Alice Freitas


Vietnã, 23/11 a 07/12 - NOSSA INTENSA ESTADIA NO VIETNÃ


INTENSA. Essa é a palavra certa para descrever esses 15 dias que se seguiram. Aliás, tenho usado repetidamente essa palavra que parece ser a mais adequada para descrever toda essa jornada de quatro meses.

Os sentimentos são intensos, assim como as emoções, as movimentações, as conversas, os aprendizados, enfim, tudo.

Como tivemos pouco tempo para aprender tudo sobre o Vietnã, tive a sensação que estávamos sendo bombardeadas de informações em cada reunião que participávamos. Foi sem dúvida uma das nossas estadas mais intensas (aí a palavra de novo) que já tivemos em termos de equação tempo/informações.

REUNIÕES
Marcadas por intermináveis encontros que nos encheram de informações preciosas sobre o país podemos dizer que tivemos uma estadia quase que institucional em Hanói, de onde não saímos por falta de tempo.

Estivemos com:
· Diretor Geral da UNDP, agência da ONU correspondente ao PNUD;
· Care Vietnã;
· Diretor Geral da UNESCO;
· Coordenadora de Projetos da UNESCO;
· Diretor da UNV (Agencia de Voluntários da ONU);
· Representante da União da Juventude Vietnamita;
· Diretor do PACCOM (Agência de Ajuda Humanitária do Governo do Vietnã);
· Diretor de Relações Internacionais da Ford Foundation
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EMBAIXADA BRASILEIRA
Tivemos uma grande surpresa ao visitarmos a “nossa casa” Brasileira em Hanói. Fomos recebidas primeiramente pelo Cônsul e sua esposa que nos fizeram sentir como se estivéssemos de volta à terrinha.

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O Embaixador também nos recebeu com grande carinho e foi ele quem agendou alguns dos encontros mais importantes que tivemos. Tivemos conversas enriquecedoras sobre o país e ficamos muito felizes de poder ter esse contato tão próximo à Embaixada Brasileira em Hanói, uma casa relativamente pequena. Apenas seis brasileiros estiveram lá no ano passado então, quando chegam nacionais a festa é grande.
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PACCOM
Pela primeira vez fizemos uma visita, que gerou o relatório, a um projeto governamental, ou seja, uma agência que realiza atividades de coordenação dos trabalhos das ONGs no país que nos chamaram muita a atenção, pois sabemos que uma agencia como essa poderia intensificar o trabalho das ONGs no Brasil.

PROJETO SOCIAL VISITADO
Visitamos um projeto social chamado KOTO que nos emocionou pela maneira extremamente organizada e coordenada que estão tirando jovens das ruas.
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O elaborado curso que promovem para que os meninos possam trabalhar nas áreas hoteleira e gastronômica da cidade de Hanói é não apenas um curso técnico, mas uma verdadeira escola da vida, que transformam meninos de rua desesperançados em adultos conscientes, inteligentes e prontos para enfrentar o mercado de trabalho, com uma educação digna das melhores escolas.
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SONHO REALIZADO
Cada vez mais sonho com a implementação desses projetos no Brasil. Parece que posso vê-los em nosso país mudando profundamente a realidade de muitas pessoas. A sensação de realização e satisfação para com o Projeto Realice é imediata sempre que visitamos iniciativas como essa.

Estou me sentindo, posso dizer, plenamente feliz com o que estou fazendo. Parece que minha vida inteira estava esperando por isso. Como é bom ter essa sensação de realização.

As dificuldades são muitas, mas sempre arranjamos um jeito de transpô-las e tornamos nosso sonho em uma realidade cada vez mais enriquecedora.

RESUMINDO...
Visitamos os Museus da Mulher e do ex-presidente e Pai da nação vietnamita Ho Chi Min, colhemos documentos importantes sobre a área social do país, estudamos sobre a história desse território marcado por guerras intermináveis, conhecemos mais uma religião – o Taoísmo - e mais, tivemos a oportunidade de conviver em um país socialista, um dos poucos que remanesceram.
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VIDEO: mausoléu do Ho Chi Min ( mausoleu do .MPG )

Tudo isso gerou as matérias que estão no site e que realmente dão um panorama geral sobre o que aprendemos aqui.

TRSTEZA
A nossa única tristeza foi não termos conseguido nos hospedar em casa de família o que certamente enriqueceria ainda mais nossa experiência, pois sem isso, acabamos não conhecendo e vivendo um pouco dos costumes comuns a um nacional.


VAMOS AOS MEUS BREVES PARECERES SOBRE O PAÍS

O TRANSITO
Nada se compara ao transito de Dakha (Bangladesh) e eu achava que o da Índia era o mais caótico... Por isso nos assustamos quando lemos em todos os guias que Hanói possuía um dos trânsitos mais caóticos do mundo.

Como seria isso????? Se fosse pior que o de Bangladesh eu certamente não sobreviveria e não estaria aqui hoje pra escrever nesse diário.

AS MOTOS
Elas sim são o motivo dos comentários encontrados nos guias. São milhões, milhares, uns tumultos incríveis de motos que se misturam às bicicletas nas grandes e largas avenidas da cidade. Os carros são a grande minoria se comparados às motos.

Elas andam tão perto que parece que estão sendo puxadas umas pelas outras. Os acidentes são constantes... Uma roda de moto que agarrou na roda de uma bicicleta, atropelamentos, pequenas batidas, etc.
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Nos transportávamos também com moto-taxis, que são o melhor e mais barato meio para se movimentar pela cidade. Barganhávamos o preço antes e montávamos em nossa motoca para as reuniões.
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Algumas vezes achei que fosse morrer... Um dos meus motoristas atropelou um homem na rua (nem pediu desculpa ou viu se ele tinha se machucado, simplesmente ignorou o fato), o outro esbarrou em outra moto em movimento e eu achei que fosse cair e vários quase bateram de frente com uma multidão de outras motos que cruzavam os cruzamentos.
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OS CRUZAMENTOS
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AH OS CRUZAMENTOS! Quando chegava algum eu fechava os olhos... Imaginem 500 motos na rua da à sua frente, outras 500 na rua em que você está, outras 300 na rua do lado esquerdo e outras 200 do lado direito. Quando o sinal abre, todo mundo vai um de encontro ao outro, no meio da “cruz” e tudo vira um caos generalizado, ninguém sabe quem vai passar primeiro e ficam todos disputando espaço. Eu no meio disso tudo só ria pra não chorar. Claro, de olhos fechados.

Mas eles estão acostumados com tudo isso e lidam com a situação da maneira mais tranqüila, conseguindo sair do nó em segundos.

JOVENS
30% de toda a população é composta por jovens de 15 a 30 anos. Essa estatística pode chegar a 60% se contarmos com os adolescentes menores de 15 anos. Com isso, parece que estamos em um país construído e reinado por jovens.

Mesmo antes do final da última guerra sofrida pelo país contra os EUA que terminou em 1975, os jovens já eram considerados de extrema importância para nação, pois compunha o maior número de soldados do exército nacional que lutaram e deram a vida pelo país em batalhas intermináveis para: libertar o país do domínio francês, da tentativa de domínio japonês e chinês e depois dos EUA. Foram mais de 30 anos de guerra.

PARTICIPACAO DE EVENTO DA JUVENTUDE
Passamos uma tarde de muito trabalho, mas agradabilíssima no Parque Lênin filmando o evento da UNV ao qual nos voluntariamos para participar. Vejam a matéria sobre juventude.
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UNIÃO IMPRESSIONANTE DA JUVENTUDE
Em 1931 o governo criou a União da Juventude Vietnamita, liderada e formada por jovens, que passou a organizar essa força populacional para o reerguimento da nação em ações incríveis que unem mais de 4,5 milhões de jovens.

Obviamente que não poderíamos deixar de realizar uma visita a essa instituição e saber melhor como funcionam. Estivemos com o Diretor da sede central de Hanói quem nos deu todas as explicações.
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IMPRESSIONANTE como conseguiram mobilizar os jovens de toda a nação em uma rede territorial extensa que cobre o país inteiro.

Mais uma vez, não pude parar de sonhar com uma união dos nossos jovens através de uma instituição como essa.

Obviamente que se pensarmos que o Vietnã ainda está sob um governo planificado, isto é, um modelo governamental onde as decisões partem de cima para baixo em uma rede estruturada e plana, movimentando o país por esse “tubo” socialista por onde passam as ordens, percebemos que isso facilita o funcionamento de organizações de massa como a União da Juventude.

No entanto, saber que uma união desse tamanho é possível, sem pensar no sistema em que está inserida, imaginando apenas que o que forma essa massa, são JOVENS, como eu, como 23 milhões brasileiros que possuem a mesma idade, dá sim a esperança de que podemos fazer o mesmo no Brasil.

SONHANDO COM O PRESIDENTE LULA
Penso tanto em nosso novo governo e a imagem do Presidente Lula não sai da minha mente. Fico imaginando eu e Renata, em nome do Projeto Realice, entregando a ele um relatório completo sobre tudo o que vimos e em uma longa conversa, explicar como podemos realizar mudanças significativas no país com os exemplos que trouxemos da Índia, de Bangladesh e do Vietnã.

Quem sabe um dia isso não acontece? Sou mesmo uma eterna sonhadora... Mas, sonhar não custa nada, se não fosse um sonho, eu não estaria aqui hoje.

Sonhos à parte, voltemos à realidade...


A CIDADE DE HANOI

Largas avenidas, grandes arranha-céus, viadutos, pequenos becos, muitas motos. Devido à abertura gradual do governo para o mercado internacional (hoje o Vietnã possui relações com mais de 160 países), as lojas de roupas ocidentais com camisetas e modernas calças jeans estão em todos os cantos. As mulheres são modernas, muito bonitas e elegantes, apesar de possuírem a maioria baixa estatura e os rapazes nos pareceram mais ocidentais do que os próprios ocidentais.

Conhecida por possuir um dos metros quadrados mais caros do mundo – acreditem se quiser, um metro quadrado chega a custar U$ 10 mil! – a cidade parece ser totalmente vertical. Os prédios são estreitos e possuem no mínimo quatro andares cada. Por isso, as calçadas acabam por se tornar uma extensão das casas e estão sempre cheias de grupos comendo em cadeirinhas de plásticos armadas assim como vendendo aperitivos de rua.
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Os dois hoteizinhos que ficamos eram assim, um prédio estreito com intermináveis escadarias, pois praticamente não vemos elevadores nesses prédios.

Pareceu-me uma cidade muito organizada e limpa, mas preciso me conscientizar de que acabei de chegar de países que não podem ser comparados no quesito limpeza pública.

PATRIOTISMO
Impressionante a quantidade de bandeiras do Vietnã que estão em todas as sacadas das casas e dos prédios de negócios – estamos no meio do Asian Games, correspondente aos Jogos Pan-americanos para a gente, que está sendo sediado no Vietnã, o que também explica as diversas bandeiras. Mesmo assim, sabemos que os governos socialistas são marcados por tornar sua população imbuída de um nacionalismo invejável.
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Temos que pensar também no que está por trás de tudo isso:

Censura – conversamos com um jornalista que se lamentava pela dificuldade que encontra em trabalhar no país. Tudo passa pela censura e aqueles que escrevem artigos críticos ao Partido Comunista desaparecem de repente.

Guerras – não podemos deixar de nos orgulhar de um país que resistiu a 30 anos de guerras ininterruptas e hoje cresce a taxas maiores que 7% ao ano sem parar. Cresce em termos econômicos, sociais e políticos, pois estão realizando uma abertura histórica e gradual de suas fronteiras que tem sido copiada em alguns aspectos pela China e por outros países ainda socialistas.


ENTREVISTA COM VETERANA DE GUERRA
Desde que chegamos, eu e Renata queríamos muito poder conversar com alguém que participou da guerra contra os EUA e sem querer encontramos essa pessoa na reunião com o PACCOM.

Ficamos durante uma hora a bombardeando de perguntas (coitada!) e ouvindo histórias impressionantes.

Ela era do exército do Vietnã do Norte liderado pelo General do Partido Comunista do Ho Chi Min. Sua função era levar mantimentos do norte para as tropas que se encontravam escondidas no sul. Conta que levava em média 3 meses para chegar de Hanói a Saigon (hoje conhecida por Ho Chi Min City) nos carros do exército, viagem que hoje dura 30 horas.

As barreiras americanas eram constantes e eles precisavam fugir delas, dormindo em moitas e esperando as tropas saírem do local para que pudessem passar.

Conta que diversas vezes teve que pegar em armas para atirar em seus opositores, mas não sabe se chegou a matar alguém, pois na maioria das vezes apenas atirava na direção de onde vinham os tiros sem saber até mesmo em quem estava atirando.

Viu amigos e familiares morrerem a seu lado e recebeu notícias de outros que haviam morrido. Quando fiz essa pergunta senti que seus olhos encheram de lágrimas e a situação ficou um pouco perturbadora, então tratamos logo de mudar de assunto.

Nos definiu o país na época da guerra. Hanói estava deserta e totalmente destruída, tudo que restou foram destroços dos prédios bombardeados e os sistemas de água e energia elétrica praticamente não existiam.

Toda a população da cidade migrou para as montanhas do norte onde permaneceram, alguns, durante os nove anos de Guerra.

Não havia dinheiro e tudo era à base da troca. Os habitantes que não lutavam nas guerras trabalhavam no campo na produção de alimentos que sustentavam os soldados. A base da economia era arroz, que se tornou a moeda de troca.

As fronteiras de Laos e antiga Birmânia eram as melhores passagens para os mantimentos levados do sul ao norte e foram abertas para os soldados vietnamitas do norte como forma de apoio, o que possibilitou o sustento das tropas que estavam no sul.

Mais de dois milhões de vietnamitas morreram nas guerras e 45 mil soldados americanos, mas obtiveram, como todos sabemos, uma vitória inédita na história mundial mesmo com tamanha perda populacional.

Uma vez em campanha na Rússia o General que comandou as tropas do norte foi perguntado pelo General russo qual era o poder de artilharia de seu exército em termos de tiros por hora. O obstinado vietnamita respondeu que se fosse contar com o poder de sua artilharia, as tropas americanas venceriam a guerra em menos de duas horas, mas com as táticas criativas que pretendia utilizar, mesmo assim, venceriam a Guerra.

FINAL DA GUERRA
Quando terminou a guerra o país iniciou sua unificação (sul e norte) foi quando, para isso, Ho Chi Min discursou incansavelmente em prol do nacionalismo e disse em um de seus comícios em 1960:


“Somos um partido e um povo inteiro unidos em um grande bloco. Somos criativos. Vamos reconstruir nosso país para seguir em frente sem precedentes. Não há poder no mundo que nos faça parar de conseguir vitória atrás de vitória.”

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CULINÁRIA
Emagrecemos algumas gramas. Por não conhecermos a comida e aonde comer, acabamos não fazendo uma imersão culinária como nos outros países. No entanto, o que pudemos ver não agradou muito, embora a comida vietnamita seja muito apreciada mundo a fora. Macarrão feito de arroz (noodle), frito ou como sopa, e muito arroz são a base da alimentação.

Um ponto muito interessante é que não se vê cachorros de rua ou qualquer animal vira-lata andando pela cidade. Quando os vemos estão sempre encoleirados e sendo acompanhados de seus donos. Até os gatos aqui andam com coleiras e ficam amarrados nas calçadas. O motivo é muito simples:

Carne de cachorro, de gato e até mesmo de pombo é extremamente apreciada pelo povo. Por isso não há cães nas ruas, pois quando os acham, tratam logo de os colocar em um espetinho.

PESSOAS
Como não conhecemos outras regiões não temos dados comparativos para fazer um parecer sobre as pessoas de todo o país. Infelizmente não tivemos uma experiência muito agradável em relação às pessoas que encontramos em nosso caminho.

Não fomos muito bem tratadas quando em caminhadas por lojas e restaurantes na cidade. Tentamos formular diversas respostas para entender o por que de tantas rudezas. Talvez pela guerra tiveram que se tornar um povo duro para sobreviver em meio a tantas agruras, também por estarem fartos de estrangeiros em seu território, traumas, poderia ser.

Mas mesmo depois de tanto pensar ficamos sabendo que eles são assim até com eles mesmos. Preferimos pensar que não tivemos sorte com as pessoas que cruzaram nossos caminhos, não generalizando claro – em todas as instituições fomos muito bem recebidas – ficávamos tristes em relação ao trato que recebíamos nas ruas, comprando comida e até mesmo no segundo hotel que ficamos. Mas foi falta de sorte mesmo.

A VOLTA
Depois desses intensos 15 dias, voltamos pelo mesmo caminho que havíamos ido, pela fronteira com Laos em um ônibus terrível (mais um bigode para a minha coleção!) que acabou de quebrar nossa coluna que já andava mal das pernas. Foram novamente 28 horas de uma viagem nada confortável. Mas tudo valia, pois novamente cheguei em minha segunda nação, A TAILANDIA!!!!
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HANOI, 20 e 21/11 – TERRA FIRME

Descansamos nossos corpos sujos e acabados e no dia seguinte começamos a contatar e marcar nossas primeiras reuniões no Vietnã para programarmos nossa agenda de visitas e iniciar o trabalho de campo.

A partir de agora, começa nosso trabalho intenso, pois temos pouco tempo para realizarmos toda a pesquisa.

ESTRANGEIROS QUE PASSAM POR NOSSO CAMINHO
Nesta caminhada que já dura mais de três meses, pelas estradas da Ásia, esbarramos com viajantes de mais de 18 nacionalidades. A maioria são europeus, israelenses (que estão em toda parte), canadenses e americanos. Encontramos apenas um latino americano e até agora, NENHUM brasileiro.

O tempo todo fico tentando formular respostas para entender por que a Ásia não é um destino muito procurado por brasileiros. Estou aberta a opiniões.

ENQUETE: POR QUE O BRASILEIRO NÃO VIAJA PARA A ÁSIA?

Penso eu que ás vezes nosso povo está farto de se deparar com a pobreza e quando pode viajar prefere optar por Europa e América onde podem apreciar o primeiro mundo. Outro fator que acho que devem levar em consideração é o preço das passagens aéreas para cá, que são geralmente bastante caras. Bem, o que vocês acham?
Escrevam para
alice@realice.com.br dando sua opinião. Está aberta a enquete.

Todos os nossos amigos viajantes se apaixonam pelo Projeto Realice e pedem para receberem notícias. Alguns nos fazem diversas perguntas sobre tudo o que estamos vendo e sempre nos desejam sorte. Obrigada amigos!





Thai e Laos, segunda, 17 a 21/11 - PÉ NA ESTRADA

Desde que saímos da Índia, nossa jornada tem sido intensa em termos de movimentação. Não temos parado em um só lugar e nossas noites têm sido mais dentro de ônibus do que em camas normais, o que tem nos dado muitas dores na coluna, mas ao mesmo tempo, a consciência do pouco tempo que nos resta e tudo que ainda temos pra fazer ate o dia de nossa volta no final de dezembro são nossa força motriz.

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Resumindo esses dias, fomos de Khon Khaen até a fronteira com Laos na cidade chamada Nong Khae onde tem a ponte da amizade entre os dois países. Pho, pediu que seu motorista nos levasse. Foram 3 horas de viagem.

Chegando em Nong Khae, atravessamos a fronteira rumo a cidade de Vientiane, capital de Laos, onde dormimos por uma noite para no dia seguinte pegarmos o ônibus que nos levaria direto para Hanói, no Vietnã, nosso próximo país.

LAOS

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Ficamos o dia conhecendo a cidade de Vientiane que mais parece um município francês. A cidade é muito graciosa com seus pequenos bares estilo parisiense e ao contrário de todos os outros países do sudeste asiático a densidade demográfica é inexpressiva e a cidade me pareceu bastante organizada e limpa.

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Vimos o sol se pôr às margens do Rio Mhe Khong, que cruza todo o sudeste asiático e separa a Tailândia de Laos.


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PÉ NA ESTRADA – MAIS AVENTURA PELA FRENTE

Pegamos o ônibus às 19h da noite para Hanói. Nos avisaram que seriam 18 horas de viagem e então logo nos confortamos, pois isso realmente não era lá grande coisa pra quem já passou mais de 40 horas dentro de um trem. Parece que esses números de horas não mais nos assustam!

No entanto, não tínhamos noção do que estávamos prestes a enfrentar...

Ao sair o ônibus estava praticamente vazio contendo apenas uns 10 estrangeiros e a gente. O ônibus que não foi o pior, mas também não era confortável, partiu dali na maior tranqüilidade e cheguei a achar que teríamos uma viagem bem tranqüila.

DOCE ILUSAO.
O que vimos na Índia, se aplicou para esse ônibus, depois de passar por mais de cinco lugares coletando gente, nos vimos em meio a um ambiente que cheirava a cachaça, animal e cigarro.

Foram entrando pessoas locais com caixas e caixas de tudo o que se pode imaginar... nos esprememos em nossas cadeiras, respiramos fundo e fomos em frente.

Viajamos a noite inteira até pararmos às 3h da manha em um pátio vazio até às 7h, pois estávamos próximos à fronteira que somente abriria esse horário.

Até aí tudo bem, fora o fato de eu não ter conseguido pregar os olhos pelo desconforto do ônibus. Fiquei contando carneirinhos e pensando na vida o tempo todo e conversando com a galera estrangeira que estava ali.

CRUZANDO A FRONTEIRA
Amanhecendo, continuamos no caminho até a cidade de Lao Bao, na fronteira com o Vietnã. Caminhamos uns 500 metros pela estrandinha de chão que separa as fronteiras no meio do nada, depois de carimbarmos nosso passaporte com a saída de Laos até chegar na alfândega do próximo país na cidade de Caotreo.
VÍDEO: cruzando a fronteira ( cruzando a f.MPG )


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SURPRESA E EMOCÃO
Enquanto esperávamos, na televisão do escritório estava passando um jogo de futebol e havia duas pessoas assistindo. Quando chegamos mais perto fomos ver que era o Brasil que jogava contra o Uruguai!


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Que emoção, quase ficamos para trás, pois não conseguíamos sair de frente da TV.

Mais emoção ainda sentimos quando ficamos sabendo que o jogo estava sendo transmitido AO VIVO DO MARACANÃ!!!!!!! Obviamente que tivemos que ficar ali até sermos arrastadas pelos nossos amigos.

Onde já se viu: estávamos na fronteira de Laos com o Vietnã, às 8h da manha, do outro lado do mundo, no meio do nada, assistindo a um jogo ao vivo de Brasil contra Uruguai! Grande acontecimento! Obviamente que todos ali passaram a prestar atenção no jogo e torcer com a gente para o Brasil.

Continuando...
Depois de sermos arrastadas para longe da TV para não perdemos o grupo, no caminho observei nosso ônibus parado em uma garagem e um estranho movimento acontecia que nos chamou a atenção. Caixas e mais caixas de Red Bull estavam sendo colocadas dentro dos porta-malas por alguns locais que viajavam com a gente.

Até aí, ainda tudo bem...

Ficamos duas horas para que todos pudessem ter seus passaportes carimbados na alfândega do Vietnã, mas tudo correu bem. Finalmente às 11h estávamos novamente dentro do ônibus e ainda teríamos mais 400km pela frente até Hanói.

A ESTRADA
Parecia que a estrada estava sendo reformada, ou melhor, construída. A paisagem era de floresta e montanhas. Havia um rio que corria por dentro dos vales e o clima era bastante fresco. Não havia nada se não montanhas e máquinas de construção paradas na estrada.

A estrada... Ah, a estrada... era uma ruela que cortava os precipícios da floresta. O ônibus passava tão perto das margens não protegidas da serrinha que sinceramente, não sei como não caímos precipício a baixo. Que medo! Não podia olhar pra baixo pra não ter um enfarto.

Fiquei conversando fingindo que nada estava acontecendo.

Mas o ônibus não caiu e nos sobrevivemos. Viva!

PARADA INESPERADA
Passando essa serra ensandecida, ainda em estrada de chão, o ônibus parou novamente logo que descemos todas as montanhas em um local que parecia ser outro posto de alfândega só que meio abandonado.

Tivemos que descer todos sob a alegação de que faríamos uma pequena parada para descanso. No entanto, a movimentação dos policiais que começaram a entrar dentro do ônibus enquanto esperávamos não parecia nada normal.

Ficamos ali por meia hora, quarenta minutos e nada. Até que resolvi ir até um tailandês que viajava com a gente pra tentar saber o que se passava.

Quando comecei a falar em tailandês com ele, todos os nossos amigos se achegaram me olhando com feições de surpresa e alívio, pois ninguém estava entendendo o que se passava.

Servi de intermediadora da situação (finalmente meu tailandês está servindo para alguma coisa, pois em Laos eles também falam thai só que com algumas modificações. Como é bom falar a língua do local, se um Gênio da Lâmpada aparecesse na minha frente, certamente pediria para falar todas as línguas do mundo... sonhos a parte... vamos em frente) e fomos descobrir que todas as caixas de Red Bull que haviam sido colocadas no ônibus na alfândega estavam sendo contrabandeadas e que aquela parada aconteceu para que as caixas fossem apreendidas pela polícia. Os homens que a haviam levado se faziam de inocentes e acabamos ficando ali por mais de duas horas esperando a situação ser resolvida.


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Os estrangeiros se revoltaram e começamos a pressionar o pessoal dizendo que aquilo era um absurdo que nós não poderíamos ser punidos pelo que não fizemos tendo que esperar todo aquele tempo.

Depois de toda confusão, fomos liberados.

CONTINUANDO A AVENTURA.
Já eram uma da tarde e ainda teríamos mais 8 horas de viagem. Não havíamos comido nada, pois não havia onde. Estávamos todos muito cansados.

Sentada tranqüilamente em minha poltrona dura, de repente ouvi rugidos daqueles que soltam as pessoas que estão passando muito mal. O pior era que o barulho vinha exatamente de alguém que estava sentado atrás de mim. Quando olhei pra trás, EEEECAAAAAAAA!!! A janela estava toda vomitada e obviamente que senti aqueles respingos nojentos no meu braço, pois o rapaz, coitado, estava realmente mal e não teve tempo de abrir a janela!

Ai!!!!!! Que nojo!!! Vomitaram em cima de mim!!! Quando olhei pra trás pra ver o que se passava o coitado estava com o rosto branco e se contorcendo todo enquanto eu, também me contorcendo não acreditava no que se passava.

Obviamente que todos ficaram rindo da minha cara por um longo tempo e até eu mesma caí na gargalhada daquilo... ai ai.. essas coisas só acontecem comigo!

VÔMITOS A PARTE VAMOS ÀS COBRAS.
Ouvimos histórias dessa travessia, que não acreditamos muito, mas fomos descobrir que eram totalmente verdadeiras.

No Vietnã e em Laos eles fazem uma bebida alcoólica típica que chamam de vinho, mas na verdade são compostas de vidro com algumas ervas dentro e cobras, pequenas e gigantescas, dependendo do tamanho da garrafa, mortas com suas bocas abertas e línguas pra fora. É uma bebida cara e muito apreciada.

No primeiro assento do ônibus estava uma italiana que começou a estranhar toda vez que seu companheiro de poltrona ficava toda hora mexendo em um saco grande que estava debaixo da poltrona. Ficou pasma ao descobrir que o homem levava cobras, muitas delas, VIVAS, dentro daquele saco.

No mês passado, um neo-zelandes que viajou no mesmo ônibus foi mordido por uma delas, mas parece que o transporte é legal e nada aconteceu. A italiana, coitada, teve que ficar ali apreensiva com aqueles bichos em seu pé.

FINALMENTE CHEGAMOS.
Depois de 28 horas de viagem (deveriam ser 18h, lembram?) chegamos em Hanói às 22h. Ainda teríamos que procurar um hotel e estávamos todos mortos.

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UMA BOA TRAPAÇA.
Na rodovia de entrada da cidade, entra no ônibus uma vietnamita baixinha falando inglês. Distribuiu panfletos de seu hotel e disse que todos poderíamos ir para lá. Se chama Hotel Youth e fica em uma região central da cidade. O preço era de U$6 o quarto. O esquema era o seguinte: ela entra no ônibus, encontra todos aqueles viajantes maltrapilhos loucos por um banho e por uma cama, faz uma boa propagando do hotel, convence todo mundo e nos desvia do caminho da rodoviária, onde estariam nos esperando milhões de taxistas querendo nos levar para milhares de hotéis da cidade, alegando que estávamos muito cansados e que não deveríamos ser importunados por eles.

Mais à frente, dois grandes táxis já nos esperavam e descemos todos mortos, direto para o hotelzinho anunciado depois de calcular o preço e ver que seria difícil conseguir coisa mais barata aquela hora da noite.

Uma boa jogada do hotel que carregou TODOS os estrangeiros do ônibus. Jogada ou não, foi certamente a melhor coisa que nos aconteceu.

O hotelzinho é simples, mas lindinho. Para mim e Renata, podemos dizer que é um luxo só. Cama macia, banho quente e pasmem, tem até banheira!!!
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KHON KHAEN, sábado e domingo, 15 e 16/11 – FIM DE SEMANA EM FAMÍLIA

Mal pude acreditar ao ver minha Mhe (mãe em Tailandês) chegando para nos buscar na rodoviária! Fiquei meio tonta... Depois de sete anos sem nos falarmos, sem nos vermos ela parecia não ter mudado absolutamente nada!

Com uma alegria que não nos cabia nos abraçamos por muito tempo gritando de felicidade como quem não acredita no que está vendo. Não dá pra descrever!


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Meu tailandês está fluindo aos poucos... Vou ouvindo as pessoas conversando e catando umas palavras que eu havia esquecido.

ESTOU EM CASA NOVAMENTE! Quantos momentos inesquecíveis vivi nesse país maravilhoso e agora parece que todos eles estão voltando. Nunca imaginava que iria encontrar todos novamente e a emoção de estar aqui me faz leve e com vontade de não sair mais!

Fomos para casa da minha família, que não é a que eu morei em 1995, pois eles se mudaram da minha cidade há muito tempo. Lá, conversamos e colocamos as fofocas de sete anos em dia, eu, Pho (pai), Mhe e Re, que daqui a pouco vai estar falando tailandês também de tanto ouvir!!!


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A COMIDA TAILANDESA
Depois da minha família e amigos era certamente o que eu mais sentia falta. Na minha opinião, não existe comida melhor!!! Ficar aqui muito tempo é sinônimo de engordar no mínimo uns 5kg! Pathay, Kwitiau, Latna, enfim diversos outros pratos fazem a gente querer comer o dia inteiro e experimentar tudo que vemos nas barraquinhas espalhadas pela cidade.


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Passamos um fim de semana agradabilíssimo para rumarmos para nossa próxima aventura: Hanói no Vietnam, aonde chegaremos por terra depois de cruzar todo o país de Laos.

Dia 04/12, quando nosso visto do Vietnã expira, voltamos para a Tailândia, direto para Bangkok, onde iremos trabalhar até o dia de nossa volta final para o Brasil.





Chitakong, Sexta-feira, 14/11 – RUMO A CHIANG MAI .


O AEROPORTO DE CHITAKOKG
Depois de tanto tempo somente viajando por terra pegamos nosso primeiro avião, apesar de saber do conforto e alívio por não precisar passar 40 horas dentro de um ônibus maltrapilho percorrendo todos os tipos de estradas possíveis, nos sentimos um pouco decepcionadas, pois não estava em nossos planos viajar de avião, mas como não tinha outro jeito, aproveitamos o conforto!


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Ficamos impressionadas com a limpeza e a modernidade do aeroporto internacional de Chitakong.

Logo vieram homens para nos ajudar a descarregar as mochilas e o que mais nos assustou foi o silencio do lugar. Não havia praticamente ninguém!

Fomos procurar um bar para tomarmos um café (com todo aquele prédio moderno e limpo imaginamos que teriam diversas lojas e cafés por ali), e ficamos pasmas ao saber que somente havia uma pequena lanchonete no canto do primeiro andar do aeroporto e mais nada! Somente aquele café e um Free Shop improvisado no segundo piso.

Quando começaram a chegar os passageiros do nosso vôo ficamos novamente impressionadas ao vermos que éramos as únicas mulheres que iriam embarcar ali. Centenas de homens todos vestidos de terno esperavam na sala e nos olhavam com curiosidade.


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ANSIEDADE RUMO A SEGUNDA TERRA
Dentro do avião eu não podia esconder minha ansiedade por estar rumando para solo tailandês novamente depois de sete anos.

Não parava de pensar que iria falar tailandês depois de tanto tempo sem praticar e ficava com medo de não conseguir dizer uma palavra sequer.

Mas enfim, lá fomos nós para a minha segunda e amada terra.

Chegamos na cidade de Chiang Mai, a segunda maior do país e uma das mais adoradas pelos turistas. Nosso choque se deu ao pisarmos no aeroporto. Que limpeza, que lugar arrumado!

Não ficamos muito na cidade e fomos direto pegar um ônibus para Khon Khaen, uma grande cidade no nordeste onde está a família com quem morei durante o ano de 1995, quando fiz meu intercambio cultural. De lá pegaríamos um ônibus para a capital de Laos – Vientiane - e de lá para Hanói.





Chitakong, Quinta-feira, 13/11 – RUMO A CHITAKONG.

Não é possível cruzar Myanmar por terra para chegar na Tailândia, de onde iremos para o Vietnã. Não há fronteira para estrangeiros então se não voássemos não teríamos como chegar no sudeste asiático nosso próximo e último braço da jornada piloto.

Assim lá fomos nós de ônibus para Chitakong, pois de lá a passagem de avião para Chiang Mai, no norte da Tailândia, é muito mais barata do que de Dakha.

Em um ônibus bem confortável, mas em uma estrada nada agradável, tivemos os mesmos medos e sensações de morte da Índia.

Chegamos na cidade à noite sem conhecer nada nem ninguém, mas como todos já sabem, sempre chega alguém do nada para nos ajudar...

CONFUSAO NA CHEGADA
Descemos do ônibus e logo nos vimos totalmente cercadas de motoristas de auto-rickshaws querendo nos levar. A confusão foi tamanha que tivemos que pedir que as pessoas se afastassem, pois não estávamos mais conseguindo nos movimentar no meio de tanta gente, quero dizer, homens.

Então eis que surge um muçulmano baixinho, com sua barba e chapeuzinho (não sei o nome desse artefato em bangla e em língua nenhuma... vou pesquisar...) falando um inglês capengo que nos salvou. Fomos para um hotelzinho no centro onde ficamos à noite.

RECEIO DE ANDAR PELAS RUAS
Apesar da hospitalidade do povo e de estarem sempre querendo ajudar, não vemos muitas pessoas que falam inglês e a nossa presença causa muito tumulto, pois raramente o povo vê estrangeiros, ainda mais nos subúrbios da cidade. Então ficamos receosas de andar pelas ruas, pois não tínhamos ninguém conhecido que pudesse nos nortear e dizer o que se pode ou não fazer. De qualquer maneira, aprendemos a rir das nossas situações de risco, o que quebra os medos e receios que possam vir a aparecer.





Feni, Terça e Quarta-feira, 11 e 12/11 – VISTA DE CAMPO.

Passamos o dia rodando comunidades rurais onde o projeto LIFT é aplicado e gostamos muito do que vimos.

Por causa da rede de ensino e integração que foi criada pela metodologia do projeto, conseguiram criar na comunidade uma união impressionante.

Fizeram tudo de uma maneira muito inteligente de modo que um agricultor depende do outro para continuar seu cultivo. Depende da semente que o Fornecedor Local produz, assim como depende do treinamento que os Participantes Primários irão lhes dar e assim sucessivamente. Vejam o relatório da visita para maiores informações (em breve no site).


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Passamos os dois dias em visita.

A RELIGIAO NAS ÁREAS RURAIS
Como já era de se esperar, os costumes do islamismo são mais arraigados nas áreas rurais. Aqui não vemos uma mulher sequer sem a burca. As que vemos usando o sari pertencem à minoria hinduísta.


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Em todos os cantos podemos ver pequenas Mesquitas, que são como uma sala vasta sem decoração usada para as cinco rezas diárias. Nelas, os homens ficam sempre em locais separados das mulheres, que geralmente se agacham unidas nos cantos das Mesquitas.

Uma das líderes da comunidade que visitamos possui uma história de sofrimentos, como tantas mulheres batalhadoras no mundo.

Seu marido faleceu quando ela ainda era jovem a deixando com os dois filhos para criar. Como não trabalhava e toda a pouca renda da família vinda do trabalho braçal do marido, ela se viu tendo que trabalhar pela primeira vez.

No início produzia alguns artesanatos que vendia na feira da cidade e ganhava com eles menos de R$5 por semana. Seus filhos passavam fome quando a equipe da CARE chegou oferecendo o treinamento. Além de tudo, ainda sofria o preconceito dos muçulmanos visto que era uma mulher viúva e por isso não deveria ser visitada por homens. Enfim, depois de anos tentando mudar a consciência da comunidade hoje ela possui uma renda mensal de R$200 o que sustenta tranqüilamente sua família.


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DENSIDADE DEMOGRÁFICA
Em Bangladesh sim, a densidade demográfica que é de uma pessoa por metro quadrado é tão gritante que parece nos dar um tapa na cara!

Até mesmo nas comunidades rurais esse dado se faz presente. Os únicos locais onde não são habitados são as plantações. Nas cidadelas das vilas rurais a quantidade de pessoas assusta e até mesmo aqui vemos engarrafamentos de rickshaws.





Dakha, Segunda-feira, 10/11 – VIAGEM E CULINÁRIA.

Nosso visto para Bangladesh durava até hoje. Por isso tivemos que ir ao departamento da polícia para pedir uma extensão.

Foi o que fizemos depois de mais de duas horas de espera e algumas Takas pagas. No escritório não havia um computador sequer e o atendimento nos lembrou aqueles que temos em algumas repartições públicas no Brasil.

MAIS BRIGA
Enquanto tomávamos uma Coca-cola no bar da esquina mais uma vez surgiu aquele corre-corre na rua... Gente brigando... Nunca vi tanta briga de rua na vida. São idosos que se batem e se xingam (quero dizer, eu acho que eles se xingam!) em cenas feias de se ver.

Combinamos de ir visitar o projeto da CARE em uma cidade chamada Feni, que fica no meio do caminho para Chitakong, a segunda maior cidade do país localizada no sul.

No escritório da CARE pegamos carona como diretor do projeto e fizemos uma viagem apertada de jipe de 4 horas até a cidade, de onde seríamos encaminhadas para as áreas rurais em uma visita de dois dias à comunidade atendida pelo projeto.

No caminho, como estamos no mês do Ramadam (o jejum muçulmano) paramos exatamente às 17h30 na estrada em um posto para o motorista e o diretor comerem e fazerem suas rezas. Já que não havia Mesquita, os homens ali presentes (sim porque parece que a população do país é 90% masculina, pois praticamente não vemos mulheres nas ruas se comparado ao número de homens) se viraram para uma parede do posto perto da troca de óleo e ali mesmo estenderam seus paninhos no chão e começaram a fazer a coreografia da reza depois de matarem a fome com um tipo de comida típica que só é vendida nessa época do ano. São uns feijões com legumes fritos que chamam de IFTAR, ou seja, a primeira refeição após o jejum do dia.

Chegamos à noite cansadas na cidade e fomos jantar.

SURPRESA
No restaurante haviam cabines separadas para as mulheres comerem. Foi onde nos aconchegamos, pois se em Dakha que é a grande capital do país, as pessoas já paravam para nos olhar, imaginem em uma pequena cidade rural!!! Estou me sentindo a Sheron Stone!!! He He!


A CULINÁRIA DE BANGLADESH
Depois de dar nossos comentários a respeito da culinária indiana, não podemos deixar de fazer o mesmo com a comida daqui.

Bem, não vimos muita diferença no tempero, em muito se parece com a indiana, mas podemos dizer que eles não possuem muita variedade, come-se muito frango (o que difere da Índia, que possui uma maioria de vegetarianos) e a carne de boi é bastante apreciada, mas rara, pois geralmente as carnes não são boas e para o serem devem ser tratadas antes, o que encarece o preço da especiaria.

Muito curry. Todas as comidas parecem ter curry e MUITO ARROZ, o que já era de se esperar, pois sua economia é baseada nesse cereal, cuja produção atingiu a total auto-sustentabilidade há poucos anos atrás, ou seja, não compram arroz de nenhuma outra nação, apenas consomem e exportam.


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Não há lá muita diferença entre um prato e outro, ao menos nos lugares que comemos, que são onde a maioria dos locais comem, obviamente que não chegamos a experimentar a culinária requintada dos restaurantes caros, mas nossa experiência foi bastante, diríamos, “Bangladeshiana”, mas posso dizer que a comida é bem saborosa.

Passamos à noite na Guest House da CARE na cidade em um quarto bastante agradável.





Dakha, Domingo, 09/11 – VISITANDO A FÁBRICA.

Quem já não ouviu falar das gigantes confecções de roupas dos países da Ásia?

Para matar nossa curiosidade e mostrar para o nosso país como essas fábricas funcionam, fomos visitar a maior indústria têxtil e de confecção do país.

Prédios gigantes que empregam mais de 30 mil pessoas. A indústria abrange todas as linhas da confecção de uma roupa. Fabrica o tecido, até mesmo os estampados, fabricam os botões das camisas assim como as golas, e na linha de confecção, corredores enormes com centenas de mulheres e homens sentados em suas máquinas de costura, trabalham em um turbilhão de peças de roupas durante 10 horas diárias.


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A GAP, Levis e outras marcas européias e americanas levam a maioria de sua produção bruta para ser feita ali.

Ficamos impressionadas com o tamanho da empresa e com a quantidade de gente que ali trabalha assim como a maneira como tudo é organizado.

Uma simples bermuda passa pela mão de pelos menos 100 empregados, pois para produzi-la é montada uma linha onde cada 30 máquinas fazem um pedaço da peça e depois outra linha junta todas para formar a bermuda completa. Um põe a etiqueta, outro prega o botão, outro prega o bolso, etc.


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Cada costureira trabalha 10 horas por dia e ganha em média R$120. O baixo custo da mão-de-obra e do material são os grandes atrativos para as grandes empresas.

A gigante empresa é uma das poucas que cumpre um padrão de produção internacional, ao contrário da grande maioria das outras médias e pequenas confecções vizinhas da grande fábrica, que emprega crianças e praticamente adota o trabalho escravo.

Nesta semana houve tumulto quando mulheres costureiras empregadas dessas pequenas empresas saíram nas ruas para reclamar dos baixíssimos salários e das péssimas condições de trabalho. A movimentação foi rechaçada pela polícia e nada foi feito. Movimentos como esse acontecem quase sempre na capital, mas ainda sim a situação permanece a mesma.

IMPRESSIONANTE
Cada dia que passamos no país parecemos estar respirando uma sujeira que se mostra nas roupas e na pele quando chegamos em casa. Para chegar na fábrica passamos por grandes rodovias – como a Avenida Brasil no Rio de Janeiro – cujos carros e caminhões passam aos montes e nenhum deles possui controle de poluição. A fumaça cinza que sai dos transportes e das fábricas assusta e faz com que não consigamos ver a paisagem que está mais ou menos uns 2km à nossa frente.

Minha cabeça parece que vai explodir!!!

Após a visita fomos nas agencias de viagem procurar encontrar a melhor maneira de ir para o Vietnã por terra. Tarefa que está sendo extremamente difícil. Parece que o nosso intuito de fazer tudo por terra vai encontrar seu primeiro empecilho aqui.

Trabalhamos até as quatro da manha... Realmente já estamos ficando acostumadas a virar a noite.

Temos a sensação de que o nosso trabalho nunca acaba, pois cada dia que vivemos gera mais um dia de trabalho e assim o ciclo não pára. Por isso temos que aproveitar cada minuto para conseguir viajar, trabalhar e viver ao mesmo tempo. Lá se vão as nossas noites de descanso.

Minhas olheiras parecem que ficaram fixadas no meu rosto e não vão sair nunca mais!





Dakha, Sábado, 08/11 – NADA A DECLARAR.

Trabalho o dia inteiro (cyber, casa, cyber, casa...)





Dakha, Sexta-feira, 07/11 – ALMOÇO.

Tivemos uma tarde agradabilíssima na casa do Frank da CARE e sua família com conversas incansáveis sobre comparações entre nosso continente latino e as diferenças tão marcantes deste país.


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Ao final da tarde nos deixaram em casa e fomos visitar a irmã grávida da Shima e seu marido do outro lado da cidade.

Dia de muitas conversas agradáveis que são sempre enriquecedoras.





Dakha, Quinta-feira, 06/11 – ALGUMAS COISAS QUE INCOMODAM.


A HISTÓRIA REAL DE UMA CRIANÇA CHAMADA BALÍ
Balí. Esse é o nome de uma criança de 11 anos de idade que como milhares de outras no mundo não freqüenta a escola e possui um destino já traçado.

Quando chegamos na casa e vimos essa criança com o Rad no colo, filho de dois anos do casal, pensamos que fosse seu irmãozinho. Logo após o menino estava com uma vassoura, agachado no chão limpando a sala. Aí começamos a achar estranho. Ao perguntar fomos saber que essa criança trabalha como babá do Rad – imaginem só uma criança cuidando de outra – e empregado doméstico realizando os afazeres básicos da casa (lavar louça, varrer o chão, limpar banheiro, abrir a porta para visitas e colocar os sapatos à nossa frente quando vamos sair).


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É ele quem leva o Rad para seu troninho quando ele quer fazer necessidades e é ele também que corta os legumes do almoço e separa o arroz da janta. É ele quem troca a roupa do menino e o dá mamadeira.

Ver essa criança varrendo o chão da sala e pior, comendo sua janta com as mãozinhas, abaixado no chão da cozinha como um animalzinho acuado, é como tomar um tapa na cara. Eu e Renata não entramos na cozinha quando ele está comendo, pois dá muita vontade de chorar.

Algumas vezes o vejo na sala de TV quando o Rad está assistindo desenho animado, olhando atento para as imagens. Ele disfarça suas risadas e concentração quando entro, como que se dando conta de que deve voltar ao trabalho.

Estou sempre tentando rir pra ele o tempo todo e tiro suas fotos pra ver se consigo dar a ele pelo menos uma mísera noção do que é ser importante para alguém, mas me sinto totalmente inútil.


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Essa criança mora no apartamento, dorme no chão da sala, faz três refeições diárias, trabalha e ganha 100 Takas por mês, o que, acreditem se quiser, significa, R$ 5,00.

Essa é a realidade de milhares de crianças deste país. Foi como uma saída encontrada para que elas não morressem de fome em suas famílias paupérrimas...

PENSAMENTOS...
Crianças que crescem em um ambiente adulto, sem terem oportunidade de desenvolver sua inocência, não podem deixar fluir sua imaginação e vivem aprisionadas a responsabilidades incongruentes ao seu mundo. Um ambiente próprio que é na maioria das vezes calado, contido, vigiado e subserviente que vai aos poucos corroendo a infância e envelhecendo os corpos tão pequenos que chegam na adolescência com a amargura de um adulto calejado.

Presenciar essas cenas todos os dias me dão uma tristeza profunda. Primeiro porque tenho uma paixão louca por crianças e me dá vontade de chamá-lo para brincar o tempo todo e trocar sua vassoura por uma bola de futebol. Segundo porque é como se conseguisse ver o futuro triste dessa criança, coisa que ele já não mais é.

No entanto, prefiro me fortalecer para tentar com nosso trabalho fazer com que ao menos algumas das nossas crianças brasileiras possam ter a oportunidade de extravasar suas inocências.





Dakha, Quarta-feira, 05/11 - PRIMEIRA VISITA SOCIAL.

Um dos grandes motivos por termos escolhido Bangladesh para esse primeiro bloco foram os seus famosos projetos de microcrédito que influenciaram iniciativas no mundo todo.

Na verdade quem começou essa corrente foi o Sr. Mohammed Yunus com o Grameen Bank. Fomos atrás de iniciativas que nos fizesse entender o porque dessa fama.

Visitamos na organização CKK um de seus projetos de micro-crédito o qual funciona praticamente igual às cooperativas brasileiras, senti apenas que os critérios de seleção de empréstimos e a metodologia utilizada são mais simples e funcionais.


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O boom do dia foi nossa visita ao campo de refugiados dos Biharis. Vejam a matéria. Senti-me em uma favela brasileira.
FOTO: um dos barracos da favela.

RECIPIENTE TRANSBORDANDO
Em apenas uma semana no país a quantidade de histórias que tenho pra contar e os aprendizados absorvidos em tão pouco tempo às vezes me dão a sensação de transbordamento!

Olhando para tudo que estou escrevendo acho que meu diário está grande demais, que escrevo muito e que ninguém vai ter paciência de ler tudo isso.

Mas tenho vontade de tentar passar o mínimo do que estou vivendo e aprendendo para a maior quantidade possível de pessoas, como se estivesse dividindo com vocês essa carga, pois me sinto demasiadamente pequena para guardar tudo isso sozinha. Aí, não me contento com alguns parágrafos, mas com testamentos!!!

Companheiros! Mandem-me sinais!!!





Dakha, Terça-feira, 04/11 - REUNIÃO CARE BANGLADESH.

Conversamos com o Sr. Frank Boeren, um simpático e inteligentíssimo holandês que fala espanhol fluentemente por ser casado com uma Peruana e ter vivido anos na América Latina.

Tivemos uma aula de Bangladesh.

Resolvemos que deveríamos visitar o projeto LIFT da CARE que fica no caminho para Chitakong, a segunda maior cidade do país, nosso próximo destino.

Estando trabalhando há anos por aqui na área de projetos, nossa primeira pergunta a ele foi: “o que Bangladesh tem a ensinar para a América Latina?”

SUA RESPOSTA:
“Depois de tanto tempo aqui, na Bolívia e Peru, posso dizer que a consciência de aproveitamento de cada pedacinho de terra dos bangladeshis é surpreendente.”

Nos contou que por ser um país com uma enorme quantidade de rios, algumas áreas sofrem com freqüência o fenômeno das ilhas flutuantes. Os agricultores pobres nunca sabem a quantidade de terra que terão de um dia para o outro, pois hoje possuem três metros, mas amanhã as água podem carregar metade para a outra margem do rio. Sendo assim, eles aprenderam a cultivar cada minúsculo espaço fazendo até mesmo plantações verticais com arranjos de madeira.

Frank nos convidou para almoçar com sua família nesta sexta.

DIAS TROCADOS
Por causa da religião muçulmana, o fim de semana é sexta e sábado. Domingo é dia útil. Até que gostei muito disso! Domingo é geralmente um dia tão chato e aqui, essa noção simplesmente não existe.

MUITO BEM TRATADAS
Nossa família hospedeira não poderia ser mais perfeita. Estão sempre respondendo com atenção as nossas perguntas, que vocês já sabem que não são poucas, e nos tratam como se fôssemos realmente da família.

Capitão estava nos contado suas histórias mirabolantes do exército quando comandou a tropa de segurança das fronteiras do país com a missão de protegê-las contra a entrada dos terroristas anos depois da independência. Nos descreveu a sensação de como é matar uma pessoa com arma de fogo e no braço, com a baioneta. Não consigo imaginar isso...
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Podemos falar sobre a pobreza, a sujeira, a poluição, o governo corrupto, os policiais estupradores e o transito anárquico, mas se tem uma coisa boa aqui é o povo. Similares aos indianos, são sempre solícitos e querem nos ajudar o tempo todo. Basta iniciar um gesto de que vai abrir o mapa na rua que logo chegam dois para perguntar se queremos ajuda.

Nossa família, nem se fala...

De resto, viramos a noite trabalhando preparando a Newsletter que vocês vão receber em breve, se já não receberam.





Dakha, Segunda, 03/11 – PÁIS MUÇULMANO. RÁPIDO PARECER.

É a primeira vez na minha vida que conheço um país muçulmano. A população é 88% islâmica e vive sobre as regras do Alcorão que exerce grande influência nas leis do país.

Não esperávamos grandes diferenças da Índia visto que antes da saída dos ingleses em 1947, Bangladesh pertencia a esse país. Com a saída, esse pedaço de terra, onde vivia grande parte dos muçulmanos da Índia, virou território paquistanês sendo chamado de Paquistão do leste.

Em 1971 conseguiu sua independência, sob a alegação de que toda riqueza produzida naquele território ia para o Paquistão que somente administrava esse valor e tratava seu irmão do leste como um braço escravo. A independência foi marcada por lutas sangrentas que deixaram milhares de mortos, mas finalmente o Paquistão do Leste se transformou em Bangladesh com um governo próprio e puderam então passa a administrar suas próprias riquezas.

Fomos à Embaixada do Vietnã (próximo e penúltimo país) retirar nossos vistos, que por sinal é considerado um dos mais caros e burocráticos. Pagamos U$72, com uma taxa de urgência, para que ele pudesse sair em três dias, já que normalmente demora uma semana. Ai que dor no coração... Que grana!

Passamos o dia reconhecendo o território. Fomos até o porto da cidade na região de Bagham Tole e tivemos visões incríveis. Confesso que cheguei a sentir um pouco de medo em meio aquela multidão e esmagadora.

Quando fomos até a estreita porta que dá para a margem do principal rio da cidade tive a sensação de estar de frente ao purgatório, ou sei lá o que aquilo parecia, mas não era com nada terreno!

Bem, tirem suas próprias conclusões.
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OBSERVANDO O COTIDIANO DOS HABITANTES.

AS ROUPAS
Os homens se vestem com longas batas e a maioria usa aquelas boinas brancas ou chapeuzinhos muçulmanos. As mulheres também não têm muita opção. Como o islamismo aqui não é tão extremado como nos países árabes, apenas algumas mulheres usam as roupas pretas que cobrem todo o corpo, a cabeça e o rosto, e a maioria usa Panjabis, que são os conjuntos usados pelas indianas. O Sari também está presente, mas em menor número.
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AS REZAS
Segundo o Alcorão, os muçulmanos devem se virar para Meca e rezar cinco vezes por dia: às 5h, às 13h, às 17h, às 19h e às 21h, todos os dias. Cada bairro ou rua possui altos falantes em postes altos que fazem ecoar as rezas ressoadas por uma voz masculina nesses horários. O som chega a ser assustador.

AS MULHERES
O Alcorão prega que a mulher é uma espécie frágil para a qual deve ser dado todo o cuidado masculino. No entanto, o que vemos na realidade é uma total subordinação aos maridos, pais, irmãos, etc. algumas são proibidas de trabalhar e outras são obrigadas a tal. Ou seja, devem cumprir todas e quaisquer ordens masculinas sem objeção sob pena de serem espancadas e até queimadas com ácido.
Não vemos casais andando de mãos dadas e muito menos trocando carícias nas ruas. Os homens caminham sempre na frente e as mulheres vão atrás carregando as compras com a cabeça baixa. Realmente não há demonstração de carisma entre sexos opostos.

OS HOMENS
No entanto, a quantidade de homens abraçados e andando de mãos dadas nas ruas é uma coisa impressionante!
Isso não significa que são gays. A relação deles é realmente assim. Chega a ser um paradoxo a troca de carinhos entre eles próprios e a falta dessa troca entre homens e mulheres. Ainda não consegui entender isso. Mas que é estranho ver esses homens andando abraçados, um com mão na cintura do outro, e até sentando no colo um do outro para conversar, ah, isso é!

DROGAS
Os muçulmanos não podem adquirir nenhum tipo de vício se querem ser bons exemplos para Ala. Por isso, a venda de álcool é proibida no país e apenas estrangeiros ou nacionais com prévia autorizarão do governo podem comprar cervejas e vinhos em postos autorizados. No entanto o cigarro é liberado e vendido em cada esquina, apesar de não ser bem visto, mas os homens fumam.

Já as mulheres... ainda não vi nenhuma segurando um cigarro nas mãos e se o fazem são extremamente mal vistas pela sociedade.

O TRANSITO
Ah o transito...

Dakha é considerada a capital dos Rickshaws – triciclos de bicicleta – que são o principal meio de transporte da cidade. São mais de 300 mil bicicletas com as mais diversas cores e seus motoristas magricelos que brigam todo o tempo por espaços nas ruas. Não posso deixar de declarar a minha pena profunda ao vê-los carregando até três pessoas naquelas cadeirinhas praticando um esforço tamanho que se mostra no suor abundante de seus rostos.

A quantidade de pessoas, rickshaws, poluição, mercados, buzinas, motoristas maníacos, transito totalmente desordenado (não há semáforos e os guardas têm um papel meramente figurativo com seus bastões de madeira nos cruzamentos), cheiro de lixo, ruas esburacadas, barganhas com os rickshaws, fazem de uma simples saída até uma reunião, uma ação estressante, ensurdecedora e muito cansativa.

Os engarrafamentos são constantes e homéricos! Mal dá pra acreditar em algumas visões que temos. São filas de bicicletas que se encostam umas nas outras, a gritarias dos motoristas que brigam uns com os outros o tempo todo, misturado com ônibus caindo aos pedaços (a maioria parece ter saído de um ferro-velho), carros, auto-rickshaws (os triciclos motorizados) e pedestres. Vejam o vídeo no diário da Renata sobre o engarragamento dos Rickshaws.

A poluição que cobre desde as pequenas ruas às grandes avenidas nos dá a sensação de estarmos respirando pó queimado o tempo todo. É quase insuportável. Como se multiplicássemos a poluição e a bagunça do transito de Delhi ou qualquer cidade indiana por cinco!

Faço como as mulheres daqui e coloco sempre um lenço no rosto para respirar, pois sinto minha muita dor de cabeça por causa da sinusite que piora muito com essa poluição! Os seres humanos demasiadamente alérgicos devem evitar viajar para cá, e se vêm, realmente não sei como devem ficar de saúde.
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Ao chegar em casa as roupas brancas estão marrons e a água que lavou as mãos sai com uma cor preta inacreditável.

A POBREZA
Em um passeio pelos centros e mercados mais populares da cidade pudemos perceber as agruras desse povo e ficar imaginando como conseguem viver em uma situação tão subumana e dura como a que vivem. Realmente não possuem a mínima qualidade de vida.

É o país mais pobre do sudeste asiático e o terceiro em número de pobres em um único país do mundo, depois da China e Índia.
Tentem imaginar isso: aqui moram 140 milhões de habitantes. A área do país e mais ou menos o tamanho do Estado de São Paulo, se contarmos com o fato de que grande parte é cortada pelas centenas de rios que banham o país, sobra uma área ainda menor. A densidade demográfica aqui é de quase uma pessoa por metro quadrado!!!

Dá pra imaginar???

Em alguns mercados vemos cenas como essa:
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Ou esta:
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O HOMEM MÁQUINA
Outro ponto destacável é a utilização da mão de obra humana ainda como principal recurso para qualquer tipo de trabalho. O braço e a força de um homem são o que regem toda a economia do país.

Para ocupar tantos braços é preciso, obviamente, haver uma grande oferta de empregos, por isso, em qualquer obra na cidade vemos ao invés de uma britadeira, 20 homens quebrando as lajes. Em todas as casas de família há empregadas.

Como se não bastassem os adultos, vemos crianças trabalhando por todos os cantos: nas lojas, fritando comidas nas ruas, dirigindo rickshaws, de babysiter nas casas de família, em pequenos ateliês de tecido bordando, esmolando, etc.
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O peso que essas pessoas carregam todos os dias nas costas, nas cabeças e as brigas que surgem a todos os momentos no transito ou nas calçadas por causa de situações pequenas, um esbarrão, por exemplo, fazem da vida delas um constante estresse.

A RIQUEZA
No entanto, nem tudo são dores.
Em todo lugar do mundo, não importa o quão pobre venha a ser, existe riqueza. Ela está presente em alguns locais, mas é certa nas cercanias onde habita o poder. Os palácios do governo e as largas avenidas que os rodeiam são limpas, arborizadas e frescas. Lagos artificiais cortam os jardins dos bonitos prédios, palcos dos murmúrios e atrocidades do governo mais corrupto do mundo, como que maquiando a verdadeira visão do país.

Também alguns bairros abastados existem. Onde ficam as embaixadas e moram os diplomatas e políticos, por exemplo. Nesses bairros vemos ruas tranqüilas e verdes com casas e prédios luxuosos, mas basta sair deles para nos depararmos com o turbilhão que fervilha nos centros e subúrbios.
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AS BRIGAS CONSTANTES
É impressionante a quantidade de pequenas brigas que vemos todos os dias nas ruas da capital. O transito mais parece um rink. A situação é tão caótica que os carros andam se desviando e esbarrando um no outro como se estivéssemos mesmo brincando em um parque de diversões do carrinho bate-bate. Todos os carros possuem amassados ou arranhados em sua lataria, eu disse TODOS. Se alguém encontrar algum que não tenha marcas do caos onde andam podem saber que acabou de sair da loja e em poucos minutos já será batizado.
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PARA RIR
Estávamos dentro do auto-rickshaw saindo da Embaixada do Vietnã quando o motorista quis ultrapassar um ônibus pela direita (o contrário do Brasil) um funcionário do ônibus colocou um pau de madeira pra fora da porta e ficou ameaçando nosso motorista com aquela “arma” como quem diz: “vem, passa aqui que você vai ver o que te acontece!”. Nós quase não acreditamos naquilo e a única reação foi rir muito! Que loucura!

Os guardas ameaçam os carros e rickshaws com seus paus de madeira o tempo todo. Não há multas e imagino que qualquer lei de transito. O sinto de segurança não precisa ser usado e os retrovisores ficam fechados. Os guardinhas nada fazem senão gritar com os carros e levantar seus bastões fingindo que vão bater nas latarias.

O que vale aqui é a buzina, essa sim parece ser a lei.

OS PEDINTES
Estão em todos os cantos.
Não podemos ficar um minuto paradas que eles logo chegam aos montes e ficam ao nosso lado ate cansarem. São mães com crianças nuas nos colos, deficientes com as formas mais degradantes, e idosos, como no Brasil, para saber a diferença, basta multiplicá-los por cinco, tanto em quantidade como em grau de degradação.

Sinto uma tristeza profunda ao andar por essas ruas e ao mesmo tempo tenho para mim cada vez mais clara a noção do quão rico é o nosso país e que nos falta muito pouco para sermos uma nação “100% humana” se comparado ao que estamos vendo.





Dakha, Domingo, 02/11 – NOSSA FAMÍLIA MUÇULMANA.

Anis foi uma pessoa que conheci pela Internet quando buscava projetos em Bangladesh. Enviei centenas de emails para trabalhadores sociais que encontrei no site www.idealist.org e ele foi quem me respondeu e ajudou a encontrar os melhores projetos e ainda nos ofereceu hospedagem em sua casa.

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Shima é nossa simpática “mãe hospedeira” que tenta fazer todas as nossas vontades e nos faz sentir em casa.

Capitan Yunus, o homem da casa. Foi capitão do exército há alguns anos atrás, por isso o título. É um homem sereno e simpático que trabalha hoje na maior fábrica de confecção de roupas do país. Nos recebeu de braços abertos.

Sarwat é a tímida e inteligente filha de 11 anos do casal junto com o pequeno Rad, uma criança incansável de dois anos que está sempre correndo de um lado pro outro e tentando conversar com a gente em Bangla (a língua local) com um jeitinho que dá vontade de morder! Virou meu amiguinho de cara!

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O Anis é o irmão mais novo do Capitão.

Temos um quarto só pra gente com uma cama tão macia que quase me fez chorar de emoção!!!





Calcutá – Dakha, Sábado, 01/11 – Cruzando a fronteira.

Foram 4 horas até a fronteira dentro de um jipe desconfortável.

Passamos pelas burocracias comuns. Mais uma vez a desorganização e a falta de informatização nos impressionaram.

Havia poucos computadores e a marcação de nossa saída do país na polícia indiana foi anotada em um grande livro de registros assim como foi também nossa entrada em Bangladesh.

Policiais com paus de madeira nas mãos controlavam a pancadas alguns grupos desordenados que tentavam entrar todos juntos na alfândega.

Os policiais nos perguntaram o que havia em nossas bolsas e o motivo de nossa visita e nos deixaram passar sem problemas.
VIDEO: no rickshaw fronteira Brangladesh com India ( rickshaw.MPG )

Trocamos nossas rúpias indianas para Takas, a moeda local que vale menos ainda. Um Real é igual a 20 Takas e para se ter uma idéia, uma Coca-Cola custa aqui 10 Takas.

Na viagem, passamos por vastos campos de arroz e cruzamos em uma balsa brutamontes um largo rio, cuja travessia na escuridão durou meia hora.

Já chegando em Dakha, tomei um susto com a escuridão do país. Não haviam postos de iluminação urbana e os camelôs espalhados pelo meio fio tinham lampiões ou velas que iluminavam suas mercadorias.

Chegamos às 11 da noite e novamente recebemos ajuda de um homem que viajava com a gente e também desceria em Dakha. O homem ligou de seu celular para Anis e providenciou tudo. Foi de táxi com a gente até a casa e nos entregou sãs e salvas para nosso anfitrião.

O bairro estava escuro, mas pudemos ver sua precariedade. A estrada é de chão e os prédios bastante velhos e sujos. No entanto, nos assustamos com o apartamento que será nossa casa pelos próximos dias.

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Três quartos, duas salas, três banheiros uma média cozinha e sala de televisão, muito bem arrumados e limpos. Mal podíamos acreditar no que víamos! Sem dúvida estávamos esperando algo muito pior.





Calcutá, Sexta-feira, 31/10 – PERNOITE.


Chegamos à noite na cidade e a vimos passageiramente pela janela do táxi que dividimos com os três israelenses que conhecemos no trem até encontrarmos um local para passarmos à noite. Eles pegariam um vôo para a Tailândia.

A cidade me pareceu mais uma visão do inferno do que uma cidade normal. A poluição e o transito eram inacreditáveis, a quantidade de homens carregando caixas gigantescas em suas cabeças e os transportadores de pessoas (foto) pareciam nos levar de volta à época medieval quando a cidade foi considerada um dos grandes portos mercantis do oriente, onde atracavam os navios europeus para serem carregados de especiarias indianas de volta a seu continente.

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Dormimos em um hotelzinho barato.





Nova Deli, Segunda a Quarta, 27 a 30/10 – RESOLVER AS PENDÊNCIAS.

De volta à capital tínhamos que resolver minha situação para que pudesse continuar viajando.

Fomos à embaixada emitir um novo passaporte, o que foi feito em um dia, à Embaixada de Bangladesh tirar novo visto, ao banco dar queixa da perda do cartão, à policia pedir permissão de saída do país e resolver o que faríamos depois de tanto tempo perdido.

Primeiro me dei o luxo de sair daquele escritório e ir para uma Guest House melhorzinha onde pudéssemos ter no mínimo uma cama macia e um banho quente depois de tudo que passei achei que merecia isso.

Arun acabou confundindo um pouco as coisas e eu tive que lhe pedir para voltar para sua família, pois não podia ficar pagando mais um quarto para ele na Guest House – a qual não era muito barata. Ele se deslumbrou com o nosso jeito de viver e acabou achando que poderia ficar ali com a gente, mesmo não tendo nada para fazer em Delhi. Dei-lhe o dinheiro que precisava para voltar para casa e nos despedimos. Eu o serei eternamente grata, pois o que fez por mim, não sei se existe alguém no mundo que faria, nunca o esquecerei.

A MELHOR DECISÃO

Todos os fatos ocorridos (dias tentando encontrar um jeito de sair da cidade, o desencontro e mais os dias resolvendo minha situação), haviam-nos feito perder quase duas semanas.

Sabendo da situação imprevisível de guerra que o Nepal se encontra e também do fato que se subíssemos para o Himalaia não haveria jeito de chegarmos na Tailândia (últimos país) a tempo de fazer a pesquisa e pegar o avião de volta para o Brasil no final de Dezembro, visto que nosso budget não comporta viajar de avião, o que certamente nos pouparia tempo, resolvemos com muita dor no coração cortar o país da rota.

De Delhi para o Nepal de ônibus são 36 horas, mais os dias que perderíamos, pois a guerrilha dos maoístas está fazendo checagens demoradas na fronteira, o que nos atrasaríamos no mínimo mais um dia. Fora isso, também há nas vilas rurais do país, antes de chegar em Kathmandu o toque de recolher que começa às 19h, o que impede o ônibus de viajar depois desse horário. Sendo assim calculamos que demoraríamos pelo menos quatro dias para chegar na capital do Nepal, sem contar os dias de volta que deveríamos descer para Bangladesh.

Não tínhamos todo esse tempo. Enviamos comunicado para todos que nos esperavam no país há tanto tempo nos desculpando e explicando a situação que foi realmente contra a nossa vontade.

Quando iniciamos o projeto sabíamos que situações imprevisíveis poderiam acontecer. Depois de tanto tempo com tudo correndo perfeitamente bem, ela aconteceu. Ficamos muito chateadas mas não pudemos evitar esse corte.

Mas, o importante é que estou aqui, vivinha, tentando tirar os aprendizados de tudo isso e me preparando para enfrentar os próximos passos dessa nossa aventura.

Confesso que me sinto mais enfraquecida, com muita saudade da segurança e do conforto de minha casa e família. Mas preciso aprender a contornar essa situação. O tempo me dará as respostas.

DESPEDIDA...

Depois de dois meses na Índia chegou o dia de nos despedirmos com uma bagagem transbordando de aprendizados e experiências que farão parte de nossas mentes e corações para sempre.

E lá fomos nós para a Estação de trem de novo... quando a via cheguei a ficar arrepiada...

Deveríamos ir para Calcutá, na ponta leste da Índia, e de lá pegaríamos um ônibus para Dakha, capital de Bangladesh.

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Foram mais 24 horas de viagem... o trem está virando meu habitat natural!





Nova Deli, Domingo, 26/10 – De volta ao porto seguro.

Depois de uma noite de pura tensão, finalmente chegamos em Delhi.

Fiquei sabendo de um caso ocorrido no ano passado de uma francesa que viajava sozinha em um trem e foi estuprada por policiais em um vagão vazio. Esse talvez pudesse ser o meu destino se meu anjo não estivesse ali tão obstinado a me salvar, mesmo tendo que passar pelos piores constrangimentos.

REENCONTRO E CONCLUSÕES

Ao ver Renata nos abraçamos e choramos.

Mal podia sentir meu corpo exausto depois de 48h sem dormir.

Ainda não consigo ver o melhor aprendizado de tudo que se passou. Realmente descobri que tenho muito mais força do que imaginava. Dentro daquele trem, tentava me consolar no olhar de sofrimento daqueles indianos que são obrigados a conviver com situações como essa muitas vezes. Ao mesmo tempo em que sinto nojo ao lembrar que muitos ali se aproveitaram da minha presença, também sinto pena deste povo oprimido pela multidão e falta de oportunidades para todos.

Pensar em tudo que poderia ter me acontecido me fez uma pessoa mais cautelosa. Trens lotados serão para sempre evitados, principalmente na Índia. Acho que esse episódio foi como um calo em meu coração. A sensação de estar perdida, sozinha, em meio a uma multidão que não te entende e pode fazer o que bem entender com você, sem um só documento e sem dinheiro para nada há milhares de milhas distante da sua casa é algo que somente conseguimos entender quando passamos por isso.

Ainda estou processando os aprendizados, mas por enquanto, só consigo pensar em voltar pra casa. Acho que fiquei meio fraca depois de tudo isso. Mas isso vai passar. É preciso continuar a viagem, respirar fundo e seguir em frente.

Eu-e-meu-anj.jpg Arun não tinha para onde ir visto que seus amigos haviam viajado para o Diwali. Levei-o para o escritório comigo e prometi que ficaria ali até decidir o que fazer. Era o mínimo do mínimo que eu podia fazer. Da mesma maneira que ele não me deixou sozinha, não o deixaria até ter certeza de que ele estaria bem.

À noite fui ligar para a família que estava preocupada no Brasil.





Mugansarah, Sábado, 25/10 - FINALMENTE CHEGAMOS

Quando chegamos, fui a primeira a sair daquele inferno. Meu anjo havia decidido que não me deixaria sozinha e desceu comigo abdicando por minha causa de passar o “Natal” com sua família.

Nas horas que passei no trem pensei que a única maneira de encontrar Renata seria através de email.

Ao chegar fui direto para a Polícia da estação dar queixa sobre a perda dos documentos. Meu corpo todo parecia que ia desmontar e meus olhos ardiam de cansaço. Contando que não havia dormido o necessário na noite anterior trabalhando, estava há umas 27 horas sem pregar os olhos.

A POLÍCIA DA INDIA

Os policiais eram os mais despreparados e ignorantes. Apenas um deles falava um inglês cabreiro e os outros apenas olhavam para minha cara de cansada. Arun traduzia tudo. Tive que escrever o que um deles ditava em inglês e depois reler letra por letra, pois ele fazia questão de não entender o que estava escrito. Sempre que começava a contar o que havia acontecido meu choro ficava entalado na garganta o que me impedia de continuar, então meu anjo interferia e resolvia por mim.

Depois dali, fui direto para um Cyber rezando para que Renata houvesse pensado o mesmo que eu e Graças a Deus, ao abrir logo encontrei seu email:


“Amiga,
Pelo amor de Deus, onde vc está?
Estou enlouquecida pensando que deve ter pego o trem...Sei que pegou o dinheiro e que às 10:20 saiu do gate do reembolso e por isso, não tenho mais dúvidas. Não consegui pegá-lo ontem: estava com as mochilas e não havia uma porta que conseguia entrar. Estou em Nova Dehli, e acabei de chegar no Office onde estivemos, em Green Park. Estava na Estação até agora (6 a.m) tentado pensar o que poderia fazer e de todas as opções achei melhor ficar e esperar que me ligue para decidirmos o que vamos e devemos fazer agora. Todos os trens estão lotados (mas poderei ir!) como os que vimos ontem, e demorariam 15 horas até que nos contatássemos. Então, aqui estou de plantão. Só saio daqui depois que me ligar!

Atenção, os números daqui são...

Os trens que existem saem às 7.30 a.m e 13.30 (este chega a Varanasi às 6 da manhã – Se ver este e-mail antes desta hora, por favor, me ligue urgente para que possa pegá-lo!)

Estou com o meu coração na mão e espero que esteja bem. Passei a noite toda mentalizando coisas para vc, espero que tenha recebido. Queria muito que tivesse calma nesta hora. Também precisa ter calma para pensar friamente o que pode fazer. Suas bolsas estão comigo, não se preocupe. Compre roupas para vc e o que precisar. Esteja em paz, amiga, por favor. Não quero pensar que esteja em pânico. Estou tentando ficar bem. Fiquei muito preocupada e passei a noite buscando a lição disso tudo!

“Não há mal, que por bem não venha”. Vamos aprender alguma coisa com isso.

Estou te aguardando e mais uma vez, espero que esteja calma e tranquila. Por favor, não se desespere. Eu e Deus estamos com vc!!!

Renata”

Ela ainda não sabia do pior. Essa foi a minha resposta:

Amiga,

Estou desesperada e perdida. Passei um aperto subumano naquele trem e pra piorar minha vida toda, meu passaporte, todo dinheiro e cartões de credito foram perdidos quando entrei no trem.

Tudo o que tenho são 450 do reembolso da passagem e um amigo indiano que
esta sendo meu anjo da guarda.

Estou desesperada, muito cansada e sem nada. Dei queixa na policia sobre o passaporte...
O que vou fazer???

E não tenho dinheiro pra nada.

Vem me salvar!! Vou te ligar pra ver se conversamos...

Estou realmente muito desesperada...

Me ajuda.

Alice.

Depois disso, consegui falar com ela no telefone foi quando tudo ficou mais tranqüilo.

A DECISÃO MAIS SENSATA

Arun me contou depois que pretendia vender seu anel de ouro, que lhe foi dado pela família quando ficou noivo, para nos salvar se eu não tivesse as 450 Rúpias.

Obviamente nunca o deixaria fazer isso. Decidi que tinha que voltar para Delhi e para isso teria que convencer alguém na Estação a deixar-nos ir com o pouco dinheiro que tínhamos.

Havia gastado um pouco com ligações e Internet e uma passagem de volta para Delhi custa R450 cada. Tínhamos apenas R400. Arun decidiu que não me deixaria sozinha um só minuto e resolveu voltar comigo para Delhi, mesmo eu tendo insistindo para que ele fosse para sua família que eu ficaria bem.

CONTANDO COM A BONDADE

Fomos para administração da Estação e novamente ao começar a contar a história me veio a vontade de chorar. Isso foi até bom, pois eu parecia tão desconsolada que não havia como as pessoas me dizerem não! Até eu mesma estava com pena de mim!

Estava com muita fome, mas não sabia se nos sobraria dinheiro para comer. O supervisor da Estação sabendo disso teve tanta pena que nos pagou almoço e me colocou de graça em um trem de volta para Delhi uma hora depois (às 15h). Pagamos apenas R170 para que o Arun pudesse vir também.

“Que alívio!!!!! Tudo estava terminado”, pensei. O trem estava vazio e pude dormir tranqüila por umas 3 horas. Ao acordar ficamos vendo os fogos de Diwali iluminarem o céu. Tinha novamente mais 15 horas de viagem.

Mas minha provação ainda não havia terminado...

O INFERNO DA VOLTA

Quando olho para trás vejo Arun conversando com três policiais fardados que carregavam espingardas enormes em suas costas.

Depois de tanta demora perguntei para Arun o que estava acontecendo e ele ainda confuso disse que eles estavam ali para nos proteger, que aquele vagão não era seguro e que deveríamos seguí-los a um vagão onde estaríamos a salvos (não sei do que).

Depois de atravessar cinco vagões que iam ficando cada vez mais vazios paramos em um onde somente havia mais dois policiais.

Disseram que deveríamos dormir ali, eu em um assento e Arun em outra cabine. Eu ainda não estava entendendo o que estava acontecendo e esperei o Arun vir me dar uma luz. Mas, quando isso aconteceu, meu cansaço e desespero quiseram voltar na hora em que vi seu rosto desconsolado dizendo que os policiais queriam nos separar afirmando que ele não era seguro para mim e que queria me fazer mal.

Eu, em um ato que via ser o único a ser feito naquele momento, agarrei em sua mão dizendo que não o soltaria e que queria voltar para o vagão onde estávamos que ali estava muito frio. Os policiais não me entendiam e a tradução do Arun os fazia ficar com mais raiva ao verem que eu não obedecia a suas ordens para dormir longe dele. Vendo que eles haviam nos prendido ali e que não conseguiríamos ir a lugar algum, deitei no colo do meu amigo e disse que revesaríamos de posição para dormir com medo de que eles pudessem fazer qualquer outra coisa.

Durante toda a noite os policiais ficaram ameaçando tirar Arun do trem se ele permanecesse ao meu lado. Uma hora que estava com sua mão em minha cabeça, um dos guardas o ordenou que não encostasse em mim. Senti que ele ficou muito assustado e comecei a falar para o guarda que nós iríamos casar, na tentativa de fazê-lo entender de que Arun não estava ali para me machucar, mas para me proteger.

Tudo em vão. Pelo menos conseguimos chegar.





Nova Deli, Sexta-feira, 24/10 – PRIMEIRO CONTATO COM O ISLAMISMO.

Fomos dar nossa última caminhada pela capital depois de nos despedirmos do pessoal do escritório que nem não nos deu muita atenção, pois estão sempre ocupados...

mesquita-de-.jpg Visitamos uma das maiores mesquitas da Ásia. Chegamos na hora de um dos cinco rituais de reza que os muçulmanos são obrigados a cumprir por dia. Voltados para a direção onde está Meca eles se agacham no chão no mínimo seis vezes ao som dos gritos cantados (que dão medo) vindos dos auto-falantes arrumados nas pilastras do pátio da mesquita.

Ao tentar entrar fomos barradas, pois nas horas da reza qualquer pessoa que não seja muçulmano é proibido de entrar. Sabendo disso, dissemos que éramos muçulmanas, mas lá dentro veio um senhor ranzinza e nos escorraçou para fora visto que não conseguimos manter a mentira.

Aquilo me causou uma revolta muito grande, pois não consigo entender como uma religião pode restringir o acesso a qualquer ser humano ao seu Deus. Dissemos que Alah era para todos e que nós queríamos rezar também, mas tudo em vão. Tivemos que esperar uma hora do lado de fora, vendo todos aqueles homens correndo em direção à mesquita para não perder a reza, se posicionando em filas horizontais. Centenas deles vestindo suas batas brancas e boina islâmica se agachando e levantando como em uma coreografia.
VÍDEO: a coreografia ( Acoreografia.MPG )

Fomos para a estação de trem embarcar.

O INFERNO ESTAVA APENAS COMEÇANDO

Chegando na estação, atrasadas, tivemos que nos separar para dar tempo de fazer tudo. Eu fui pegar o reembolso de uma passagem antiga que não usamos e Renata foi pegar as mochilas no clock room e marcamos de nos encontrar no vagão do trem.

No entanto, não tínhamos a mínima noção do que nos esperávamos.

Estávamos na véspera do maior feriado do país e por isso todos que trabalham em Deli estavam indo de encontro às suas famílias no restante do país.

Vocês já podem imaginar a quantidade de gente que ali estava.

Ao chegar na plataforma, correndo como louca, pois faltavam apenas cinco minutos para o trem partir e eu ainda tinha que encontrar o vagão onde Renata deveria estar saí desesperada perguntando para todos onde ficava o S 3. Mas a desinformação era total e parei em um vagão, o qual não tinha certeza se era o certo, faltando dois minutos para o trem começar a andar.

Chegando lá, nada de Renata, olhei pela larga plataforma e não a vi. A porta por onde eu deveria entrar estava absoluta e absurdamente lotada. Não havia o mínimo espaço onde pudesse colocar as pernas para entrar. As pessoas no desespero estavam passando por cima das cabeças daqueles que se agarravam na segurança da porta para entrar.

Não sabendo se todas as portas estavam assim e, portanto, se a Re tinha conseguido entrar coloquei na cabeça que tinha que entrar no trem de qualquer maneira, pois se não a ia perder. Pedi que as pessoas do lado de fora me ajudassem a entrar e elas me empurraram nas costas, me “socando” para dentro como quem amassa uma massa de bolo.

Eu tinha apenas uma sacola plástica com uns tecidos que havia comprado no mercado e minha bolsinha onde estavam meu passaporte, cartões de credito e dinheiro. Na situação do grande empurra-empurra minha bolsinha foi jogada para o alto e quando olhei, tudo que estava dentro havia sumido.

NUNCA FIQUEI TAO DESESPERADA NA MINHA VIDA

Vendo-me ali sem nada no meio de uma multidão inacreditável não tive tempo de pensar se ficava ou se tentava entrar no trem. Achei que minhas coisas tinham caído dentro do vagão e então decidi, no desespero, entrar no trem a qualquer custo na esperança de que encontraria o que havia perdido.

A DESCRIÇÃO DO INFERNO...

A sensação de perdição e desespero eram tamanha que comecei a tremer e a chorar com uma força que nem eu mesma sabia que tinha.

Simplesmente vi meu mundo se fechar e tudo ficar escuro. Consegui, com o trem já começando a andar, me agarrar em um pedaço da porta e entrar no vagão.

Foi quando me dei conta de que estava entrando no inferno.

Em um espaço, que pude calcular ter 4x2m estavam espremidos aproximadamente 25 homens e eu. A única mulher, estrangeira, desesperada, sem lenço e documento e pior: sem uma rúpia sequer no bolso.

Fiquei ali, sozinha, absolutamente sozinha, sem saber o que fazer, do outro lado do mundo, espremida em um espaço de menos de 30cm2 que me cabia (meu pé mede isso), em meio a homens também espremidos que passavam fisicamente pelo mesmo inferno que eu, no entanto iam para suas casas e isso valeria qualquer esforço.

Já eu, estava perdida. Meu caderno de telefones também se perdeu e não poderia imaginar o que iria fazer para reencontrar Renata novamente ou mesmo como faria para voltar para Delhi, pior... Não sabia sequer se Renata tinha entrado no trem, e se não, para onde ela iria? Onde estaria?

Não conseguia parar de chorar e tentava pedir que os homens me ajudassem a encontrar meu passaporte. Mas mal podiam se mexer quanto mais tentar encontrar algo ali.

O suor escorria por minhas costas e corpo inteiro. Fiquei com meus pés um à frente do outro, em pé, sentindo mãos asquerosas se aproveitando da vulnerabilidade em que me encontrava, para tocar minhas pernas, cintura e outras partes e eu desesperada me debatia tentando fazer aquilo parar. Por um instante achei que fosse desmaiar e perder totalmente as forças. Tentava manter a respiração e a mente sã. Não conseguia parar de tremer.

Foi quando me dei conta de que não poderia sair daquela situação. Não havia saída senão me acalmar e tentar pensar no que fazer. Rezei, rezei e rezei pedindo calma e paciência.

Pensar no que vi me causa ainda ânsia de choro. Homens indianos paupérrimos (a maioria ali estava ilegal, tendo entrado sem pagar) com as mais desacalentadoras feições de dor. Ouvíamos gritos a cada segundo por causa dos empurrões e pancadas que levavam, quero dizer, levávamos, cada vez que alguém se mexia. Algumas vezes uns perdiam a paciência e começavam a se estapear, mas logo paravam aclamados pelo povo que se espremia ainda mais.

para-compara.jpg Não havia sequer um pequenino espaço para que cada um pudesse, no mínimo, posicionar os braços ao longo do corpo. Homens idosos, que deveriam ter no mínimo 60 anos, viajavam em pé no meio de corpos agachados sem poder nem ao menos encostar a coluna e alguns homens se revesavam e ficavam hora em pé hora agachados. Sentia-me dentro de um daqueles trens que levavam judeus como cargas para os campos de concentração. A meu ver não há comparação melhor.

Em meio ao meu desespero, vivendo tudo aquilo, sem conseguir parar de chorar e me acalmar, sabendo ainda que estava totalmente desorientada, havia apenas um jovem indiano que falava inglês e entendia o que eu tentava dizer sobre o passaporte e tudo que tinha perdido e pedia pelo amor de Deus que alguém me ajudasse, mas ninguém me entendia. Arun era seu nome. Foi somente ele quem me ouviu.

MAIS UM ANJO EM MEU CAMINHO


O-anjo-ArunH.jpg Um anjo enviado por Deus para me amparar naquele momento de total escuridão e solidão. Ele logo sentiu pena e me pediu calma que tudo se resolveria. Foi então que lhe contei o que havia acontecido. Vendo meu desespero ele pediu que alguém me deixasse agachar para que pudesse descansar um pouco.

Estávamos no pequeno espaço retangular que separa o vagão da junção com o outro vagão. Era impossível se mover para dentro onde estão os assentos e foi ali mesmo que fiquei entalada. Havia dois estreitos bancos ao longo das paredes improvisados onde normalmente caberiam três pessoas sentadas, mas estavam cinco e quatro outros de pé.

Naquele momento, como não possuía forças, me agarrei ao Arun como se ele fosse a minha força e não o soltei um só minuto. Segurei sua mão como quem pede socorro e não conseguia dizer outra coisa se não pedir para que ele não me deixasse ali sozinha.

Eu era a única mulher na multidão espremida, a única estrangeira e talvez a única pessoa ali que não tinha documento, dinheiro ou uma luz no fim do túnel.

Quando consegui me acalmar, perguntei depois de quanto tempo seria a próxima parada do trem. A resposta me fez voltar ao desespero. TERIA QUE PERMANECER ALI NAQUELA SITUAÇÃO DESUMANA POR 15 HORAS.

Engoli minhas lágrimas e comecei a pensar que não era a única que sofria e que ao menos não estava sozinha. Pedi forças, paciência e coragem rezando da maneira mais profunda que já o fiz. Prometi a mim mesma que não olharia o relógio e comecei a conversar com meu anjo para passar o tempo. Nesse momento eu estava sentada em uma ponta do banco, com as pernas entrelaçadas à cintura dele e os braços encolhidos em meu abdome, pois não havia outra maneira que pudesse ficar.

Arun estava indo passar o Diwali com sua família. Tentando sempre fazer com que eu conseguisse a melhor posição e tendo sua cabeça algumas vezes presa entre as pernas das pessoas ao tentar encontrar meus documentos no chão, me consolava com suas ações.

Um jovem humilde e recém desempregado de vinte e seis anos de idade. Mora na parte Bengali da Índia. Para ele seriam 36 horas de viagem até sua cidade. Para mim seriam apenas 15 até a estação de Mugalsarah, 14km de Varanasi.

UMA LUZ NO FIM DO TÚNEL

Resolvi olhar para minha pobre bolsinha e ver o que me havia sobrado. Para minha sorte e alivio havia ali as 450 Rúpias do reembolso, que foram o principal motivo da minha separação da Renata.

Ironia do destino ou não, o mesmo dinheiro que foi o motivo de tudo ter acontecido, foi o mesmo que me salvou, pois fui descobrir que meu anjo também não tinha sequer uma rúpia e viajava ilegalmente.

DORES NO CORPO

E assim fui vendo o tempo passar. Permanecia na mesma posição por umas duas horas seguidas. Quando não mais sentia minhas pernas e nádegas me mexia um pouco para fazer a dor passar. Senti muita sede, mas temia beber a garrafa de água que um dos homens carregava, pois não sabia se era mineral e minha situação poderia ficar muito pior se bebesse aquilo. No entanto, já não possuindo mais saliva pedi um pequeno gole somente para molhar a garganta.

Um pequeno grupo de cinco homens se formou agachados no chão e Arun contou-lhes minha história. Todos sentiram pena de mim e tentavam vasculhar o chão em busca de alguma pista de meus documentos. Em vão.

Pedi para as pessoas gritarem Renata para ver se ela estava ali, mas nada. Nenhum sinal dela.

AS COISAS BOAS

Com o tempo, fui me consolando tentando revisar as coisas boas que me haviam restado: Arun, 450 Rúpias e o fato de Renata não estar ali, pois não desejo para ninguém, principalmente para ela, passar pelo que eu estava passando.

Vi o dia amanhecer e o trem parar pela primeira vez 10 horas depois. Rezei para que alguns passageiros saíssem para que pudéssemos ficar um pouco melhor ali, mas a situação só piorou. Saíram umas quinze pessoas e outras trinta entraram. Nada mais me abalava. Pior que aquilo não dava pra ficar.

Com o amanhecer ainda tínhamos mais quatro horas pela frente. Para mim, ouvir esse número foi um consolo, pois para quem já havia passado 10, mais quatro seria fácil. Enganei-me, pois foram exatamente os piores momentos visto ao cansaço que meu corpo reclamava.





Nova Deli, Quarta-feira e Quinta-feira, 22/10 e 23/10 – CONSEGUIMOS AS PASSAGENS!

Conseguimos comprar uma passagem para Varanasi depois de sermos enroladas por um agente de viagem.

Aqui em toda esquina nos grandes centros encontramos pequenas agencias de viagens que se dizem ser do Governo. No entanto, suas taxas são muito altas e a probabilidade de sermos enroladas por eles também. Foi o que aconteceu.

O homem da agencia disse que todos os trens estavam lotados que seria impossível conseguir ir para Varanasi. Depois de fazer todo esse terror disse que tentaria nos ajudar conseguindo passagens na primeira classe por um preço absurdo, mas no desespero nos aceitamos.

Quando fui buscar os tickets com ele na agencia disse-me que deveria ir até o Turism Office que fica dentro da estação para comprá-los visto que como somos estrangeiras temos direito à uma parte do trem que é reservada para a gente. Colocou-me em um autorickshaw até a estação.

Lá chegando me deparei com uma parte de venda de passagens somente para turistas. Um escritório enorme com ar condicionado onde só haviam estrangeiros. Ao perguntar sobre passagem para Varanasi, para minha surpresa fui informada que haviam no mínimo 3 trens que poderíamos pegar apenas no dia 24, e ainda na segunda classe (na qual geralmente viajamos com o preço razoável).

Comprei tranqüilamente os tickets e voltei para a estação pegar o resto do dinheiro que tinha deixado com o homem da agencia como garantia caso não conseguíssemos.

Para minha surpresa o homem me cobrou 1000 Rúpias de taxa por ter nos ajudado!!! Mil Rúpias!!! As passagens custaram 390 cada uma! Ao ouvir isso me assustei e perguntei o por que de tão alta taxa. Ele sabia sobre esse Turism Office e que poderíamos encontrar passagens ali facilmente, nos enrolou durante três dias dizendo por telefone que não havia passagens e que iria fazer todo o esforço para tentar nos ajudar, querendo com isso nos assustar para darmos valor ao seu trabalho. No entanto, ele poderia ter usado da boa vontade e até bondade, eu diria, e nos comunicar desde o primeiro dia sobre a existência desse Office e tudo seria resolvido.

Enfim, após muito discutir disse que aquilo não era justo e pedi meu dinheiro de volta. Acabei pagando 600 rúpias de taxa e saí dali muito chateada.





Nova Deli, Terça, 21/10 – Estamos acabadas.

Como já era de se esperar o dia após uma noite sem dormir é sempre catastrófico e imprestável. Dormimos até às 11h e eu passei o dia rodando o bairro e ligando pra todos os nossos contatos tentando conseguir um jeito de ir para Varanasi, nossa última cidade antes de rumar para Kathmandu no Nepal.

Aqui ninguém sabe de nada, ninguém viu nada e ninguém pode informar nada! Nunca vi um povo tão desinformado como esse de Deli!

Bem, resumo da jornada: não há passagens de trem para Varanasi. Todas estão esgotadas, pra variar. Também não há ônibus direto e estamos agora desesperadas arranjando um jeito de sair da cidade.

O Diwali está chegando (26 a 28/10) que é o maior feriado festivo do país, como o ano novo. Eles comemoram a volta do Deus Rama da prisão onde ficou encarceirado por mais de 25 anos. Nesta época os comércios de velas, imagens dos deuses e doces, muitos doces, são triplicados e por todos os cantos esbarramos nos camelôs.

Veremos o que iremos conseguir amanhã.





Nova Deli, Segunda, 20/10 – pendencias.

De manhã fomos pegar nosso visto de Bangladesh. Tudo certo, mas temos direito de ficar apenas 10 dias no país.

De resto, trancadas no escritório trabalhando e atualizando as pendências que são muitas, pois nesses dez dias passados, visitamos em pouco tempo muitas cidades distantes sem parar por mais de dois dias em cada uma, nos impedindo de enviar as atualizações.

Trabalhando-.jpg Viramos à noite trabalhando pra variar... Fomos direto até às 6h30 da manhã, escrevendo, escrevendo, escrevendo... Acreditem se quiser...

Ah...fomos pegar nossas roupas com a lavadeira e pra nossa surpresa eles tinham estragado praticamente todas!!! Não sei como lavam as roupas aqui, mas estavam todas manchadas e queimadas por causa do ferro. As brancas, de marrom, como estavam, ficaram ainda mais marrons. Agora sim estamos parecendo aqueles vagantes que usam sempre as mesmas roupas amareladas e gastas.





Nova Deli, Domingo, 19/10 – Ah o Taj Mahal...

Como estamos a duas horas de uma das sete maravilhas do mundo, resolvemos ir de vã para Agra e admirar tamanha beleza com nossos próprios olhos.

Desde pequena sempre tive fascínio pelo Taj Mahal, sua história e sua beleza. Guardava suas fotos sempre que encontrava alguma e sabia que algum dia iria conhecê-lo custava o que custar.

Havia chegado meu grande dia. Iria finalmente poder tocar no monumento que sempre esteve presente em minha mente como um sonho que algum dia iria realizar.

Não preciso nem dizer o que aconteceu. Por favor leiam a matéria sobre o Taj.

Minha indignação foi tamanha que tive vontade de preparar um abaixo assinado, escrever um manifesto, gritar para o mundo essa injustiça e tentar buscar em todas as leis do país e do mundo a prova de que cobrar preços tão absurdamente diferentes para indianos e estrangeiros nada mais é do que um declarado preconceito e discriminação racial legalizado!!!! Eu nunca vi nenhum lugar que cobra valores diferentes para estrangeiros e turistas em toda minha vida. Você já viu?

Queria poder abrir uma enquete em nosso site, um fórum de discussão para que eu possa ouvir outras pessoas comentando sobre o assunto para saber se estão tão impressionados como eu.

Discriminação racial!!! Somente porque eles possuem a pele morena e eu branca serei barrada ao tentar entrar como uma indiana... chegamos a cogitar a hipótese de comprarmos uma roupa de muçulmanas para nos tapar e tentar entrar desapercebidas, mas ficamos sabendo que duas meninas tentaram fazer isso no ano passado e quase foram presas!

Minha raiva e indignação foram tamanha que acabei por sentir um pouco de raiva do monumento, mais ainda, da cidade de Agra, que é uma cidade pobre, suja e bagunçada que vive em torno de uma beleza que beira o irreal.

Amenizada a revolta, sim porque ela não vai passar nunca, encontramos um atalho que nos leva ao outro lado do rio de onde conseguimos ter uma visão lateral do Taj.

Que beleza!! Nunca havia visto algo tão perfeito e lindo. Usamos nossa câmera de vídeo, que é conhecida por ter um dos melhores zooms do mercado para ver os detalhes do mármore esculpido e pintado de maneira tão perfeita e bela que só vendo pra conseguir saber o que é. E mesmo assim eu ainda não consegui ver tudo.

VÍDEO: Vendo o Taj com a câmera de vídeo ( Vendo o TAJ .MPG )

E o pior é que não sei se conseguirei o ver novamente porque cientistas provaram que o monumento está fadado à extinção em algumas centenas de anos por causa das indústrias poluidoras que estão instaladas há menos de 50km do Taj e que soltam uma substância de súlfur que está corroendo o mármore do monumento.

Alguém pode entender essa cidade???? Eles tem o monumento mais lindo de todo o país se não do mundo, espantam e geram indignação aos estrangeiros com tal discriminação e ainda permitem que uma indústria cause danos irreparáveis ao que têm de mais precioso!!!

Vou parar de escrever se não vou assustá-los com minha raiva!

Voltamos desoladas para o escritório de trem.





Nova Deli, Sábado, 18/10 – Dia de lavar a roupa suja.

Passamos o dia caminhando pelo bairro de Green Park onde estamos procurando alguém que pudesse lavar nossas roupas imundas (eram muitas). Não encontramos aquelas lavanderias onde poderíamos pagar para utilizar as máquinas, pois elas não existem aqui e então tivemos que encontrar uma lavadeira. Elas ficam nas calçadas passando roupas em tendas mal montadas passando roupas com aqueles ferros pesados que nossas bisavós usavam movidos a carvão.

Então deixamos as trouxinhas com eles e voltaríamos para pegar na segunda.





Nova Deli, Sexta-feira, 17/10 – Reunião e Embaixada de Bangladehs.

No-portal-de.jpg Acordamos cedo e fomos direto para a Embaixada de Bangladesh tirar nossos vistos para o país. De volta à burocracia! Havíamos esquecido o que era isso... depois de duas horas preenchendo formulários e explicando o motivo de nossa visita, deveríamos buscar os passaportes na segunda-feira.

Dali seguimos para o escritório da Unesco para conhecer a sede e seus trabalhos.

Ficamos sabendo de um concerto gratuito de música clássica indiana que haveria hoje nos gramados do Portal de Deli e para lá rumamos sem pensar duas vezes.





Nova Deli, Quinta-feira, 16/10 – Surpresa ao conhecer a Capital.

Pela primeira vez em todos esses 45 dias de Índia chegamos mais perto do ocidente do que nunca. Deli é uma grande capital e andar por suas ruas é como caminhar pelas ruas de Brasília. As largas avenidas, os palácios oponentes do governo e as suntuosas embaixadas dão um ar de ocidente ao local. Realmente foi a mais, senão a única cidade que conhecemos que nos fez sentir um pouco mais perto da nossa própria cultura. O ar de negócios, os Mc Donald’s e Pizzas Huts que estão em toda parte, os homens engravatados e o inglês que ouvimos com mais freqüência me deu um susto quando aqui cheguei.

Pela primeira vez não vejo lixo nas calçadas das grandes avenidas, mas também não vejo latas de lixo. É a primeira vez que também vejo um local onde a pobreza não é aparente. Obviamente que ela existe, e em abundância como em qualquer outra cidade indiana, mas não a vemos, por exemplo, na região das embaixadas e do palácio do governo, cuja entrada é marcada pelo grande Portal de Deli, que de longe se assemelha demais ao Arco do Triunfo de Paris.

Comendo-Riso.jpg Fomos visitar a Embaixada Brasileira e surpresa: recebidas com Risoles de frango dados pelo marido da Embaixadora!! Que delícia!! Falar português e comer Risoles! Conversamos com a Conselheira Giuliana, uma diplomata paulista jovem e muito simpática que nos recebeu com todo carinho.

Conseguimos uma conexão na Embaixada onde Renata ficou trabalhando enquanto eu fui tentar resolver nosso maior problema: para onde ir???

Fiquei o dia tentando todos os nossos contatos para conseguir uma hospedagem barata, pois fomos literalmente expulsas do Albergue por falta de vaga e por não conhecermos ninguém nessa imensa cidade, nos sentimos deslocadas e sem saber para onde ir. Que sentimento ruim!

Foi então que liguei para nossa querida família de Mumbai (Gueera e Madhav) para pedir socorro! Madhav nos deu o telefone de um amigo chamado Anil que mora em Deli e que poderia nos ajudar. Anil nos convidou para nos hospedarmos em sua casa, mas ele morava há 25 km da cidade, o que nos faria gastar fortunas de transporte. Então, nos indicou outro amigo chamado Ajay que poderia nos ajudar a encontrar uma Guest House barata na cidade. Fui até seu escritório.

Conversamos por umas duas horas tentando alguns locais até que chega sua esposa – Niharika – e finalmente resolve toda a situação. Disse que gostaria de nos hospedar em sua casa, mas estava em obras e por isso, se não nos importássemos poderíamos ficar em uma saleta vazia no próprio escritório.
Então cá estamos! Em uma sala abandonada de um escritório no meio de um dos melhores bairros de Deli.

Depois de dormir em casas de família, hotéis de estrada, ao relento no deserto, em trens, ônibus, carros e pousadinhas, agora estamos dormindo em um escritório. O que mais falta?





Nova Deli, Quarta-feira, 15/10 – Finalmente estamos na capital do país.

Depois de 21 horas cruzando o deserto chegamos em Deli cobertas de poeira e com as roupas totalmente imundas. Parecia que havíamos saído da Guerra. Como nosso vagão não tinha ar-condicionado por causa do preço, as janelas ficam abertas e a areia do deserto entra toda formando uma nuvem de poeira o que dificulta a respiração e até mesmo abrir os olhos.

Tentando-dor.jpg Tive que ficar o tempo todo da viagem com um lenço tapando a cara para conseguir respirar e tentar dormir.

Fomos para o Albergue da Juventude que fica em uma área central perto das embaixadas, mas estava lotado e somente poderíamos ficar por uma noite. Foi o que fizemos.

À noite passamos pelo centro da cidade.





Jaisalmer - Deli, Terça-feira, 14/10 – locomoções intermináveis.

Dever cumprido, lá fomos nós rumar para a capital do país: Nova Deli onde teríamos diversas reuniões e visitas aos parceiros do projeto.

Pegamos um trem ás 15h que por incrível que pareça estava com pouquíssimos passageiros. É a primeira vez que vejo isso aqui!





Jaisalmer, Segunda-feira, 13/10 – Dores no corpo e mais quebrada que nunca.

Acordamos muito cedo e continuamos nossa jornada pelo deserto passando por outras vilas isoladas, obviamente, montadas em nossos camelos.

Todo meu corpo, principalmente nádegas e coluna doíam sem parar. Mas assim mesmo passamos o dia em camelos.

Fiquei muito impressionada com como aquelas pessoas que vivem no meio do nada conseguem sobreviver de um modo sedentário sem gozar de nenhum tipo de recurso como energia elétrica ou gás. A água é levada por caminhões pipas e armazenadas em poços. Outras comunidades tiram água do subsolo. Mas o mais incrível é que vivem basicamente de plantações de melancia! Dá pra acreditar nisso? Por todo o percurso vemos as frutas crescerem no chão.

Depois de mais quatro horas nos camelos chegamos de volta a Jaisalmer, onde deitamos na cama do hotel com todos os músculos do corpo doendo e cheias daquelas bolinhas de espinhos que saem de plantas rasteiras que estão em todos os lugares.

O clima é extremamente seco o que dificulta a respiração e estamos sempre com uma sede interminável.





Jaisalmer, Domingo, 12/10 – Montadas em camelos desbravamos o deserto.

Mal podia esperar para ter a minha primeira experiência num deserto. Junto com Alejandro e um guia da cidade passamos o dia montadas em nossos camelos (cada um tinha o seu) percorrendo a aridez de um território conhecido como Deserto do Thar. A paisagem não era de dunas intermináveis, mas uma terra mais parecida com a Savana africana. Nenhum sinal de civilização a não ser as pequeninas vilas formadas na maioria das vezes de apenas 10 casebres que visitávamos no meio do caminho.

Paramos para descansar à sombra de uma árvore onde comemos algo e seguimos viagem até uma das poucas dunas onde passaríamos à noite.

eu-e-meu-cam.jpg Foram ao todo 4 horas montadas no camelo. O meu se chamava Magôo e não me obedecia de jeito nenhum! Para descermos o animal deve se agachar e somente o faz se ouvir o comando: “Jeb, Magôo, Jeb!”, mas ele nem me dava ouvidos e eu era sempre a última a descer do camelo.

Eu com um turbante vermelho na cabeça, de óculos escuros e com outro lenço para tapar o sol escaldante do rosto, estava mais parecendo um terrorista do deserto!
Vejam o vídeo no diário da Renata neste mesmo dia chamado DESERTO.

caminhada,-a.jpg Em meio à savana havia algumas dunas. Foi lá onde vimos o pôr do sol e dormimos. A lua estava cheia e por isso todo o deserto foi iluminado de um prateado que ficará marcado em minha mente para sempre.

De dentro da areia saíam uns besouros pretos de repente que passavam por nossos pés. Como dormir com isso? Mas, depois daquela visão, nada poderia me abalar.

Dormimos embolados em sacos de dormir e mantas trazidas pelo guia. O uivo do vento, a luz da lua e uma boa conversa fecharam o dia com chave de ouro.





Jaisalmer, Sábado, 11/10 – Chegamos no deserto.

Havíamos planejado ir até essa cidade encantadora que está localizada na ponta oeste do norte da Índia há apenas duas horas da conturbada fronteira com o Paquistão. O motivo de nosso interesse é porque dali conseguiríamos entrar no deserto do Thar para conhecer um pouco sobre o modo de vida das minúsculas comunidades que habitam o deserto. Como vivem em meio a tanta seca?

Em todas as nossas visitas a projetos sociais realizamos relatórios também sobre as comunidades das redondezas. Comunidades em montanhas isoladas, em áreas urbanas e rurais já foram nossos focos, e agora para completar, fomos buscar aquelas que vivem no deserto.

Jaisalmer é uma das cidades mais diferentes e belas que já conheci. Diferente porque fica dentro de um forte construído com pedras de um barro marrom alaranjado que iluminado pelo pôr do sol parece ser totalmente dourado. Não é à toa que é chamada de a Cidade Dourada.

Em-frente-ao.jpg O forte foi construído nos tempos medievais no local famoso por ser uma das maiores rotas comerciais de camelos que traziam mercadorias da Ásia Central.

O crescimento dos portos marítimos de Mumbay para entrada das mercadorias dessa região assim como o corte da rota que vinha do Paquistão e a fraca distribuição de água para a cidade, quase fadaram Jaisalmer ao desaparecimento. No entanto as Guerras indo-paquistanesas entre os anos de 1965 e 1971 novamente levantaram a importância estratégica da região, o que levou vida ao deserto. Estradas e uma rota de trem passaram a ligar Jaisalmer ao resto do estado de Radjastan.

Situada em uma área militarizada, os soldados do exército indianos estão por todos os cantos, mas o turismo crescente tende a se tornar a maior atividade econômica do local, ultrapassando o militarismo.

Realices-no-.jpg Dentro do forte dourado vivem aproximadamente três mil pessoas, mas a população cresceu para fora dele e atualmente 39 mil pessoas vivem na cidade.

As ruelas, o piso de pedras, as casas espremidas, o cheiro de insenso e as diversas lojinhas de artesanato e roupas dão ao local um ar extremamente exótico e nos faz sentir de volta à época do império romano.

Passando por quase todas as regiões do país e terminando nossa jornada no norte quero aqui fazer uma lista dos animais que vemos aos montes nas estradas e nas cidades em ordem de freqüência e quantidade. Na Índia os animais andam abandonados pelas ruas e outros são domesticados para carregar as mais pesadas cargas. Vamos à lista:

Animais que encontramos em todas as regiões:
1. Vacas – vivem como cachorros vira-lata. Estão em todos os lugares e comem os lixos das ruas;
2. Cachorros;
3. Corvos - são os urubus da Índia.
4. Cabras;
5. Macacos – daqueles grandes com pêlo cor de creme e nádegas vermelhas.

Animais que encontramos somente no norte:
Todos os acima e mais:
1. Camelos – que puxam carroças abarrotadas de sacas de trigo e palha e disputam lugares com os carros nas ruas da cidade;
2. Elefantes – também usados como animal de carga;
3. Burros;
4. Cavalos;
5. Ursos pretos – mal pude acreditar quando os avistei encoleirados sendo carregados por seus donos. Realmente não sei para quê são usados.

Bem, estamos ficando em um hotelzinho dentro do forte chamado Desert Boys. Foi onde conhecemos o Alejandro, um simpático colombiano que está realizando pesquisas para uma Universidade holandesa sobre auto-sustentabilidade de comunidades isoladas. Como ele visitaria comunidades do deserto no dia seguinte, exatamente o que viemos fazer, decidimos pegar carona.





Desnoch, Sexta-feira, 10/10 – Ratos, ratos e mais ratos.

Você consegue se imaginar rezando e adorando um rato? Por é isso que os moradores de Desnoch, um pequeno município situado à 30km de Bikaner, a maior cidade das redondezas, fazem quando vão visitar este local, o TEMPLO DA DEUSA KARNI MATA.

Não vou aqui contar a história da Deusa que está na matéria, a qual vale muito a pena ler. Vou sim, relatar a sensação de ter ratos cinzas passando por cima de nossos pés e ver pessoas rezando das maneiras mais estranhas para esses animais.

Ao entrar na primeira sala do templo ainda não os vemos. Um pouco mais adiante, lá estão eles, correndo de uma lado para o outro, entrando nos diversos buracos feitos para eles nas paredes e se debruçando nas bacias de leite postas para alimentá-los.

O cheiro é sufocante, um misto de mofo com fezes de rato e poeira. Alguns animais possuem a pele tomada por feridas abertas e ficam se debatendo uns aos outros em brincadeiras. Detalhe, não podemos entrar de sapatos, os quais devem ficar na porta do templo. Descalças seria impossível conseguirmos entrar, então ficamos de meias, as quais depois dali foram direto para o lixo!

Parada na fila, muitas eram as vezes que tive que pular, contendo um grito, para que os ratos pudessem passar por debaixo de meus pés e não por cima deles.

Os indianos da região, onde morreu a Deusa, se confundem com as histórias sobre o templo. Nos disseram que passaram a criar e adorar os ratos porque o filho da Deusa foi encontrado morto em uma das colinas da região e seu corpo estava coberto dos animais que o protegiam. No entanto, todas as pessoas perguntadas nos davam histórias diferentes.

A primeira sensação é de nojo profundo, mas depois acabamos nos acostumando com o ambiente e nos sentimos seguras até mesmo para tocar nos bichinhos.

Disseram que havia ali dentro uns 200 mil animais, mas a quantidade realmente não parecia ser tão elevada. Eu diria uns 30 mil talvez. Acreditam que sempre que morre alguém da região, seu espírito nasce em um rato dentro do templo. O mais impressionante é que nenhum rato dali jamais passou dos muros do local e que a procriação e mortalidade deles é bastante peculiar, pois durante anos a população não muda.

Muito-perto-.jpg Parem para pensar: por anos vivendo ali com uma alimentação diária e contando com o fato que é proibido matá-los, o templo deveria ser tão cheio de ratos que brotariam por todas as paredes. Mas não. Tudo é tão estranho que a população se mantém a mesma. Vai entender...

Ficamos ali, tentando convencer a administração do templo a deixar-nos filmar por um preço razoável e quando conseguimos, tínhamos apenas 40 minutos para fazer todas as imagens.

Depois de 4 horas em meio aos ratinhos, almoçamos em uma birosca ao lado do templo para seguirmos viagem.

Mais 7 horas de estrada e chegamos quase uma da manhã em Jaisalmer. Nosso destino final onde encontramos um hotelzinho barato chamado Titanic para passar à noite.





Jaipur - Desnoch, Quinta-feira, 09/10 – Pé na estrada.

Depois de muito planejamento e pesquisas encontramos uma maneira de ir até Desnoch, uma pequena cidade mais ao norte onde se encontra um templo totalmente diferente de tudo o que eu podia imaginar que existiria neste mundo.

Realices-e-m.jpg Por isso, não poderíamos deixar de ir até lá e conferir essa estranheza. Alugamos um carro visto que não é um destino muito comum e foi então a única maneira que encontramos de lá chegar. Passamos o dia viajando. A estrada passa em meio ao deserto que cobre parte do norte do país. Era boa e estava tranqüila. Foi uma das primeiras vezes que em um transporte rodoviário não precisei rezar para pedir sobrevivência!

Dormimos em um hotelzinho em Bikaner para visitar o templo no dia seguinte.





Jaipur, Quarta-feira, 08/10 – Mais trabalho.

Passamos mais de três horas no correio da cidade tentando enviar material para o Brasil. Tudo parece ser uma bagunça. As pessoas pouco se entendem e os clientes se empurram no balcão tentando formar uma fila desengonçada.

Aliás, as filas são algo que vale a pena comentar. Talvez pela quantidade imensa de pessoas que aqui habitam, o tempo se torna uma medida abstrata, pois ele tem que ser estendido para que possa dar conta de todos os afazeres de tanta gente.

Nas filas das lojas de serviços como correios, bancos populares e os banheiros se você não ficar absolutamente concentrado e fincar os pés no chão garantindo seu lugar, mostrando que a próxima a entrar será você, todos passam na sua frente sem ao menos olhar ou perguntar se estamos na fila. No começo era toda hora passada pra trás, agora que aprendi o macete, duvido alguém passar na minha frente na fila!

Depois disso rodamos uns três Cybers da cidade tentando encontrar uma linha telefônica para conectar nossos computadores e enviar a atualização do site. Encontrado esse oásis, lá ficamos por mais umas 4 horas.

Voltamos pro hotel tarde da noite pra finalmente colocar as pernas para o ar.





Jaipur, Terça-feira, 07/10 – Visitas e reflexão.

Alice-fingin.jpg Tiramos o dia para passear pela cidade com nosso motorista de Auto-rickshaw, o Dinish, e conhecer algumas das construções antigas de Jaipur. Visitamos o Amber Palace e outros monumentos.

O Estado de Radjastan ao norte do país é considerado a terra dos monarcas e príncipes e das guerras territoriais travadas entre os mongóis e os Rajputs (povo que habitava a região). Os palácios, os fortes e as numerosas lendas dão um ar de romantismo e antiguidade à cidade.

Amber-Palace.jpg O Palácio Amber, por exemplo, foi construído para receber a família do poderoso imperador Rajput Raj Man Singh da maneira mais luxuosa. Um Forte capaz de garantir a segurança de sua família contra as invasões mongóis. Depois disso construiu com a ajuda de arquitetos toda a cidade de Jaipur.

As histórias dos Reis e Rainhas, casamentos arranjados e arquitetura detalhada são inúmeras, mas o ambiente turístico e a pobreza que se mostra nos inúmeros pedintes que encontramos a cada metro andado, acabam por nos tirar a capacidade de viajar mentalmente para aquela época e tentar entender melhor o porque de cada detalhe nas paredes.

Não há um só segundo ou um só lugar no qual não vemos a pobreza. A única maneira de fugir dela é se armazenar em um hotel cinco estrelas e dele não sair, nem pôr os pés nas ruas. Não é como no Brasil que em determinados lugares não a vemos. Mesmo assim, a cultura, as vestimentas diferentes, os diversos animais nas ruas assim como os transportes mais esquisitos fazem da Índia um país de um colorido peculiar.





Jaipur, Segunda, 06/10 – Trabalho.

Não preciso nem dizer... passamos o dia inteiro dentro do quarto da pousada com os laptops no colo, nas posições mais desajeitadas escrevendo, escrevendo e escrevendo para amanhã ir a um Cyber café e iniciar mais horas á fio tentando passar os emails para atualização do site. Sem dúvida nosso trabalho renderia muito mais se possuíssemos uma infra-estrutura melhor, ou seja, se pudéssemos pagar por ela. Mas não reclamamos. Todo lado ruim tem seu lado bom. Estamos aprendemos a viver no limite, depois disso, tudo será fácil. Bem isso é o que eu espero!





Jaipur, Domingo, 05/10 – Novamente sós.

Alice-no-pal.jpg Chegamos às 13h em Jaipur como se estivéssemos chegado de uma guerra. Nossas mochilas estavam totalmente marrons de poeira assim como nossas roupas e corpos.

Jaipur é uma das famosas cidades turísticas da Índia. Começa a partir de hoje nossa temporada pelo Norte do país. Conseguimos, através do motorista do Autorickshaw ser levadas á uma pousadinha simples, mas que está nos custando R$12 por um quarto com duas camas e banheiro por dia. Fomos caminhar pela cidade após um bom banho e um delicioso e raro almoço no MC DONALD’S!!! Nunca gostei tanto de Mc Donald’s na minha vida!

Nem mesmo em uma cidade turística as pessoas deixam de nos encarar e ficar dizendo “hello” por qualquer lugar que passamos! Ás vezes isso me deixa um pouco irritada pois é impossível caminhar pelas ruas tranqüilamente sem ser notada.

Mil-e-Uma-no.jpg Jaipur é uma cidade indiana como qualquer outra, com as mesmas características. No entanto, estamos mais perto do deserto, o clima é extremamente seco, sinto a boca e a pele seca o tempo inteiro. A paisagem das ruas nos dá a sensação de estarmos dentro do filme Mil e Uma Noites. As construções rosadas e os mercados intermináveis debaixo das pilastras mal conservadas, assim como as vacas, os transportes de bicicleta (com aqueles homens que carregam turistas na cabinezinha de trás), os diversos macacos (alguns são enormes) que brincam e se debatem em cima dos telhados assim como os elefantes que vemos de vez em quando e as sedas e bugingangas expostas, dão a sensação de estarmos de volta ao Império Romano.





Indore, Sábado, 04/10 – Despedida e mais estrada.

Re,-alice,-A.jpg Os Tios da Dita de Indore foram como todos os indianos são com a gente, extremamente receptivos, fofos e amorosos. Novamente nos despedimos e fomos para um local no meio da rua esperar o ônibus que chegou com duas horas e meia de atraso... Ai a Índia...

Nos deitamos em nossa cabinezinha de dormir, rezamos e fomos quicando durante as 17 horas de viagem até Jaipur. As estradas aqui são realmente precárias e esburacadas. Estamos chegando a conclusão que o mais seguro mesmo é viajar de trem, mas comprar os bilhetes é um processo tão complicado que nos contentamos com o ônibus mesmo. Temos que reservar com no mínimo três dias de antecedência, entrar na fila pra reservar, esperar um dia pra ver se vai ter lugar, voltar e entrar na fila pra comprar o bilhete. Ninguém sabe de nada nas estações que estão sempre lotadas e não duvido nada sermos por engano e falta de informações colocadas em um trem para o Paquistão!





Indore, Sexta-feira, 03/10 – Encontros tranqüilos.

Alice-e-Dita.jpg Finalmente conhecemos a Dita, uma indiana que mora nos EUA desde os 10 anos de idade e que foi a responsável por ter nos proporcionado momentos inesquecíveis com nossas queridas famílias de Mumbai de quem temos tanta saudade.

Ficamos em um hotelzinho na cidade pois chegamos ás 7h da manhã e não queríamos incomodar tão cedo.

Apenas ficamos com ela durante o dia passeando e contando nossas histórias.

Com-neném-no.jpg Á noite seu tio nos levou para assistir á uma homenagem á Deusa Durga (o mesmo festival de 10 dias do Deus Ganesh acontece com a Deusa Durga cuja imagem é uma mulher de seis braços conhecida por sua força e coragem). No local, umas praças públicas, estavam sendo realizadas, danças típicas e homenagens à Deusa. Como Indore não é uma cidade turística, raramente o povo encontra pessoas diferentes. Sendo assim, nossa presença causou o maior reboliço nas festividades. Uma menina que dançava na roda parou para nos olhar e a outra de trás quase a atropelou. Ao nos ver o mestre de cerimônia anunciou no microfone a presença das brasileiras nos dando as boas vindas. Pousamos para fotos e ganhamos frutas e muitos apertos de mão.

As crianças que participavam da dança estavam todas enfeitadas e eu com minha paixão por elas, não pude deixar de tirar uma foto com esse neném todo fantasiado, que nem me deu bola.





Nagpur, Quinta-feira, 02/10 – Aniversário do Pai da Nação.

Homenageando.jpg Hoje foi um grande feriado nacional. Dia em que comemoram o aniversário do grande Pai da Nação indiana Mahatma Gandhi. É certamente uma honra estar na Índia neste dia. Por toda a cidade vemos as estátuas de Gandhi cobertas de colares de flores e incenso. Houve festividades em todo o país e eu parei na sala para escutar algumas histórias daquela época contadas pela esperta jovem Ria.

A HISTÓRIA DE BHAGAT SINGH
Na escola aprendemos a emocionante história da independência dos indianos liderada por Gandhi, no entanto outras histórias, como a que vou lhes contar agora, não chegam ao nosso conhecimento.

Na época dos movimentos a favor da saída dos ingleses do território indiano, em um lado oposto da luta de Gandhi estava Bhagat, quem acreditava que não poderia haver independência sem luta e derramamento de sangue, ao contrário de Gandhi.

Conta a lenda que em uma das rebeliões que liderou, Bhagat foi preso com seus correligionários em uma cadeira inglesa. Nela sofreu os maus tratos dados a todos os revolucionários do mundo, sendo servido de água da privada e comida já mastigada pelos ratos. Em um momento de indignação, Bhagat decretou greve de fome até ser tratado como os presos ingleses (que desfrutavam de todas as regalias dignas do povo “branco”).

Durante 43 dias Bhagat não ingeriu sequer um pão assim como seus companheiros presos. Um dia os guardas ofereceram para um dos amigos de Bhagat uma tigela de leite fresco cuja ingestão por ele, faminto, poria fim á greve de fome que já rodava o país causando a revolta mais intensa dos adeptos da causa de Bhagat. Nesse momento, o companheiro já há 43 dias sem comer, que havia ingerido durante todo esse tempo apenas pimenta em pó para perder a fome, na iminência de beber todo o leite parou com a tigela frente á sua boca hesitando. Sabendo que se bebesse poria fim á greve, deixou cair a tigela e logo após desfaleceu no chão. Morreu instantaneamente por uma causa nacional.

Dias após, Bhagat foi enforcado pelos ingleses sem que o povo soubesse. Seu corpo foi queimado também no anonimato. Anos depois, os ingleses foram expulsos do país levando daqui muitas riquezas e deixando uma herança de grandes infra-estruturas no campo dos transportes (as linhas de trens), algumas construções e uma pobreza que hoje beira os 40% da população. Nós brasileiros sabemos o que é ter sido colonizado por europeus no passado e por isso nos sentimos tão solidários ao dia de hoje.

A MAIOR SURPRESA QUE TIVEMOS ATÉ HOJE!
Cultura á parte, voltamos á vida atual.

Fomos levadas á uma visita rápida a um projeto de desenvolvimento rural de uma outra instituição da Igreja da cidade. Depois disso, fomos direto para o prédio da Organização Shramdeep conhecer os centros de treinamento e participar de uma solenidade da cultura indiana. Bem era isso que pensávamos que iríamos encontrar.

Faixa-de-boa.jpg No entanto, quando entramos no salão cheio de jovens e convidados sentados no chão e em cadeiras e olhamos para a parede nos deparamos com esta faixa: BEM VINDAS ALICE E RENATA!

As solenidades estavam apenas começando. Fomos convidadas para sentar à mesa armada em cima do palco junto com o conselho da Organização. Recebemos flores, agradecimentos por estarmos ali, nossa história foi explicada a todos e ainda fomos agraciadas com shows de danças típicas de várias regiões indianas. No final tivemos que escolher o casal mais ornamentado do desfile de roupas típicas. Tudo isso pra gente!!!!

Eu não estava acreditando no que estava acontecendo... fiquei meio tonta, sem saber o que fazer e como agir... fomos homenageadas na Índia pela nossa ação! Isso é emoção demais pra um só coração.

Aquilo ascendeu em mim diversos sentimentos conturbadores que vieram á tona em alguns minutos. Uma mistura de força, com revolta, com vontade de abraçar e beijar todo aquele povo, com tristeza e sensação de estar no caminho certo.

RETROSPECTIVA SENTIMENTAL DO MÊS QUE SE PASSOU
Hoje faz um mês que deixamos as Brasil cheias de esperanças e com uma grande força de vontade e entusiasmo que não cabiam dentro de nossos corpos. Em nosso caminho já conhecemos muitas idéias potenciais e experimentamos as mais diferentes sensações: saudade (essa dói demais algumas horas), desilusão e ilusão, cansaço, alegria, vontade de desistir e vontade de seguir em frente com toda a força. Esse foi um mês de adaptações á nossa nova vida nômade, tempo de saber lidar com as abdicações e com o pouco que trouxemos em nossas mochilas. Algumas vezes nos perguntamos por que não estamos no Brasil, vivendo uma rotina comum de trabalho, comendo e dormindo bem todas as noites, sabendo o que vamos encontrar no dia seguinte, ao lado da família e dos amigos. Mas ver todas essas iniciativas e saber o que poderíamos modificar em nosso país com essas simples idéias me consolam na hora da fome, de dormir no chão ou de acordar e saber que estou há um oceano de distância da minha casa.

O simples fato de estar aqui, mesmo não tendo tido todo o suporte financeiro que precisávamos para realizar com mais tranqüilidade todo o projeto, já é por si a realização de um grande sonho que me custou muito suor e abdicações. Por isso me sinto feliz, por isso tenho vontade de gritar, de divulgar nossa iniciativa, de mostrar para TODO O MUNDO, o que temos visto e o como o intercambio entre idéias pode ajudar tantas pessoas que sofrem.

Á noite quando temos tempo eu e Renata ficamos conversando horas á fio sobre nossas experiências, lembrando os melhores momentos e é claro falando do Brasil. Irmãos, casa, família o cotidiano que deixamos lá. Imergidas nessas conversas e lembranças acabamos esquecendo onde estamos e ao lembrar, imediatamente sentimos uma pontada no peito.

Bem, chega de sentimentalismos! Voltemos ao trabalho!

Ás 17h30 nos despedimos da maravilhosa família do Sunil e fomos pegar nosso ônibus para Indore, uma cidade ao norte onde ficaríamos por apenas um dia pra encontrar a Dita, aquela amiga indiana que nos fez conhecer sua família de Mumbai e Pune onde ficamos hospedadas.

DENTRO DO ÔNIBUS SENTEI E CHOREI
Mais uma vez achei que fosse morrer.
O motorista maníaco (vou começar substituir a palavra motorista por maníaco) quase bateu de frente com um caminhão enorme. As luzes e buzinas que passavam como um relâmpago em nossa janela me fez sentir mais que medo, pânico.

Sentei quietinha no banco de trás, me encolhi e chorei de desespero, imaginando as piores situações e já meio que me despedindo da minha família mentalmente. Deus me livre!!!!! Que sentimento ruim!!!!

Mas aqui estou eu, meus amigos, vivinha! Estou falando que Deus está comigo!





Nagpur, Quarta-feira, 01/10 – Mais trabalho e a volta.

De manhã terminamos de gravar em outra comunidade e pegamos a infernal estrada de volta para Nagpur.

QUE SUSTO!!!
Mais uma vez não tenho como deixar de falar do trânsito. Que loucura. Os carros não andam em suas devidas faixas, simplesmente se desviam um do outro quando estão quase batendo de frente.

A cada ultrapassagem eu fecho os olhos e rezo. Não dá pra ficar olhando pela janela, a melhor saída é dormir, mas tentar dormir profundamente, pois cada abrir de olhos é um susto!

Não sei como ainda não vi nenhum acidente nas estradas, mas hoje percebi que isso é possível de acontecer. O teimoso do nosso motorista, maníaco pra variar, adora uma emoção e é sempre o último a desviar dos carros, mantendo-se no meio da pista até o outro desviar em cima da hora. Dessa vez o outro não desviou e eu fui acordada com o barulho do retrovisor do motorista se estraçalhando. Os cacos de vidro foram todos para cima de mim e da Renata. Tomamos um susto danado, mas felizmente ninguém se machucou.

Mais rezas... Deus já deve estar cansado de me ouvir pedindo sempre a mesma coisa: deixa eu sobreviver á mais essa viagem!

Enfim, sobrevivemos.

Aliás Deus... Ele sim está sempre com a gente. Eu nunca fui muito religiosa para a tristeza da minha Avó. Mas depois de viver um ano em um país budista e conhecer essa religião passei a misturar ensinamentos budistas com os católicos e criei uma religião minha. Nunca fui muito de ir a Missas, mas aqui tenho sentido a presença constante de algo superior que sabe muito bem a hora de tirar e de recompensar.

Sempre depois de dias de trabalho exaustivo temos uma surpresa que vem em forma de um bom dia de descanso, de uma boa conversa ou de uma boa refeição. À noite fomos convidadas para jantar por um grande amigo do Sunil e sua esposa, o Hashish (aliás que nome! Imagine a cena: “Qual o seu nome? – Ah, meu nome é Maconha! – coisa esquisita...). Mas bem, o Hashish é um jovem muito simpático (absolutamente sóbrio, para aqueles que nesse momento possam vir a pensar diferente!) que foi o responsável pela instalação dos computadores no ônibus assim como todas as técnicas utilizadas para que o sistema funcionasse. Fomos jantar em um Hotel muito chique. A comida estava absolutamente deliciosa e a conversa foi extremamente agradável e marcada por um momento em que eu e Renata quase morremos de tanto rir:

A ERVA BHANG
Quando chegamos no país ouvimos falar de uma erva alucinógena produzida aqui, cujo consumo é legal, que causa efeitos um tanto quanto engraçados e diferentes de tudo que já escutei falar. O chá da erva provoca a intensificação dos sentimentos da seguinte maneira: se a pessoa está triste, ficará ainda mais triste se tomar a droga, se está rindo, não conseguirá parar de rir. O estado de espírito é fortalecido e intensificado. Sunil é um indiano simples e irreverente e nos contou que um dia estava no escritório trabalhando, quando chegou um amigo oferecendo um doce diferente e insistindo para que ele provasse. Para não fazer desfeita comeu todo o doce sem hesitar.

Lentamente, sem saber que dentro do doce havia um caldo da erva Bhang, começou a sentir que o mundo estava rodando sem parar ao ponto de ter que se segurar na cadeira para não cair. Ficou agarrado olhando para o nada durante horas tentando controlar o mundo que não parava de rodar. Teve que ser carregado para casa e lá ficar até o efeito passar sem conseguir se mover. Se ficasse em pé caía. O outro amigo começou a brincar com os dedos das mãos e não parou mais, teve dores nos braços no dia seguinte. Vocês não imaginam o como rimos com Sunil fazendo caras e bocas contando essa história...

Após dias de extremo cansaço, discussões e apreensões, nada melhor do que uma noite como essas para recomeçar com energias renovadas! Mais uma vez, Ele está olhando por nós!





Nagpur, Terça-feira, 30/09 – Intenso Trabalho.

Finalmente conhecemos o tão esperado ônibus chamado MOBILE COMPUTER LITERACY DRIVE, o qual traduzimos para UNIDADE MÓVEL DE EDUCAÇÃO DIGITAL.

VÍDEO: Apresentação do projeto do ônibus ( apresentaçào.MPG )
Ficamos encantadas com o projeto e impressionada com a organização do ônibus e sua limpeza. O acompanhamos em visita a 3 vilas diferentes. Algumas delas nem energia elétrica possuíam e muitos alunos nunca tinham visto um computador antes. Após participarem do curso parece que conhecem um outro mundo.

Não sei como o ônibus nunca quebrou seriamente ou ficou atolado na estrada, pois entra em cada buraco difícil de imaginar. Filmamos tudo e catalogamos cada palavra dita.

Todo o relatório da visita e a matéria sobre o projeto já devem estar no site. Vale a pena ler!

O que mais tem me impressionado aqui é a maneira como estamos sendo recebidas. Há dois meses venho agendando essa visita com o Sunil, mas quando chegamos toda uma agenda de eventos e visitas foi especialmente preparada para a gente. Estamos sendo recebidas com as honras de um grande financiador ou do Primeiro Ministro do País! Para onde vamos, nos acompanham o Sunil, o chefe da maior comunidade, o Padre da Igreja local quem ajuda no contato com as vilas, o motorista, o líder de outra comunidade e assim vai.

Estou me sentindo muito importante aqui!!! Incrível! O Sunil é uma pessoa extremamente interessada em conhecer projetos desenvolvidos em outros países do mundo e no intercambio social. Por isso gostou tanto da idéia do nosso projeto.





Nagpur, Segunda-feira, 29/09 – Dia de conhecimentos.

Renata está com uma febre muito alta que não passa. Hoje o dia foi de intenso trabalho e ela, teimosa, não quis descansar. Estou preocupada, mas sei que é só devido ao estresse e cansaço... Nada demais.

Antes de partir para a vila onde está o ônibus (4 horas de viagem), paramos em um médico para Renata ser examinada, vai que ela pega uma dengue ou malária da vida. Deus me livre!

Ele a sentou em uma mesa na varanda de sua casa, onde milhares de mosquitos vieram direto pra nossa pele e apenas pediu pra ela abrir a boca, examinou sua respiração e receitou um antibiótico recomendando descanso.

O antibiótico foi comprado e tomado direitinho, mas o descanso... ela é durona demais pra obedecer essa ordem. Foi assim mesmo, passando mal e com febre para nossas tantas atividades e eu preocupada olhando o termômetro toda hora.

Então partimos na caminhonete da organização para a vila onde está o ônibus o qual tanto esperamos para finalmente conhecer. Foram 4 horas de uma viagem interminável. O calor estava insuportável e estrada mais precária que nunca.

Ao chegar, apenas paramos para descansar um pouco na Guest House (dormitório) da Igreja – instituição à qual pertence a organização Shramdeep que criou o ônibus. Depois fomos direto enfrentar mais duas horas de chão até uma tribo da região que estava nos esperando para uma recepção.

MAIS SURPRESAS!!!!
A estrada era apenas um pequeno caminho que subia e subia sem parar entrando dentro de uma floresta, que na verdade é uma reserva natural mantida pelo governo para a preservação dos Tigres, no terreno há 92 animais rodando soltos. Pena não termos topado com nenhum pelo caminho, iríamos gostar muito se isso acontecesse. Mal podíamos imaginar o que estava por vir.

Finalmente chegamos no topo de uma das montanhas que cercam a região de florestas onde vive uma pequena comunidade tribal constituída de 200 famílias em casinhas apertadas, construídas de sapé e palha, que sobrevivem da venda de pequenas quantidades de flores e legumes que plantam e das vacas que criam, o ambiente é de extrema pobreza. Não existe saneamento básico e energia elétrica nem pensar.

Nossa chegada foi o acontecimento do ano! Nos receberam calorosamente com uma dança típica com direito a discurso e tudo! Mal podíamos acreditar naquilo.

Realmente a pobreza em qualquer lugar possui as mesmas faces em ambientes diferentes. A fome que uma criança daquela tribo sente é a mesma que sente um neném que vive em um slum ou em uma favela brasileira. Apenas o nível de pobreza e a maneira como ela é tratada por projetos ou pelo governo é que são diferentes.
Dançamos junto com o grupo de mulheres, filmamos tudo aquilo e Renata foi levada, doente, para vestir o sari (roupa típica) e entrar na dança à caráter. Eu fiquei filmando e rindo de toda aquela situação.

Foi realmente uma experiência incrível. Sempre que visitamos um projeto social, acabamos vivendo e vendo outras situações inesperadas que aparecem como um bônus por estarmos ali.

Exaustas e mortas de fome (havíamos tomado apenas café da manhã) voltamos para a Guest House de onde fomos jantar junto com o bando de pessoas que nos acompanhavam na visita. Uma verdadeira comitiva foi formada para nos acompanhar. Levei comida pra Renata que ficou no quarto descansando .





Nagpur, Domingo, 28/09 – Descanso e trabalho.

Ficamos o dia escrevendo e atualizando nossas pendências. TEMOS UMA LINHA DE TELEFONE E UMA CONEXÃO!!!! Ai que felicidade!!

A família do Sunil é linda e tem nos deixado super á vontade, como se estivéssemos em casa mesmo.

O Sunil é um desses homens inteligentes e simples que adoram uma boa idéia. Adorou nosso projeto e se sente orgulhoso pelo fato de termos escolhido o seu projeto para visitarmos. Quer nos apresentar para todos e até fomos convidadas para sermos juradas em um desfile de roupas típicas que haverá no centro de treinamento em sua instituição nesta quarta!

Estamos nos alimentando bem agora e descansando enquanto podemos, amanhã não se sabe o que poderá nos acontecer...

Esse será nosso último projeto na Índia. na segunda iremos para a comunidade distante onde o ônibus se encontra onde passaremos dois dias realizando a catalogação. Na quarta voltaremos e á noite partiremos para Indore encontrar a amiga que nos colocou em contato com a família de Mumbai.





Nagpur, Sábado, 27/09 – NAGPUR E MAIS TRABALHO.

Chegamos na estação de Nagpur ao meio dia, com uma hora de atraso apenas, onde dois homens de alguma firma de turismo nos esperavam. Nos levaram para a casa do Sunil.

O SUNIL
Após enviar emails para diversas organizações internacionais conheci o Sunil, um indiano que respondeu ao meu email e que tinha um projeto bastante interessante. Colocou alguns computadores dentro de um micro ônibus e saiu pelas comunidades carentes de interior ensinando-as lições básicas de computação, contribuindo para a inclusão digital de algumas regiões.

Conhecendo um pouco sobre o projeto, tratei de agendar do Brasil uma visita. Então cá estamos!

Sunil nos recebeu maravilhosamente bem e nos acomodou em sua casa onde estamos convivendo com seus dois filhos (Kevin e Ria) e sua simpática esposa (Rita). Todos são católicos também e por isso não vegetarianos!!! Viva!!! Carne!!!! Que alegria comer carne novamente!!!

Chegando vimos que Renata estava com febre e muita dor no corpo. Ela foi descansar a tarde toda para ver se melhorava enquanto eu fiquei a vigiando e conversando com Ria e Kevin. Fomos os três de moto (eu dirigi) tomar sorvete na cidade... eles são fofos!

À noite fomos jantar uma comida maravilhosa e voltamos para descansar.

Renata está melhorando. Graças a Deus!





Chennai, Sexta-feira, 26/09 – NOVA SÉRIE DOS TRANSPORTES DA ÍNDIA:

OS TRENS – CAPÍTULO 1

Depois de todo aquele descanso, nossos anjos nos levaram para a estação de trem ás 17h30 de onde rumaríamos para Nagpur e teríamos nossa primeira experiência com os trens da Índia.


Chegando-na-.jpg A Estação era uma torre de babel, muita gente, pra variar, nunca vi tanta gente em todos os lugares como aqui em toda minha vida e não acho que verei novamente. Enormes sacos tipo de batata espalhados pelos cantos da estação, milhares de pessoas, mulheres, homens, crianças de todos os tipos carregando suas malas e se esbarrando em meio á multidão. A estação era como qualquer estação de trem, com a diferença de parecer pertencer ao século XIX.

Entre os trilhos, a sujeira deixada pelos passageiros causava asco. As latrinas dos trens dão direto para os trilhos e por isso vocês podem imaginar o que vi.

Quando o trem chegou, atrasado, tivemos que correr de um lado para o outro procurando o nosso vagão, pois seria um vagão de emergência visto que compramos nosso ticket sem antecedência. Depois de ir e voltar na estação algumas vezes, eu, Re, Emanuel e Daniel, que não nos deixavam carregar nossos mochilões um só minuto, achamos o vagão e entramos...

Alguns beliches abertos ao corredor, eram 3 em cada lado dos compartimentos. Viajaríamos no último de cima e no do meio. Seria suficientemente tranqüilo se não fosse pelo pandemônio que se passava 24h dentro daquele trem. Muita gente, não havia um só lugar vazio. As famílias se acumulavam entre um compartimento e outro armando jornais no chão onde faziam suas refeições; vendedores ambulantes passavam de minuto em minuto gritando suas mercadorias; as conversas eram incessantes.

Depois de 4 horas de atraso, 4 HORAS DE ATRASO!!!! Finalmente o trem partiu. Após um tempo sentadas lendo, fomos para nossas “camas”. Eu consegui dormir bem e acordei apenas no dia seguinte poucas horas antes da chegada, quanto a Renata, coitada, passou a noite em claro preocupada com suas mochilas. Resultado: ficou doente.





Chennai, Quinta-feira, 25/09 - QUASE FOMOS PARAR NA DELEGACIA!!!

Chegando exaustas na rodoviária Renata, como de praxe, acendeu um cigarro e ficou fumando sentada enquanto eu telefonava para nossos anjos Emanuel e Daniel (são católicos, daí os nomes) que deveria estar nos esperando. Quando me viro para falar com ela que havia conseguido ligar, vejo Renata rodeada por dois policiais indianos discutindo.

Não entendendo nada fui perguntar o que se passava e os policiais, que mal falavam inglês, diziam que ela deveria os acompanhar até a delegacia pois devido á lei de Chennai, era terminantemente proibido fumar no terminal rodoviário. Agora como a gente, que nunca pisou ali poderia saber disso é outra história. Não havia sequer uma placa ou aviso em toda rodoviária (que era gigante e muito bem arrumada). Falei pra Re apagar o cigarro na frente deles e que tudo estaria acabado. Mas eles diziam que não adiantava que ela teria que ir pra delegacia. Eu, de tão incrédula com aquilo, fui começando a falar um pouco mais alto e a virar a cara fingindo que não estávamos entendendo o que eles diziam, eis que, novamente para nos salvar, chega o anjo Emanuel!

Os-Anjos-Dan.jpg Na mesma hora segurou no braço de um dos guardas e os levou para um canto. Alguns minutos de conversa e vimos Emanuel tirando uma nota do bolso para subornar os guardas. Aquilo me deu uma raiva tamanha, pois na Índia inteira, as pessoas fumam livremente nas ruas, nunca havíamos tido problemas com isso e de repente em um lugar onde não há aviso nenhum, os guardas querem nos levar pra delegacia por isso??? Ah não! E o coitado do Emanuel ainda teve que gastar uma grana (obviamente não quis nos dizer quanto) subornando aqueles, aqueles..... ah, deixa pra lá.

Enfim, salvas novamente pelos anjos!

Não conseguimos passagens de trem para irmos no mesmo dia para Nagpur, por isso ficamos na cidade descansando e nos preparando para a viagem do dia seguinte.





Viagem, Quarta-feira, 24/09 - pé na estrada novamente.

Hoje gravamos nossas falas para o vídeo, terminamos de escrever os textos para o site sobre o Rishi Valley. Estávamos inquietas na escola, que fica em uma área rural interiorana. Pelos caminhos verdes da enorme escola predomina um silêncio ensurdecedor e a tranqüilidade e falta de movimento e pessoas já estava nos deixando malucas, pois assim, nossas vozes interiores pareciam gritar em nossos ouvidos.

Então decidimos partir mesmo hoje. O problema é que não havia transporte direto para Nagpur, que fica há umas 15 horas dali. Como o pessoal da escola não sabia me informar qual seria a melhor maneira de irmos para o norte, resolvi ligar para o Emanuel (lembram? O anjo que nos ajudou em Bangalore), visto que ele seria a pessoa mais próxima da gente ali (mora em Chennai que fica há umas 6 horas de viagem de ônibus).

Ele obviamente foi novamente um anjo e tratou de nos enviar para Chennai alegando que de lá seria o melhor lugar para pegarmos um trem rumo á Nagpur. Foi o que fizemos.

Golpal---nos.jpg Nos despedimos de todos na escola, onde tivemos uma experiência incrível, inclusive do nosso Golpal, um simpático funcionário da Guest House que todos os dias ás 7h da manhã batia em nossa porta para levar uma garrafa de chá e um balde de água quente para tomarmos banho. O memo processo se repetia todas as tardes de todos os dias que ficamos lá, por isso o apelidamos de nosso Alfredo!

OS ÔNIBUS DA ÍNDIA CAPÍTULO 5 - O BIGODE.

Na minha cidade natal (Nova Friburgo) temos uma palavra que quer dizer tudo quando estamos em uma situação embaraçosa ou prestes a enfrentar algo bizarro, esta palavra é BIGODE!

Mão-na-boca-.jpg Esse ônibus foi um dos maiores bigodes que enfrentamos aqui. Saímos da rodoviária pública (gente dormindo em todos os cantos e mais uma vez nos sentimos verdadeiras alienígenas). Estávamos lá, calmamente esperando (o motorista da escola nos levou até Madanapalle para a rodoviária ás 21h), quando eis que chega ele!!!!!! (música de suspense) - o ônibus, se é que aquilo podia ser chamado assim... Milhares de pessoas se acumularam na porta para entrar. Detalhe seriam 7 horas de viagem dentro daquilo. Que bigode!
FOTO: Eis que chega ele! Mais um ônibus da Índia

Ficamos rindo sozinhas da nossa desgraça... ainda hesitando, agarramos nossos mochilões e entramos rindo, esbarrando nas pessoas no ônibus. Nos embaralhamos em 3 poltronas junto á nossas bagagens, que foram todas junto com a gente, respiramos fundo e ficamos ali... não acreditando no que estava acontecendo...

O-banheiro-d.jpg Não parava de chegar gente e algumas dezenas de pessoas foram em pé, entulhando ainda mais aquilo que mais parecia um daqueles banheiros de campos de concentração.


A estrada era terrível e fomos quicando daqui até Chennai naquela poltrona dura, onde chegamos ás 5h da manhã. Mais uma noite sem dormir. Vamos criar o projeto "Aprenda a Viver Sem Dormir" - autores: Realices.





Rishi Valey, Segunda e Terça-feira, 22 e 23/09 - Muito trabalho.


Havíamos programado sair do Rishi Valley no dia 22 para estar em Nagpur (ao norte) dia 23 para outro projeto. No entanto, a magnitude do que vimos aqui nos fez ter que adiar dois dias nossa ida visto que ainda precisávamos terminar o trabalho iniciado.

Entrevistamos o Sr. e Sra. Rao, criadores do Método Multinível de ensino e trabalhamos no vídeo que estamos preparando para enviar ao Brasil.

Está sendo extremamente difícil conciliar trabalho com viagem. Viajar, principalmente por países asiáticos pobres já é um grande desafio e tem nos cansado ao extremo. Junte-se a isso todo o compromisso que temos de catalogar, escrever, procurar, pesquisar, entrevistar as pessoas e ainda relatar nosso dia-a-dia, e ainda acrescentemos a essa receita as dificuldades com as conexões que temos encontrado, nossa jornada tem se tornado uma missão dificílima!

O resultado: eu e Renata emagrecemos alguns quilos e não estamos conseguindo dormir direito (quando a pressão do trabalho é grande ficamos acordadas a noite inteira conversando ansiosas, no dia seguinte estamos ainda mais exaustas). Sempre que temos que nos deslocar as viagens são de trem ou ônibus noturnos, sendo assim passamos mais noites sem dormir bem.

Acho que hoje estou pessimista, mas isso é fase e já já vai passar.





Rishi Valey, Domingo, 21/09 – ENTREVISTA E PESQUISA.

Estamos em um intensivo trabalho de campo. Enviaremos notícias em breve.





Rishi Valey, Sábado, 20/09 – VISITA SOCIAL E SURPRESA.

Nosso dia foi de encontros com os responsáveis pelo projeto e de visita ás vilas onde ficavam as escolas satélites. Resumindo, o que estamos vendo aqui é um inovador método de educação ChegRishi.jpg onde crianças de diferentes idades (de 5 a 13 anos) estudam na mesma sala de aula sendo que cada uma segue com o seu diferente nível de ensino.

Estamos totalmente estupefatas com o que presenciamos. É um sistema incrível que pode ser facilmente adaptado ás regiões mais pobres do Brasil e ainda, com uma forte capacidade de mudar o sistema de ensino e educação no nosso país. Este projeto está sendo minuciosamente estudado, catalogado e filmado pela gente.

Estamos produzindo um vídeo sobre esse novo método multinível de ensino criado aqui, muito esperançosas de que iremos conseguir veiculá-lo em alguma mídia brasileira, pois todos precisam saber que algo assim existe.

Minha satisfação, alegria, e um entusiasmo que não cabe em mim estão extravasando pelos meus poros! Não sei porque, mas estou tendo uma forte sensação de dever cumprido. Encontramos uma idéia potencial para mudar verdadeiramente a realidade do nosso país e de qualquer país de terceiro mundo. Esse método está sendo implantado na Etiópia e 7 outros países já procuraram a escola para saber mais sobre ele.

Vocês vão saber de tudo em nossa próxima matéria.





Bangalore, Sexta-feira, 19/09 – DE VOLTA Á ÍNDIA

Depois de muito tempo dentro daquele pólo-norte chegamos á cidade de Bangalore no sul da Índia, de onde deveríamos pegar outro ônibus até a pequena cidade de Madanapelle e de lá, outro até a escola do Vale do Rishi, onde visitaremos o nosso próximo projeto social.

Chegando no local onde deveria ser a rodoviária, o indiano despenteado para quem eu havia emprestado a manta desceu de seu beliche e nos perguntou para onde estávamos indo e que ele e seu irmão nos levariam até o lugar onde deveríamos pegar nosso próximo ônibus.

MAIS ANJOS EM NOSSO CAMINHO
Temos a clara sensação de que realmente não estamos sozinhas nessa viagem. Alguém nos está observando e enviando as pessoas certas aos lugares certos para nos ajudar nas horas certas! Emanuel e seu irmão (os indianos para quem emprestei a manta) simplesmente nos colocaram dentro de um autorickshaw, ajudando a carregar nossos mochilões de chumbo, nos levaram até a rodoviária (veja próximo título), nos colocaram dentro do ônibus que ia para Madanapelle, não nos deixaram pagar nenhuma passagem, nos compraram biscoitos, bananas e Coca-cola, nos convidaram para passar uns dias em sua casa em Chennai (uma cidade lindíssima na ponta leste do sul da Índia), ou seja, foram simplesmente anjos que caíram do céu.

Quando perguntei por que eles estavam fazendo tudo isso, Emanuel tirou um bilhete do bolso e me deu. No bilhete estava escrito o seguinte: “HI, THANK YOU VERY MUCH FOR THE BLANKET. YOU HELPED ME TO SLEEP GOOD.”Seu endereço e todos os contatos nos convidando para ir à sua casa. Depois me disse que devemos sempre ajudar a quem nos ajuda.

Depois de esperarem mais de 40 minutos nos fazendo companhia enquanto o ônibus não saía, foram embora para a estação de trem, onde ainda enfrentariam mais 10 horas de viagem até Chennai.

INACREDITÁVEL! Ficamos boquiabertas durante um bom tempo, não acreditando no que acabara de acontecer.

AS RODOVIÁRIAS
Se vocês pensam, como eu pensava, que quando falamos em rodoviárias na Índia, pensamos em um local coberto onde há estandes de companhias de transporte, com lojinhas e camelôs espalhadas e pessoas carregando suas bagagens subindo e descendo as escadas da construção, sim porque toda rodoviária demanda uma construção, estão e eu estava redondamente enganada!
Eis que urge a pergunta: como são as rodoviárias da Índia. Responder-lhes-ei:

Uma continuação de acostamento de terra de chão ao lado de uma bagunçada e movimentada rua da cidade, onde os ônibus se encostam em um emaranhado deles com homens gritando, na língua local, os lugares para onde cada um está indo. Somado a isso, imaginem aqueles escravos na época do império romano que carregavam enormes sacos na cabeça, só que ao invés de os colocarem em caravelas, sobem uma escada com aquilo na cabeça até o teto dos ônibus onde deixam a bagagem. TORRE DE BABEL seria o que melhor descreveria essas rodoviárias. Vendedores ambulantes carregando seus produtos (desde maçãs até amendoins e tecidos) passavam gritando e entrando nos ônibus junto com os incansáveis pedintes que não aceitam não como resposta e incomodam até termos que ser grosseiros.

Muita gente de tudo que é tipo, mulher, homem, crianças, cachorros, periquitos, mosquitos, enfim, dava de tudo. Ficamos pensando como iríamos nos virar nesse pandemônio sem nossos anjos da guarda.


MAIS UM CAPÍTULO (3) DA SÉRIE A SÉRIE: OS ÔNIBUS DA ÍNDIA!

Rodoviaria.jpg
Rodoviária e ônibus para Madanapalle de Bangalore

Esse sim foi um verdadeiro ônibus público do país. Já tendo descrito os passageiros que nos acompanhavam (parágrafo logo acima) falta falar sobre o maníaco do motorista e sobre o ônibus em si.

Sobre o motorista não preciso nem dizer, pra variar, tinha cara de terrorista, com aqueles óculos estilo Ray Ban de 1930 e era maníaco. Abriu o console horizontal acima de sua cabeça eis que vemos lá dentro um vídeo-cassete e uma aparelhagem de som. Ele com sua mão, também maníaco (afinal de contas, mão de maníaco também é maníaca) que mais parecia ter um ímã entranhado não saía da buzina e pra piorar a situação ligou o filme (que passava em duas TVs velhas localizadas dentro de uma caixa de vidro lacrada à cadeado nas duas laterais do ônibus), no volume mais alto da maldita aparelhagem de som. Resultado: eu e Renata ficamos surdas e com muita, mas muita dor de cabeça.

A VIAGEM
Foram 3h30 dentro daquele ônibus suportando os ruídos mais estridentes que vinham do filme maluco que estava passando e da buzina do maníaco do motorista. A paisagem era totalmente rural.

Estávamos entrando em um típico interior indiano. Muitos arrozais pelo caminho assim como montes formados de uma vegetação árida e pedras. Lembrava muito o sertão nordestino. A estrada era bastante estreita e cada vez que vinha carro do outro lado, depois de buzinar por 3 minutos, o ônibus tinha praticamente que parar para que ambos pudessem passar.

A parada para o xixi foi no meio da estrada. Três mulheres desceram, se embrenharam em uma moita no acostamento e lá permaneceram até acabarem o que tinham que fazer. E lá foi Renata junto. Ai que cena engraçada, os passageiros curiosos ficaram rindo olhando a gringa pela janela acompanhar as locais até a moitinha e de lá sair normalmente ignorando os olhares alheios como se nada tivesse acontecido. Isso aí amiga!

OS ÔNIBUS DA ÍNDIA – CAPÍTULO 4
E vocês pensam que a viagem acabou aí? Nada disso, ainda tínhamos mais 1h pela frente. Dessa vez, chegamos na “rodoviária” (preciso arranjar um outro nome para elas… quem tiver alguma sugestão, mande um comentário para
alice@realice.com.br!) e tivemos que procurar um jeito de ir até á escola, que ficava á 17km daquela cidadezinha rural. Telefonamos para a escola e ficamos sabendo que deveríamos ir até outra rodoviária (a pública) onde deveríamos pegar outro ônibus até a escola, pois para irmos de autorickshaws até a escola iria fica muito caro (R120 o equivalente a R$8, muito caro para a gente).

Madanapalle.jpg
Chegando em Madanapalle.

Foi o que fizemos.
Vejam o vídeo de dentro desse ônibus: ( Último ônibu.MPG )
Reparem nas buzinadas...

ALIENÍGENAS
Essa palavra descreve como nos sentimos esperando na outra rodoviária (esta até que tinha uma construção!) nosso próximo ônibus. Não havia um só ser humano que não olhasse para a gente enquanto ali estávamos. Todos paravam literalmente em nossa frente e nos fitavam como quem via um extraterrestre. Tem sido assim na maioria dos lugares que vamos, mas dessa vez foi demais.

Bem, chegando o ônibus, nada mais nos impressionava… era público e urbano, daqueles bem cacarecos. Um milhão de crianças se adiantaram e pularam dentro dele e as gringas, pra variar ficaram pra trás com os mochilões de chumbo, mas conseguimos lugares na frente. As milhares de crianças estavam curiosíssimas à nosso respeito e não puderam deixar de sentar perto da gente e a perguntar um monte de coisas em um bom inglês. Renata veio conversando todo o trajeto com 10 crianças até a porta da escola, onde ao chegarmos todas elas gritaram que este era o local.

FINALMENTE CHEGAMOS NO DESTINO FINAL
Foram aproximadamente 27 horas de uma longa, cansativa e ensurdecedora jornada. Ao entrar na escola o silencio era assustador e o ar fresco das árvores nos deu uma sensação de paz imediata.

A ESCOLA DO VALE DO RISHI
Antes de viajar tratamos de ler diversos livros sobre expedições e um dos melhores se chama OS CONFINS DA TERRA de um jornalista chamado Jorge Kaplan. Um americano que viajou o mundo durante 5 anos passando pelos mais recônditos cantos escrevendo historias sobre a situação social de cada país e fazendo comentários e comparações brilhantes. Neste livro no capítulo que fala da Índia, mencionou em diversas páginas a Escola do Vale do Rishi localizada no sul da Índia, onde ficou impressionado com o trabalho de reflorestamento feito da região assim como com o novo método de ensino implantado nas vilas carentes.

Após pesquisar na Internet, chegamos até aqui.

Fomos encaminhadas para nosso dormitório – a escola possui uma Guest House onde os pais das crianças ficam hospedados quando vem visitar seus filhos, já que funciona como internato. Mortas, apenas tomamos um banho e nos encaminhamos para o enorme salão de refeições onde estavam estudantes e professores, para mais um jantar indiano. Havíamos nos esquecido do gosto da comida… não conseguimos comer com as mãos dessa vez… teremos que nos acostumar tudo de novo.

Exaustas, fomos dormir.





Goa, Quarta-feira e Quinta-feira, 17 e 18/09 – ÚLTIMO DIA E PÉ NA ESTRADA

DESPEDIDA No. 4

Até hoje já tivemos que dizer 4 grandes “adeus” , um para cada família que nos hospedou e o quarto para os amigos que fizemos em Goa, os vagantes, Mess e nossa pousadinha com uma varandinha de frente para o mar onde pagamos R$5 por dia cada uma por um simples, mas bom quartinho.

Talvez seja essa a grande desvantagem de ser um viajante. O importante é que cada pessoa que passa deixa um pouco de si e leva um pouco da gente. Apenas gostaria que meu cérebro fosse como um computador que eu pudesse fazer um upgrade de memória, pois esta certamente irá me deixar na mão! Afinal de contas, são muitas pessoas, muitos nomes, muitas paisagens, muitos momentos... tantos, que sem dúvida irão ocupar todo o espaço que tenho no meu disco rígido.

Gravamos dois CDs de música brasileira para o Mess e ele acabou fazendo todas as nossas contas pela metade. Quanto ao comentário que fiz sobre o seu comportamento estranho, nada tenho a dizer a não ser que ele foi realmente muito camarada, do tipo de pessoa que só encontramos uma vez na vida.

Arrumamos os mochilões com as roupas que conseguimos lavar enquanto estávamos na pousada, pagamos a conta, passamos no Booboo’s para nosso último X-burger e lá fomos nós pegar o ônibus que nos levaria mais ao sul do país, para Bangalore.

mochilões.jpg
Nossos mochilões de chumbo... Aja coluna!

OS ÔNIBUS DA ÍNDIA – CAPÍTULO 2
Um ônibus como outro qualquer por fora, mas quando entramos tudo é diferente. Todo dividido em cabines de deitar (chamam de sleeper e são como beliches, uma cabine fechada com cama acima das poltronas normais) e assentos normais (seatters) que ficam espremidos nos cantos do ônibus.

Um entra e sai ininterrupto de pessoas, impressionante como os 1 bilhão de habitantes desse país estão presentes em todos os lugares, até mesmo dentro dos ônibus de viagem que saem de qualquer lugar para qualquer lugar! ESTAMOS DE VOLTA Á ÍNDIA!

NOVAMENTE ELAS: AS BUZINAS
O maníaco do motorista não parava de buzinar um só instante. Como já havia comentado, o transito daqui é absolutamente ensandecido e por isso, acho que os motoristas acham que quanto mais buzinam, menor são suas chances de baterem. Aliás, realmente não entendi como não vimos uma batida sequer até agora. Resultado, estamos ficando cada vez mais surdas e impacientes com tanto barulho.

CONTINUANDO...
Desta vez fomos sentadas. Infelizmente o ônbus tinha ar-condicionado e o maníaco do motorista que mais parecia um terrorista, queria nos matar de frio, e quase conseguiu. Quando fui reclamar no meio da madrugada, ele parece não ter entendido e acho que aumentou ainda mais a potencia do maldito ar condicionado.

FINALMENTE PARAMOS
Depois de desistir de dormir no pólo-norte, finalmente o ônibus parou na estrada e conseguimos pedir para o maníaco do motorista abrir nossas malas para pegarmos nossos sacos-de-dormir. No caminho, veio um indiano com a cara toda amassada e despenteado, meio que se encolhendo tentando em vão achar sua mala para se salvar do frio. Vendo sua feição de desespero, ofereci a ele uma manta que tinha na mala. Ele todo agradecido aceitou e voltou para o ônibus.





Goa, Terça-feira, 16/09 – PENÚLTIMO DIA

Hoje resolvemos que iríamos simplesmente colocar as pernas pro ar e ver a vida passar junto com as ondas do mar !(até rimou!). deitamos na espreguiçadeira da praia de Calangute onde estamos hospedadas e lá ficamos conversando, dormindo e tomando uma Coca-Cola.

PraiaAnjuna.jpg
Praia de Anjuna. Pôr do sol inesquecível.

Almoçamos um bom X-burger no Booboo’s e fomos pra pousada fazer o que mais gostamos de fazer nas horas vagas... dormir! Ai que dia bom! Foi sem dúvida um descanso merecido afinal de contas, nós também somos filhas de Deus!

Á noite fomos encontrar os amigos vagantes em um bar que estava inaugurando chamado Rustles, eu e Re na nossa motoca. Lá dançamos ao som de um cantor de bar que praticamente só cantou pra nossa mesa. Quando chegamos a mesa estava quieta, com a Carol e 3 outros ingleses conversando calmamente. As brasileiras colocam o pé na pista e logo se começa a ouvir o som do samba (que imploramos para o cantor tocar), depois veio a salsa e lá estávamos nós, dançando... foi quando chegaram os africanos! Nossos ascendentes. Eram uns 5 que dançavam como plumas balançando o corpo como só eles sabem. Ao som dos ritmos latinos lá ficamos até bem tarde e ainda emendamos a noite no Booboo’s onde pudemos já nos despedir de alguns amigos.

Dancando.jpg
Alice dançando no rustles





Goa, Segunda-feira, 15/09 – MAIS UM DIA DAQUELES.

AHHH AS CONEXÕES ... TRABALHO No. 4.567
Adivinhem onde passamos o dia inteiro hoje? Acertou quem disse no Cyber Café trabalhando. Só pra variar... o dia estava lindo e as conexões terríveis, uma ótima combinação para aumentar a nossa dose de mau-humor. Está muito difícil trabalhar por aqui. Não me canso de reclamar das conexões que são realmente muito ruins, o que transforma um trabalho de 2 horas em um dia inteiro. Para atualizar o site, apenas temos que passar os emails com os textos e as fotos em baixa resolução, no entanto o que deveria ser supostamente rápido e fácil está nos deixando cada vez mais preocupadas com o que ainda estamos por enfrentar. Afinal de contas, de todos os países que visitaremos nessa primeira etapa, a Índia e a Tailândia são os melhores em termos de tecnologia. Preocupações à parte, seguimos em frente, respirando fundo e tomando mais uma Coca-cola pr passar o tempo enquanto o email não sai da caixa.

COCA-COLA
E por falar nisso, a quantidade de Coca-Cola que temos tomado por aqui não está sendo normal! Também depois de tantos avisos sobre a água, que não devemos bebê-la nas ruas a não ser as industrializadas, que mesmo assim merecem cuidado, não nos resta outra opção a não ser a deliciosa e salvadora dos estrangeiros receosos santa Coca-Cola. Somente eu e Renata já devemos ter consumido uns 50 litros de Coca-Cola em menos de 15 dias que estamos aqui.





Goa, Domingo, 14/09 - UM TÍPICO DIA DE DESCANSO

Hoje fizemos tudo o que queríamos fazer depois de 2 anos de trabalho incessante para a construção do Projeto Realice. Tomamos um bom café-da-manhã, caminhamos na praia e fomos até o Bar do Mess pegar a motocicleta que ele iria nos alugar.

Passeamos de moto pela cidade e fomos encontrar os vagantes em um bar na praia onde o Mike (um Neo Zelandes chefe de cozinha vagante, totalmente maluco que conhecemos no Booboo's) estava preparando um grande almoço e nos convidou para participar. E que almoço!

O ALMOÇO DO MIKE!


Vagantes.jpg Foi a primeira comida verdadeiramente gostosa que comemos por aqui desde que chegamos. Cenouras e batatas assadas, uma deliciosa panqueca e adivinhem: frango e carne depois de duas semanas comendo apenas vegetais!!! Tudo isso com um tempero indescritivelmente maravilhoso. Eu e Renata passamos vergonha de tanto que comemos.

De lá pegamos nossa motoca e voltamos pra casa, onde dormimos até ás 11h da noite! Com peso na consciência resolvemos dar uma passada no bar, onde ficamos por uma hora e voltamos para casa, adivinhem fazer o que? Trabalhar, só pra variar...

UM CARA CHAMADO MESS

FOTO: MESS COM CAROL. LEGENDA: MESS E UMA AMIGA LONDRINA
Logo quando chegamos na cidade e fomos procurar um lugar para almoçar, passamos á frente do Booboo's e o Mess estava logo na porta dizendo que havíamos encontrado o lugar certo. Um adulto responsável beirando os 40 anos que vive em Goa há uns 10 anos, que passou a nos tratar como verdadeiras amigas. Sempre nos convida para tudo o que vai fazer e desde que gravamos para ele um CD com músicas brasileiras, ele não nos deixa pagar quase nada quando vamos ao seu bar. Basta comentar que precisamos de algo e ele logo se propõe a ajudar sempre sem muitas palavras, mas com uma simpatia que está começando a nos deixar desconfiadas... não nos deixou pagar o almoço, à noite em seu bar não nos deixou pagar nossos refrigerantes e sobre a moto, simplesmente nos deu a chave e falou que depois conversávamos, nem ao menos sabemos quanto vai nos custar... ou ele está fazendo isso por camaradagem, ou não consigo imaginar o por quê. Será que aí tem coisa?





Goa, Sábado, 13/09 - O PESO DO TRABALHO.

Finalmente, pela primeira vez desde que chegamos na Índia, conseguimos acordar depois das 9h da manhã. Resolvemos que hoje seria um dia de trabalho, pois precisávamos atualizar o site com o projeto Sadhana visitado em Pune e organizar nossos dados. O dia estava ensolarado e quente. Temos levado geralmente umas 4h no mínimo para escrever todos os textos e tratar todas as fotos, além de algumas horas que passamos em Cyber cafés para enviar tudo por email. Mesmo em uma praia linda como essa não conseguimos relaxar enquanto não estamos com o trabalho em dia.

Ficamos o dia inteiro dentro do quarto escrevendo e no cyber aqui perto tentando enviar os emails.

DOR DE CABEÇA
Estar e não estar. Esse é o nosso sentimento. Estamos aqui para recompor as energias para continuar nossa vida de nômades em busca incessante das melhores idéias. No entanto, o peso de saber que nosso trabalho deve ser bem feito, nos prende e nos deixa apreensivas. Estamos com tudo pronto em nossos laptops, mas as conexões são terríveis. Tentamos enviar emails relativamente leves que não passam pelo provedor de maneira alguma. Ficamos então chateadas e apreensivas pois o sucesso do nosso trabalho parece realmente não depender de nós. Mas seguimos em frente tentando nos acostumar a essa falta de infra-estrutura.

O dia foi de trabalho. À noite consegui falar com minha mãe e namorado no telefone. A saudade está realmente começando a querer me incomodar.

CAMINHANDO NA PRAIA E REFLETINDO...AMIZADE DE ALICE E RENATA

Mulheres-na-.jpg Ao entardecer saí sozinha para uma caminhada de introspecção pela extensa e linda praia de Calangute. Levei a câmera fotográfica e tentei captar um pouco de tudo que vi, A praia e como os indianos se comportam nela. Mulheres vestindo seus saris, se banham com roupa, não podem mostrar seus corpos nem sequer nas praias. A cena foi engraçada. Vejam as fotos.

Nesta caminhada, parei para fazer uma retrospectiva da minha vida nos últimos dois anos e fiquei em um ponto crucial. Minha amizade com a Renata.

Entardecer-n.jpg Convivemos há mais de 2 anos juntas, partilhando o mesmo sonho, a mesma casa, a mesma vida. Algumas vezes nos perdíamos em nossas próprias personalidades sem saber quem éramos, visto sermos reconhecidas como a mesma pessoa e por realmente viver a vida de uma só. Muitos nos perguntaram sobre nossa convivência e sempre respondíamos valorizando nossa amizade.

Banhistas-in.jpg Encontrar uma pessoa que possui os mesmo sonhos e objetivos que você realmente parece tarefa quase impossível. Nós temos isso. Essa viagem, tão cheia de sofrimentos, despertadora de sensações nunca antes experimentadas, que tem mexido muito com muitos de nossos conceitos, tem fortalecido cada vez mais nosso vínculo, pois agora, mais do que nunca, não temos nada, além de uma á outra. Saber que somos nossas próprias pilastras de apoio é suficiente para mantermos uma união de amizade que ás vezes surpreende até a mim mesma, que sou parte de tudo. Mais do que irmã, do que família, do que amiga, somos uma a casa da outra.

Fomos dormir tarde da madrugada depois de colocar todas as pendências em dia. Amanhã será um dia de descanso. Pelos menos esperamos!





Goa, sexta-feira, 12/09 - ESPAÇO E POPULAÇÃO, COMPREENDENDO O PARADIGMA.

Chegamos ás 7h da manhã em GOA. Pela primeira vez pude ter noção da dimensão territorial de um pais 3 vezes menor que o Brasil e com 9 vezes mais sua população. Pensando numericamente, achamos que não há de haver um só quilometro não habitado. Pelo contrário, a paisagem que víamos pela janela do ônibus era de florestas e vales, serras e muito verde. A população daqui se espreme em determinadas localidades. A sensação de estar finalmente sozinha, sem famílias ou sem uma estrutura para a qual deveríamos dar satisfação finalmente me fez perceber que não temos ninguém alem de nós duas.

A sensação foi de alívio. Chegar em GOA, um pequenino estado no litoral oeste da Índia, banhada pelo mar arábico, significou chegar a alguns passos próximo á liberdade. No entanto, senti que soltamos algumas amarras que me davam uma certa segurança. Não conhecíamos nada da cidade e assim que descemos do ônibus fomos rodeadas por taxistas e agentes de turismo querendo nos arrastar para seus lucros. Tivemos que apurar o sexto sentido e acreditar em Deus para que chegássemos ao lugar certo sem sermos enganadas. E assim foi, Ele realmente está com a gente. Conseguimos um taxista falador que nos cobrou barato e nos levou a uma Guest House há 50m da praia de Calangute, uma das mais famosas em Goa.

MANÍACO SEXUAL
Enquanto conversávamos com agentes do departamento de turismo da cidade junto com nosso paciente taxista, um outro agente se aproximou e tentou nos chamar para um canto onde pudesse nos convencer a não ir com aquele taxista. Percebendo que sua ladainha estava sendo em vão, numa última tentativa de nos convencer a aceitar os seus serviços, nos disse, descaradamente, que o taxista era conhecido na cidade como um tarado sexual e assediava turistas estrangeiras, que por isso deveríamos tomar muito cuidado com ele.

Nossa reação foi de indignação instantânea. Ficamos cabreiras com aquilo, mas resolvemos, por sexto sentido, seguir adiante com o nosso taxista tarado. Obviamente, pensamos logo que deveríamos nos precaver apenas em caso daquela afirmação ser verdadeira. Pegamos nosso canivete que estava dentro da mala e o deixamos de sobre-aviso dentro do bolso! Turista é o sujeito mais desavisado e passível de enrolação do mundo. E era exatamente assim que estávamos nos sentindo. Fomos no caminho discutindo nossa tática de ataque caso tivéssemos que realmente utilizá-la... ainda bem que ele não entendia português pois iria certamente achar que as maníacas somos nós!!!

Na-praia-em-.jpg FINALMENTE UM DESCANSO
Depois de duas semanas espremidas na multidão, pobreza e poluição de Mumbai, chegamos ao paraíso. Nosso quartinho, o qual conseguimos alugar por apenas R$4 o dia para as duas, fica em frente á praia. As acomodações são simples mas totalmente satisfatórias.

O BOOBOO'S E OS VAGANTES
Logo no primeiro dia fomos correndo procurar algum lugar onde pudéssemos comer alguma comida ocidental. Acho que eu e Renata já emagrecemos uns 3kg cada. Achamos o Booboo's, um bar muito arrumado de um simpático turco chamado Mess. Ali conhecemos alguns estrangeiros malucos que, como diz Renata, "não vivem, vagam pelo mundo sem saber quem são e muito menos onde estão", pessoas legais aos quais carinhosamente apelidamos vagantes.

Comemos sanduíches e depois fomos para a praia descansar, já que a energia tinha caído e não podíamos trabalhar.

Na praia, subestimamos totalmente o sol e acabamos dormindo em duas espreguiçadeiras arranjadas para turistas. Resultado: estamos parecendo dois tomates assados intocáveis!

Á noite voltamos para o bar do Mess (o turco) onde conhecemos mais pessoas que vagam...





Pune, Quinta-feira, 11/09 - SEGUNDO PROJETO SOCIAL.

Chegamos em Pune á meia noite. Ás 9h30 da manhã o carro do projeto social estava nos esperando para nos levar até seu fundador e de lá para a Vila onde é realizado.

Durante-a-vi.jpg Ficamos sabendo do Sadhana Village, através de uma matéria no jornal Mumbai Times, com isso, Shailesh conseguiu o contato para que pudéssemos visitá-lo. Seu fundador, Sr. Despande de 72 anos de idade, parecia ter 60. Um homem de visão e determinação. Conversamos com ele durante uma hora e seguimos com uma de suas filhas para a Vila que ficava em um vale há 40km da cidade.

A COMIDA... DESSA VEZ NÃO DEU PRA SEGURAR.
Almoçamos com os internos, profissionais e 3 voluntários alemães que estavam trabalhando na instituição em uma mesa cumprida. Estávamos eu e Renata em uma das cabeceiras e um dos "amigos especiais" como chamam ao nosso lado. Fomos servidas em uma bandeja que continha "compartimentos" separados para cada tipo de comida. Nós resolvemos dividir a bandeja pois sabíamos que não conseguiríamos comer aquilo. A comida não tinha gosto, havia sido preparada em uma cozinha suja e o "amigo" que estava ao nosso lado, comia com as mãos (como todos) e fazia um barulho perturbador se lambuzando todo. Procurávamos não olhar muito para o lado para que pudéssemos comer, pois por aqui, deixar comida no prato é considerado desfeita. Logo perguntam se não gostamos da comida. Mas dessa vez, foi difícil comer tudo. Tentamos, mas toda aquela cena e o gosto da comida não ajudaram muito. No final das contas, vi uma das moças que trabalha na cozinha, levar nossa bandeja para dar de comer aos cachorros...

AS NOJEIRAS PADRONIZADAS DO PAÍS

COMER COM AS MÃOS quando se tem o hábito de lavá-las antes é bastante aceitável, mas conviver em meio á essa poluição, esbarrando em milhares de pessoas por minuto, subindo e descendo de ônibus toda hora e parar para comer com as mãos, é um pouco demais. Realmente não dá pra imaginar como essas pessoas não possuem infecções crônicas.

CUSPIR NAS RUAS é algo absolutamente normal em todos os cantos do país. Precisamos tomar cuidado para não sermos cuspidas!

A MULTIDÃO ás vezes incomoda. Parece que estamos sempre emboladas, sem espaço, espremidas junto á multidão que anda nas cidades... agüentar isso por muito tempo é o mesmo que se tornar uma pessoa estressada e presa.

Pela primeira vez vimos uma Índia quieta, verdejante, tranqüila. Campos serenos e vacas pastando na paz de um vale rural. Não mais se ouviam o barulho constante das buzinas irritantes.

Ficamos durante 3 horas no projeto, catalogando as atividades e entrevistando os funcionários. Existem vários workshops onde os internos aprendem atividades e ajudam nas produções que mantém parte da instituição. Fomos com Samuel (um dos voluntários alemães que já estava há 10 meses trabalhando no local) ver o workshop das velas e acabamos aprendendo a fazê-las. Um alemão que exalava tranqüilidade e paz. Disse que sua estadia ali o fez assim, pôde experimentar uma grande introspecção, pois o lugar é totalmente isolado, sem contato com o mundo.

Voltamos á tarde cientes de que havíamos visitado uma grande idéia. Isso nos faz ainda mais felizes.

Depois de tanto trabalho e tanto cansaço resolvemos tirar o fim de semana para descansar em Goa, uma cidade na costa sudoeste do país. Shailesh nos deixou na rodoviária. Na verdade perdemos o ônibus na rodoviária então tivemos que ir correndo de carro atrás dele. O ônibus nos impressionou demais pelo conforto. Uma cabine com uma cama tamanho casal no segundo andar!!! Viajamos a noite toda deitadas enroladas em nosso saco de dormir, no maior conforto! Pagamos apenas 300 rúpias indianas por essa viagem cada uma, o que corresponde a R$20. foram 12 horas viajando.





Mumbai, Quarta-feira, 10/09 - DIA DE DESPEDIDAS E DESCANSO

Realices-com.jpg Hoje foi o dia em que resolvemos curtir cada minuto que tínhamos com a Gueeta. Arrumamos nossas mochilas e separamos uma caixa de 15kg com equipamentos que mandamos de volta para o Brasil, pois vimos que não iríamos utilizar e estávamos carregando um peso maior do que conseguíamos suportar.

Fomos comer Dosa (uma "panqueca"indiana) com a Gueeta e depois voltamos para casa.



VESTINDO O SARI E DANÇANDO DANÇA INDIANA
Em casa, resolvemos tirar a prova para saber como ficaríamos vestidas como verdadeiras indianas. Gueeta nos arranjou duas roupas típicas e nos vestiu como as indianas. Dancando.jpg Eu com um sari verde e Renata com uma roupa de seda vinho. Ficamos ali curtindo nossas fantasias e dançando com a Divayane na sala, algumas danças indianas, enrolando os pés e as mãos e tudo mais. O sari não me deixava mexer os pés e fui alvo de muitas risadas por causa disso. Acabei com aquele pano enrolado até na cabeça. Como elas conseguem andar com aquilo todos os dias????? Eu e Renata estamos sempre nos divertindo ás nossas próprias custas... aliás pensamos que as pessoas devem nos achar meio anormais, pois passam a maioria do tempo rindo da gente e das nossas frases e atitudes engraçadas.

DESPEDIDA E IDA PARA PUNE
Shailesh, o sobrinho do Madhav chegou para nos levar até sua casa em Pune, onde conseguimos agendar para visitar um grande projeto social, o qual encontramos ao ler o jornal local. Nos despedimos com lágrimas nos olhos dessa família tão maravilhosa... vamos realmente sentir falta de todos.

E lá fomos nós para nossa primeira viagem na Índia. Começou a temporada de deslocamentos e vida de nômades. Fomos com Shailesh rumo a Pune de táxi. Foram 3 horas de uma tranqüila viagem.





Mumbai, Terça-feira, 09/09 - MUITO CANSAÇO

Tivemos que acordar ás 8h30 tendo ido dormir ás 7h, pois a Gueeta havia marcado de nos levar a um instituto Dom Bosco que cuida de menores abandonados de Mumbai. Levantamos fisicamente mas nossas mentes ainda estavam no travesseiro. Fomos então para a instituição, onde apenas vimos como funciona e conversamos com o padre responsável.

MENINOS DE RUA E SUAS TRISTES HISTÓRIAS
O que vimos foram aproximadamente 170 meninos entre 07 e 18 anos, todos juntos em uma quadra onde recebiam instruções de uma professora. Ouvimos as mais tristes histórias de alguns meninos, e percebemos que a violência possui apenas uma face em qualquer lugar do mundo. A crueldade e a maldade que exalam alguns seres humanos, que a meu ver, assim não poderiam ser entitulados (monstros seriam o melhor nome para suas espécies), gera uma revolta interna em qualquer pessoa que ouve tais histórias.

Um menino com aproximadamente 13 anos de idade, veio até nós com um semblante triste e febril. Conversou um pouco com o padre que nos acompanhava. Ele ardia em febre e não estava correndo serelepe como os outros internos. Tinha uma enorme cicatriz de queimadura em seu colo e pescoço a qual parecia um pouco inflamada. Fomos saber que ele havia sido queimado por sua madrasta com água fervendo. Aquela cena realmente me cortou o coração. A Gueeta, que nos acompanhava durante a visita, ficou quieta e triste durante todo o dia depois disso.

No-Projeto-D.jpg Essa história a parte, os tantos sorrisos, a energia e alegria daqueles meninos, que corriam de um lado para outro, conversando e brincando um com o outro, nos fez refletir um pouco. Essas crianças possuem a necessidade de ser alegres, tão natural que nem se percebe. Passam por situações inacreditáveis, as quais em nós adultos causaria revolta eterna, mas mesmo assim, possuem a capacidade de esquecer e continuar sorrindo e brincando, pois sem isso, realmente elas não sobrevivem. O que paramos para pensar é até quando elas agüentam maus-tratos sem se tornarem amargas. Rezemos para a amargura não tome conta da doçura dessas uma criança.

PROBLEMAS INTERNACIONAIS DA VIDA EM FAMÍLIA
Toda família possui seus problemas. Um tio doente, um irmão depressivo, um primo que não gosta de estudar, uma filha que quer fugir de casa, um pai com problemas de alcoolismo. Esse último tivemos que enfrentar e, sem querer, participar.

Ao chegarmos em casa, Madhav nos chamou para conversar junto com a Gueeta que sentou em um dos sofás. Então ele, que exalava um forte cheiro de álcool começou a desabafar dizendo que amava sua família e que não queria perdê-los, mas que também gostava de beber, pois quando bebia se sentia bem e mais feliz. Ao final do discurso perguntou a nossa opinião (minha e da Renata). Ficamos extremamente constrangidas com aquela situação, mas nos sentindo na obrigação de dizer alguma coisa. A Gueeta se sentiu muito mais constrangida que a gente. Mas fomos conversando, o acalmando, desenrolando aquele bolo e no final tudo ficou bem. No entanto, sentimos muita pena daquilo tudo, pena da Gueeta e de sua filha. Eles pareciam ser uma família tão perfeita... Não importam os problemas, continuaremos os adorando sempre.

GANESH FOI PARA O MAR
Hoje foi o grande dia do festival de Ganesh. Um famoso feriado na cidade. Ninguém trabalha e as ruas ficam absolutamente lotadas. Parece que os 14 milhões de habitantes saem para ver as imagens do Ganesh passar. Cada uma seguindo em seu caminhão com um bando de "foliões" á sua frente batucando um ritmo típico nos tambores. Levam as imagens até o mar, onde são jogadas em um ritual que dura até o dia seguinte. As imagens então dissolvem na água e todos voltam para suas casas tristes sentindo falta do Deus que outrora durante 10 dias estava tão presente.


FILME EM HINDI
Depois de dormirmos um pouco (estávamos 24 horas acordadas) fomos ao cinema assistir a um filme indiano. Por sinal, ficamos impressionadas com a qualidade do cinema daqui. A protagonista era uma atriz cuja beleza ofuscava os olhos. Lindíssima! Não sabemos como Hollywood ainda não a descobriu! Foram 3 horas de filme, uma comédia romântica cheia de músicas e danças, como todo típico filme indiano. Muito bom!

hoje foi aniversário da minha mãe, consegui falar com ela usando um site na Internet www.dialpad.com, compramos créditos em ligações pelo cartão de crédito e fazemos a ligação conectadas a uma linha local. As ligações são mais de 70% mais baratas e a conexão é muito boa.

Acho que a saudade está começando a bater.... ainda não derramei uma lágrima sequer devido a esse sentimento de satisfação que me domina, no entanto estou sentindo chegar a hora que elas vão querer cair. Agüenta coração!





Mumbai, Segunda-feira, 08/09 - PRIMEIRA VISITA SOCIAL

Acordamos cedo e nos dirigimos para o Hospital Municipal de Mumbai, localizado no bairro de Sion, onde a Gueeta trabalha. Lá, em algumas salas, funcionam projetos da instituição SNEHA.

Chegamos no hospital com toda nossa parafernalha de vídeo pois depois da entrevista, filmaríamos um Slum indiano.

Foi nossa primeira experiência com a pesquisa social em si. Testamos o formulário e o tempo de entrevista. Sentimos que ficaremos sempre muito a mercê do tempo disponível das pessoas, e por isso, teremos que aprender a sentir esse tempo e sermos mais maleáveis com o formulário.

Foi importante sentir a receptividade das pessoas para com nosso projeto. Todos elogiam bastante e nos fazem perguntas sobre o projeto.

ALGO ESTÁ MUDANDO
No Brasil, sempre que as pessoas me perguntavam o que eu mais temia com a jornada, respondia que seria me deparar com realidades sociais catastróficas e não poder me envolver ou fazer qualquer coisa para ajudar. Pois bem, até agora, mesmo tendo visto cenas de extrema pobreza, não tive essa sensação de envolvimento. Muito pelo contrário, o sentimento de ser brasileira e de estar aqui pura e simplesmente para trazer coisas boas para o meu país, está cada vez mais forte. Minha distância psicológica para com tudo o que tenho visto está se tornando clara, como está também claro o meu orgulho de ser brasileira e de querer a todo custo encontrar soluções para o nosso país.

Com-as-crian.jpg SENSAÇÃO
Felicidade. Estar ali, com uma prancheta nas mãos e um gravador na outra, metralhando a fundadora do projeto de perguntas sobre ele, me deu uma a satisfação confortante de saber que estou no lugar certo fazendo a coisa certa na hora certa. Agradeço muito por isso pois sei que poucas pessoas conseguem na vida obter essa sensação.

Voltamos para casa onde trabalhamos novamente durante toda a madrugada... o sol nasce e nós nos pomos a dormir...





Mumbai, Terça-feira, 02/09 – finalmente chegamos.

Após 23 horas de viagem incluindo o tempo que ficamos em conexão em São Paulo e hanesburg, chegamos finalmente á Mumbai, antiga Bombay ás duas da manhã, horário local. Durante o mês que passou estabelecemos contato com uma família indiana através de uma conhecida brasileira. A adorável família Sonwalkar nos convidoue para ficarmos hospedadas em sua casa. Jai e seu pai, Avinash, estavam nos esperando no aeroporto com uma plaquinha escrita Alice. Nosso vôo atrasou duas horas e mesmo assim eles estavam lá...

Os 35 km do aeroporto até o apartamento onde moram foram os mais exóticos de minha vida. Mesmo tendo lido sobre esse país e por isso, tendo noção do que encontraríamos, jamais poderíamos imaginar que seria assim. Cheguei a conclusão que ninguém conseguirá descrever com exatidão o que é esse país, mas vou me aventurar e tentar fazê-los ter uma vaga noção:

- O caminho do aeroporto até o apartamento

Ruas molhadas, tempo úmido e quente, muitos carros e tuk-tuks que aqui são chamados de “Auto shaurs” (os táxis de três rodas) correndo como se estivessem indo um de encontro ao outro. Não há sinais de transito e a mão é estilo inglesa. As poças no asfalto mal feito deixavam o ar ainda mais bizarro. Muitos carros, algumas pessoas mal vestidas dormindo pelas calçadas ao lado das poças e dentro dos carros parados. Luzes coloridas penduradas em alguns casebres, muitos barracos e templos improvisados que foram armados em toda a cidade para celebrar o Deus Ganesh (do hinduísmo, aquele que tem a cabeça de elefante e corpo de homem). Durante 10 dias o povo reza para Ganesh.

- O cheiro

tantas linhas lidas sobre o cheiro peculiar deste país e ainda sim não conseguimos saber como ele é realmente. Foi quando o pude sentir de verdade é que finalmente entendi o que todos os viajantes escrevem sobre ele. Imaginem um currau no meio de uma rodovia movimentada. É exatamente isso: cheiro de estrume de vaca e de porco misturado com a fumaça dos carros. Mas a única diferença é que não o sentimos todo o tempo muito menos em todos os lugares como algumas pessoas escrevem e dizem.

Tudo é absolutamente suportável e encantador, apesar de também ser assustador algumas vezes. Estou realmente feliz por estar aqui nesta terra conturbada, exótica, confusa e provocadora de sensações nunca antes experimentadas.





Mumbai, Quarta-feira, 03/09 – Jet Lag que não acaba

Ainda estamos com jet lag, o fuso totalmente confuso. Nossa família hospedeira é simplesmente adorável. Nos deixam totalmente a vontade e são amorosos ao extremo. Fomos dormir ás 5 da manhã até conseguirmos colocar as tantas tralhas em ordem. Renata não conseguiu dormir. Eu cochilei um pouco mas acordei as oito. Eu e a Re conversamos um pouco sobre tudo o que estávamos sentindo sobre as sensações que foram despertadas e depois fomos descansar um pouco mais. Ao acordarmos, fomos com Jui, nossa irmãzinha mais nova (15 anos) procurar um cyber café e um mercado para comermos.

- Os cybers cafés

Não é absolutamente nada do que vocês estão imaginando. Os Cybers cafés aqui mais parecem um cemitério de PCs espalhados por prateleiras e mesas empoeiradas com um bando de jovens mexendo neles. O dono do Cyber foi bastante solícito e conectou nossos lap tops. A conexão, mesmo sendo a cabo é muito ruim, então decidimos trabalhar em casa e depois conectar apenas para colocar as notícias na Internet.

- O mercado de Chembur

Pegamos um ônibus e fomos direto para o mercado Chembur. Pelo caminho vemos muitos estúdios de cinema (estilo indiano), o que apenas confirmou o que já sabíamos: Bombay é a maior cidade produtora de filmes do mundo. Aqui se produzem mais de 800 mil filmes por ano. O povo é louco por música e cinema.

O mercado é uma loucura de pessoas andando se esbarrando aos carros, ônibus e auto shaurs. Vendedores ambulantes e mercados parecidos com os da rua Uruguaiana no centro do Rio. A grande maioria das mulheres usam o Sari (vestido e lenço típicos). Quando nos misturamos a todo aquele ambiente, senti uma borbulhante emoção de felicidade por estar ali, pois finalmente me dei conta de que havíamos conseguido, após tanto trabalho e suor, finalmente estar ali, no meio de toda aquele povo diferente, trabalhando no que sonhamos durante anos.

Não podíamos deixar de filmar tudo aquilo. Foi só tirarmos a câmera das mochilas para se formarem grupos de pessoas atrás da gente que nos seguia pedindo para serem filmados. Nossa presença provocava curiosidade em todos os lugares que passamos. A grande maioria do povo fala inglês, o que torna nossa comunicação muito mais fácil. Voltamos para casa ás 9 da noite muito cansadas após tanto ter andado com as mochilas nas costas que devem estar pesando uns 10 Kg cada uma.





Mumbai, Segunda-feira, 04/09 – Rumo ao coração de Mumbai

Hoje tomamos um ônibus urbano rumo ao centro da cidade. Foram quase duas horas passando pelos subúrbios mais sinistros da cidade até chegarmos ao local. O centro fica ao sul, onde explodiram as bombas no dia 25 de agosto, que mataram 46 pessoas. Visitamos o grande Portal da Índia e o Taj Mahal Hotel. Nossa reação foi de desgosto profundo, pois é um local totalmente turístico, e nós com toda aquela parafernalha de vídeo, nos sentimos ainda mais turistas do que já somos. Assim que chegamos, várias pessoas vieram a nossa volta para oferecer passeios turísticos e pedir dinheiro, as pessoas não saem das suas costas, ficam incomodando incessantemente. Isso foi extremamente desagradável. Então tratamos de sair rapidamente dali. Nos dirigimos então ao mercado, o qual depois ficamos sabendo ser o submundo, do submundo de Mumbai. O mercado se chama Abdul Rahaman e fica em um bairro muçulmano.

- O país destruído e reconstruído com gambiarras

A clara sensação que temos é que há uns 5 anos atrás, um grande furacão passou por aqui destruindo toda a cidade, a qual até hoje se encontra em reconstrução. Tudo parece ser uma grande gambiarra. Os prédios são como cortiços, sujos e com quinquilharias penduradas em todas as janelas. As ruas e avenidas são uma grande confusão de veículos sujos se cruzando e passando tão perto um do outro que chega a dar um frio na barriga.

- Necessidades no meio da rua – ânsia de vômito

Uma cena me chamou a atenção e me chocou profundamente. Uma mulher, mendiga, jogada na calçada como se passando mal, com a barriga para baixo, se segurando no meio fio com uma das mãos no asfalto e a outra na calçada, que ficava embaixo de um viaduto mal feito. Estava despida na parte de baixo e por seu traseiro via-se escorrer uma massa marrom, assim, no meio da rua. A mulher parecia que fazia força e se arrastava no chão com uma feição de dor. Terrível. Foi a primeira vez que confesso ter sentido ânsia de vomito.

- A bagunça do Mercado Addul Rahaman.

É um mercado de atacado, onde se vende todos os tipos de bugingangas, que são mais baratas do que em qualquer outro lugar da cidade. Imaginem que esta cidade possui 14,2 milhões de habitantes e é ainda menor do que a cidade do Rio de Janeiro. Naquele mercado, a multidão era assustadora. O barulho ensurdecedor das buzinas incessantes é algumas vezes parece que vai nos deixar loucas. Alice-film2.jpg Carregadores de lixo e caixas enormes passavam junto aos carros – e suas buzinas – na estreita rua um asfalto esburacado que separa as duas calçadas entulhadas de gente, esgoto e lojas do local. E lá estávamos eu e Renata, as duas únicas estrangeiras com filmadora e câmera fotográfica nas mãos filmando cada cena esdrúxula. Todos paravam para nos olhar em todos os locais que passávamos. O mais engraçado foram as reações das pessoas que pedíamos para nos deixar filmar. Muitos risos e feições envergonhadas, mas raramente ouvíamos uma recusa.

Alice-film1.jpg

- As coisas boas

Não se ouve falar em roubos. Prova disso foi que andamos pelo subúrbio mais lotado da cidade e nem sinal de um. Estamos portando todo o equipamento de vídeo que ficavam inevitavelmente á mostra o tempo todo. A gentileza das pessoas é realmente assustadora. Uma hora no ônibus, perguntamos algo para um dos passageiros ao nosso lado e simplesmente quando nos demos conta, o ônibus inteiro estava olhando para nos e dando palpites sobre como seria a melhor maneira de chegarmos ao nosso destino, até mesmo os passageiros da primeira fila (estávamos na última).

Todos falam inglês, que é a segunda língua oficial da Índia depois do Hindi. Aliás, por aqui se falam mais de 76 línguas. A maioria das pessoas falam mais de três linguas. A sua, o inglês e o Hindi. Cada região possui uma língua diferente, frizando que são realmente outros idiomas e não dialetos. Por isso a comunicação é bastante facilitada. Agora, entender o inglês embolado de alguns é uma tarefa um tanto quanto complicada.

- A volta – éramos pura poeira
Depois de duas horas em um transito engarrafado e maluco chegamos á Vila. Nosso estado? Diríamos, lixo. Essa seria a melhor palavra para nos descrever depois desse dia. Nossa pele por aqui fica tão suja por causa da poeira e da poluição (que aliás mereceria um capitulo a parte) que quando lavamos, a água sai cinza.





Mumbai, Terça-feira, 05/09 - A primeira despedida de muitas que virão

Nos despedimos de nossa primeira família e fomos para nossa segunda. Saí com a mão pintada de Mahendi ( quelas pinturas feitas com henna nas mãos das noivas antes de se casarem) pintada pela amiga da Juy e o meu Bindi (adesivo de testa usado por todas as indianas) me sentindo um pouco parte do país.

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Alice com mão de henna

Ás 11h o Sr. Madhav e sua filha Diviany chegaram para nos buscar.

Já no caminho para sua casa dentro de um Corsa Sedam com ar-condicionado (muito luxo) logo percebemos que iríamos viver outros costumes. Eles uma família mais moderna. O Sr. MAdhav é engenheiro e possui uma firma de computação. A Guita (Gueeta) é ginecologista, uma mulher muito sábia e descolada, envolvida com diversos projetos sociais. Ela irá nos levar para nossa primeira visita social. Não vejo a hora disso acontecer, pois será nossa primeira verdadeira experiência aqui. Diviany é uma jovem de 17 anos também bastante descolada.

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Alice no dia da independência. Foto para recordação!!





Mumbai, Quarta-feira, 06/09 - Nova família, nova vida, novos costumes.

Estamos realmente impressionadas com a maneira que temos sido tratadas por essa nova família. A gentileza, a recepção e a simpatia algumas vezes chegam a assustar, de tão sinceras.

Não sabemos bem o que tem acontecido com nossos corpos, mas parecemos estar sempre cansadas, com olheiras e sono. Talvez sejam as mudanças do clima, a poluição, a comida picante e temperada, os sentimentos conturbadores, enfim, toda essa mudança.

Almoçamos muito bem. Todos aqui são vegetarianos, por isso as comidas são verdadeiras especiarias leguminosas. O mais interessante e intrigante é que as pessoas não usam garfo, ou colher ou faca pra nada. Comem com a mão direita. Não importa o que. Sempre tem um pão típico ou arroz solto cozido sem temperos para acompanhar.

- Lembrando Luiz Nachbin... rajadas de perguntas.

Eu e Renata, como já é de conhecimento de alguns, possuímos o hábito de metralhar as pessoas com perguntas dos mais diversos tipos. Com isso, temos conseguido (além de levar as pessoas a um cansaço extremo) informações simples, mas valiosas em relação aos costumes dos indianos. Claro que um pouco de “cara de pau” também ajuda. Mas quem mais nos tem ajudado são os nossos interlocutores. A conversa com Gueeta e Madhav tem rendido ensinamentos grandiosos, não somente de vida, com suas aguçadas sabedorias orientais, como sobre conhecimentos gerais. Curiosidades em relação ao que vemos e não compreendemos o sentido. Como essas:

- Ramos de flores nos cabelos

Muitas mulheres utilizam um ramo de jasmim feita a mão como um pequeno cordão, pendurado no cabelo. O fazem pois sendo o clima muito quente, o suor é constante e as flores deixam os cabelos cheirosos.

- Anéis nos pés aumenta fecundidade

Todas a mulheres casadas usam anéis no segundo dedo de ambos os pés. Acredita-se que o ponto de duim que os anéis tocam estimulam o ovário e aumentam a fertilidade. Por isso é jóia obrigatória para as mulheres casadas.

- 5m de tecido é a roupa das indianas

O Sari é a vestimenta original das indianas. São 5 metros dos mais belos tecidos indianos, desde a seda até o puro algodão bordado á mão e metodicamente tratado, amarrados á cintura e aos ombros de uma maneira peculiar. Todas usam uma anágua por baixo do seu Sari e uma blusa curta. Não podem mostrar nenhuma parte da perna e nem do colo, o que é considerado indecência. No entanto, uma parte das costas e lateral da cintura, ficam descobertos, sendo que em algumas quase se vê a região da barriga. Contraditório ou não, esse é o costume.

- Curiosidade – carne humana: alimento para os pássaros.

Estamos agora em uma área mais privilegiada da cidade, onde a paisagem ainda é poluída de pedestres, carros e motos, mas descobrimos um outro bairro, digamos ser a Ipanema de Mumbai. Com ruas limpas e civilizadas, o pequeno bairro pertence aos persys que são seguidores da religião Persy, proveniente do Irã. Fomos saber que os persys não possuem deuses, mas seu objeto de veneração é o fogo. Mais curioso ainda é que quando morrem não são cremados ou enterrados como na maioria das religiões. Ao contrário disso, o corpo é levado a uma torre num canto remoto da cidade onde é deixado para que os pássaros comam suas carnes.





Mumbai, Quinta-feira, 07/09 – Uma semana de Índia

Já faz uma semana que chegamos na cidade e o tempo parece passar devagar. Tudo é um trabalho tão grande que pensarmos que estamos apenas na primeira cidade de centenas de outras que precisaremos visitar, nos causa sensações de medo, receio, mas ao mesmo tempo de uma felicidade e curiosidade intrigante.

Um Deus com cabeça de elefante e corpo de homem com 4 braços.
Há 10 dias está acontecendo na cidade a adoração ao Deus Ganesh, um dos mais famosos Deuses Hindus. Ele tem cabeça de elefante e corpo de homem com 4 braços. Significa o Deus da remoção dos obstáculos e da inteligência. Sempre que os hindus estão prestes a realizar alguma nova façanha, rezam para o Deus Ganesh.

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Imagem do Deus Ganesh

Por todos os cantos da cidade foram improvisados templos onde os fies entram para rezar e reverenciar seu Deus, com rituais bastante peculiares. Jogam pós coloridos em sua tromba e lhe dão frutas. Há sempre muita música e vemos pessoas dançando em todos os lugares. Terça será o fim do festival quando culminará o dia mais importante da festa. Após 10 dias de rezas e everenciam, todos os milhões de pessoas da cidade se unem em uma gigantesca passeata, carregando as imagens do Deus, de todos os tamanhos, até o mar, onde os deixam. As estátuas são feitas de um material que dissolve na água, assim terminará o festival, o qual é considerado um dos maiores e mais importantes do país. Nós estaremos aqui para ver tudo.

- Visita a projeto social – ansiedade...

Amanhã visitaremos nosso primeiro projeto social. Estamos muito preocupadas com a repercussão de nosso trabalho no Brasil e principalmente como conseguiremos enviar todos os dados para a atualização do site com as péssimas conexões que temos por aqui. Mas, para todos os problemas há uma solução. Rezaremos para o Deus Ganesh remover mais esse obstáculo do nosso longo caminho.



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