sociedade, mas o que eu ainda não entendi é, como mulheres tão vaidosas, sensualmente expressivas, que tem acesso à cultura e todo o tipo de conhecimento, que possuem emancipação profissional (a Índia foi um dos primeiros países a ter uma mulher como primeiro-ministro – Indira Gandhi) e ainda assim, são tão frágeis nas relações homem-mulher...Bom, isso é assunto para outro dia.





Mumbai, Quarta-feira, 03/09 – Mercado de Chembur

Estou com o fuso horário ainda todo maluco!!!!
A primeira aventura do dia foi achar um cyber café, que encontramos e não vale a pena a descrição. Que perrengue!! Tentamos mandar e-mail e não conseguimos e então decidimos ir para um mercado mais conhecido, chamado Chembur.

- Mercado de Chembur
Chembur é, ao meu ver, um retrato da Índia. Milhares de pessoas na rua, dezenas de vendedores espalhados, carros de todas as partes andando desordenadamente e sem nenhuma regra de conduta ou algo do tipo. O cheiro da rua é algo peculiar: uma mistura de temperos, com esgoto, incenso, gasolina dos carros, fumaça, lixo, enfim, uma mistura. O barulho nem se fala: música dos Auto Rickshaw (os carros – ou seria motos? – típicos daqui) que saem de todas as partes e em todas as direções, som das lojas, pessoas gritando, buzinas e mais buzinas, freadas bruscas (que você tem certeza que os carros vão bater, mas não batem...) enfim, um banho de cultura oriental, asiática, indiana.

Depois da tentativa mal-sucedida de encontrar um cyber-café, fomos comer (outra tentativa mal-sucedida!). Desafio número dois! Acabei comendo pão de arroz (Idli) com um molho de tomate bem apimentado, chamado Pav Bhaji... Não queriam saber a minha opinião sobre a comida... Para a minha sobrevivência e salvação, saindo da tenda-restaurante, passei numa quitanda de vendas de legumes e comprei bananas!





Mumbai, Quinta-feira, 04/09– Dia de trabalho em casa

Hoje passei o dia todo em casa e em cyber café tentando resolver problemas de conexão para a Internet e confesso que, de tão tensa e angustiada por estar enfurnada em uma sala de sucata de computadores e cabos emendados, esqueci por um dia que estava na Índia. Na verdade não, eu lembrei sim que estava na Índia toda hora que a minha conexão demorava meia hora para funcionar e depois de 10 minutos caía. Enfim, esse foi só um capítulo de uma história de perrengues cibernéticos que a gente ainda vai passar nesta viagem. Por isso eu peço, tenham paciência com as atualizações e notícias...he,he,he

Renata-no-Co.jpg
Renata no computador

Além disso, passei o dia com a família e pude entender melhor as pessoas deste país, que são muito engraçadas e possuem um jeito muito peculiar de falar, que até então eu achava que era somente um cacoete de alguns, mas constatei que é característica cultural das pessoas daqui – elas falam mexendo levemente a cabeça de um lado para o outro, num movimento muito sutil, mas repetitivo e ritmado com a fala...Uma coisa engraçada de ver. Eu tenho que me controlar porque senão, por reflexo, acabo acompanhando...e vou acabar tendo um torcicolo como resultado. (Não, isso não!)

- Comer com as mãos
O meu desafio “comer na Índia” continua de pé e hoje eu pude concluir que o meu bloqueio não está ligado diretamente à comida não, mas sim ao seu modo de preparo e degustação. Aqui as pessoas utilizam as mãos para cozinhar, servir e comer e isso de uma certa forma me incomoda. Ontem no mercado eu estava reparando um homem numa quitando de comida de rua: ele mexia a comida quente com a mão (inteira dentro da panela), servia com ela, temperava a comida com ela, provava o que havia feito com ela, passava a mão na roupa, limpava no avental, cumprimentava o conhecido que chegada e voltava a mexer a comida... Haja estômago para olhar isso tudo e conseguir comer em paz.

Hoje no jantar na casa de família eu me esforcei para comer com as mãos, mas achei que seria um esforço muito grande para eu começar logo pelo arroz... vou esperar um outra oportunidade menos difícil do que essa...

Renata-comen.jpg
Renata comendo Sonwalker





Mumbai, Sexta-feira, 05/09 – Centro da Cidade e Mercado de Abdul Rahaman

Hoje eu constatei que estamos no subúrbio de Mumbai, suburbão mesmo! Fazendo uma analogia meio estúpida, nós estamos num distrito tão afastado do Centro, como Duque de Caxias está de Ipanema no Rio. Longe à bessa.

Mais isso tem o seu lado bom porque até hoje à tarde não tínhamos visto nenhum turista, nenhuma alma ocidental, nenhuma referência global, mas por outro lado também estamos isoladas do mundo, com problemas para ver Internet, ligar, achar correios, enfim, se comunicar.

Trabalhadore.jpg
Trabalhadores no mercado

Mas hoje nós resolvemos (em parte!) essa situação. Pegamos um ônibus (daqueles!) e fomos até a parte Central e turística da cidade. Enfim, alcançamos a civilização. Andamos pelos pontos turísticos e chegamos até a Gateway of Índia, onde um acidente terrorista matou mais de 40 pessoas há duas semanas atrás. O lugar não tem nada de especial, pelo contrário, milhões de pessoas e vendedores ambulantes te abordam a cada minuto e é simplesmente impossível dar um passo sem ser incomodado por um deles. De cartões postais a maconha, eles oferecem de tudo e te cercam de uma maneira que sufoca. Não agüentamos e fomos embora!
Definitivamente odiamos os pontos turísticos!!!

Trafico-no-m.jpg
Trafico no mercado

- Saara Indiano
Resolvemos pegar o mesmo ônibus para voltar para o subúrbio e no meio do caminho paramos num mercado para conhecer. O lugar se chama Abdul Rahaman e podemos dizer que é o Saara da Índia. Um lugar onde muçulmano, indiano, árabe e qualquer um negocia mercadorias de todos os tipos. Um lugar que ficamos sabendo, nem indiano comum vai...Só mesmo eu e a Alice, curiosas e metidas a nativas vamos. Mas tenho que dizer que foi a melhor experiência indiana até o momento.
O mercado é enorme e fica em vários guetos de um bairro de muçulmanos. Ali, pessoas dividem espaços com carros, barracas de comida, carroças de transporte de coisas, enfim, um tráfico visual, auditivo e cultural. Até travestis com saris e burcas nós encontramos neste lugar. É o cúmulo do antagonismo!
(clique para ver o vídeo - Slams.MPG - Eu e a inseparável câmera no mercado )

- Miséria Visível
Estou chocada com a miséria deste país. No caminho de ônibus para casa atravessamos alguns Slams (favelas indianas) e confesso que o que vi me fez repensar o conceito de pobreza da minha cabeça. Muitas pessoas vagam pelas ruas de Mombai ser ter para onde ir, o que comer e a situação de saneamento do país é algo chocante, que agrava ainda mais o quadro caótico do país. As pessoas cospem o tempo inteiro no chão e os “sem teto” fazem as suas necessidades (todas elas!) no meio da rua. Simplesmente abaixam e fazem. Em qualquer lugar.

Mulheres-na-.jpg
Mulheres na fila para comida

A Índia, pelo que pudemos ver até agora, é muito suja, empoeirada e fedida. Não vemos lixos espalhados pela cidade e a sensação que se tem é a de que não existe limpeza urbana por aqui. Para completar, a cidade é toda velha e quebrada, deste os ônibus, meio fio, jardins, iluminação pública, tudo é remendado ou está as traças. A cidade de Mumbai é tomada de entulhos por toda à parte, e eu acho que isso é meio cultural, porque as casas das pessoas também são entulhadas de coisas velhas, sem utilidade e que ficam lá, paradas, acumulando poeira e sujeira, porque também ninguém limpa.


- Povo amável
Estou fascinada com o povo daqui, eu nunca vi gente tão amável e atenciosa na minha vida. Eles estão o tempo inteiro querendo te agradar e fazem de tudo para te ajudar. Hoje pegamos um ônibus e precisamos tirar uma dúvida com o trocador e quando vimos, estava o ônibus inteiro respondendo à nossa pergunta.





Mumbai, Sábado, 06/09 – Nova Família

Mudança de família e isso é uma longa história.
Estávamos na casa da família Sonwalker, que são tios paternos da Ditta, que é amiga da Suzana (minha amiga) e que mora nos EUAS. Pois bem, nós escrevemos para a Ditta pedindo conselhos sobre a Índia e ela além de nos dar milhões de dicas, nos ofereceu para ficar na casa dos tios dela daqui. Detalhe, a Ditta não nos conhece, nunca viu a gente na vida, mas fez de tudo para tornar a nossa estadia em seu país a melhor possível (e está conseguindo), e ela é o retrato de gentileza e receptividade dos indianos. Uma coisa impressionante.
Pois bem, agora vamos nos mudar para a casa da família Niyogi, que são tios maternos da Ditta. Estamos na mesma cidade e nos mudamos porque a Geeta, tia da Deeta (he,he,he) é médica e conhece vários projetos sociais na Índia e vai nos mostrar.
Com essa mudança, tudo mudou. Pulamos de uma realidade indiana para outra. Saímos de uma família tradicional de classe média baixa onde a mulher não trabalha e é de certa forma submissa ao marida e à sociedade, para uma família indiana contemporânea, de classe média alta, onde a mulher é médica (mas usa sari, a roupa típica das mulheres indianas), trabalha fora, o Pai é engenheiro e tem uma firma de computador e a única filha, chamada Devayani, usa jeans e vai à boate. Agora vamos ver...

- Pré-conceitos
Um dia que estamos com essa nova família já foi suficiente para derrubar todos os conceitos que havíamos formado sobre a sociedade e família indiana, o que vem a contribuir para a minha teoria de que nada do que estamos vendo e escrevendo sobre a Índia traduz o que é a Índia, e sim a nossa percepção dela, o que estamos vivendo. Por isso não tenho a menor pretensão de definir esse país assim como nenhum outro, nenhuma pessoa ou situação. O que faço é contar a minha história, sobre a minha óptica, sobre a minha experiência, nada mais do que isso.

- Ratazana
Hoje na cabine telefônica eu vi uma ratazana quase do tamanho de um cachorro passando de um lado a para o outro entre as pessoas, e o mais impressionante é que ninguém fazia absolutamente nada... Será que ratazana também é um animal sagrado aqui? Pode ser porque um dos Deuses hindu mais adorados na Índia, o Ganesha – Deus dos obstáculos, tem um rato no pé da estátua. Vamos descobrir!

- Comer com as mãos II
Superado mais um desafio cultural: comi com as mãos, na verdade, comi com a mão. As pessoas só utilizam a mão direita para comer, porque a esquerda é para ser usada no banheiro. Isso mesmo. Aqui é uma ofensa, por exemplo, você cumprimentar uma pessoa com a mão esquerda. Não pode.

Minha-primei.jpg
Minha primeira comida com as mãos





Mumbai, Domingo, 07/09 - Domingo em família

Estamos vivendo uma verdadeira vida indiana na casa da família Niyogi. Não fazemos programas turísticos, não comemos Mc Donald’s e não pesquisamos guias. Nós estamos comendo o que o indiano come, indo as compras onde indiano vai e mais do que isso, nossos guias são as milhões de histórias e depoimentos reais que ouvimos da família, do vizinho da família, do entregador de sorvete da família, enfim, de todos que naturalmente nos cercam.
Hoje passamos um domingo em família. Saímos para comprar peixe pela manhã, almoçamos uma boa comidinha indiana caseira, descansamos, fomos ao mercado, jantamos fora e agora vamos dormir. Simples assim!



Copyright © Realice. Todos os direitos reservados