Bangladesh

 

Bangladesh é um país muito difícil de ser definido. Sua complexidade e contradições de valores culturais e religiosos são uma incógnita para qualquer pessoa que se atreva a mergulhar nas interpretações de seus problemas sociais. Um país com números alarmantes, com uma pobreza transparente e cotidiana, mas ao mesmo tempo um país de trabalhadores, de riquezas naturais abundantes e oportunidades econômicas que ainda não foram exploradas. 

Um-retrato-d.jpg Mais novo que a cidade de Brasília e com pouco mais de trinta anos de existência, Bangladesh já é o país mais densamente povoado do mundo. Mais de 140 milhões de pessoas vivem em uma área territorial menor do que o Estado do Ceará e 60% da população vive em zonas rurais e encontra-se abaixo da linha da pobreza, ou seja, vivendo com menos de U$ 1 por dia. O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país está entre os 100 piores do mundo. Na 139º posição do ranking, Bangladesh apresenta uma qualificação pior do que a República do Congo e Sudão, na África. 

 

As-enchentes.jpg A densidade rural é um agravante no país onde mais de 900 pessoas dividem um km2 , devastando a vegetação em busca de auto-sustento. Como resultado as enchentes tornaram-se freqüentes e os ciclones, que também são comuns no país, estão acabando por exterminar centenas de milhares de pessoas todos os anos. 

A superpopulação também está causando a expansão de doenças como a Aids no país. A taxa de infectados em Bangladesh ainda é muito baixa se comparada a países com a África do Sul e o Brasil, porém o alto consumo de drogas injetáveis, o homo-sexualismo, a prostituição e violência sexual estão colocando o país em estado de alerta de uma devastação epidêmica. No ano passado 0,4% da população estava infectada e esse número saltou rapidamente para 4% em 12 meses.  

Mulheres-em-.jpg Um dos maiores países muçulmanos da Ásia, Bangladesh convive com um fanatismo religioso que coloca em risco seu desenvolvimento econômico e gera problemas sociais gravíssimos, como a discriminação e violência contra a mulher.  

A língua oficial do país é o bengali, uma evolução do sânscrito, mas menos da metade da população não sabe ler e escrever o idioma. A taxa de analfabetismo do país é de 66% da população e as crianças de Bangladesh deixam de freqüentar as escolas para trabalhem e ajudarem na renda familiar. Mesmo com esforços do governo e de organismos internacionais, o trabalho infantil no país é uma realidade. Essa-crianca.jpg Nas ruas é possível ver menores trabalhando nas vendas, fazendo carregamento de mercadorias, são empregados em casas de famílias e nas áreas rurais a situação é ainda mais grave. 

A desnutrição e a fome também fazem parte da lista de desafios sociais de Bangladesh. Com uma alimentação pobre e à base de arroz, também considerado produto de exportação do país, a população enfrenta graves problemas de saúde e o principal deles é a diabete.  

 

Industria-Te.jpg A economia do país se sustenta na indústria têxtil, principal produto de exportação e a maior fonte urbana empregadora de Bangladesh. Grandes marcas internacionais, principalmente americanas e européias, manufaturam os seus produtos aqui, atraídos pela mão de obra barata e farta do país. Mas ainda assim, Bangladesh continua muito dependente de ajuda econômica externa e em 2002, por exemplo, cerca de 1,5 bilhão foram investidos no país. 

Uma boa notícia econômica vem de estudos mostrando que as reservas de gás natural descobertas no país em 1999 são muito maiores do que se imaginava. Mas há um impasse, pois o governo não concorda que o gás natural seja exportado para a Índia, maior mercado potencial para as empresas interessadas na exploração do combustível. 

Bangladesh convive com um sistema político interesseiro, ineficiente e inescrupuloso que o coloca do topo do ranking dos países mais corruptos do mundo. Por três anos consecutivos mantém o primeiro lugar da pesquisa realizada pela ONG Transparência Internacional (TI). Além do alto escalão político e dos serviços públicos administrativos, que são os maiores responsáveis pela corrupção, a polícia de Bangladesh, em especial, está envolvida com escândalos de abuso sexual de menores e prostitutas no país. 

Uma história marcada por injustiças, jogo de interesses e matanças
Bangladesh tem por trás de seus 30 anos de existência uma história marcada por injustiças, isolamento, conflitos religiosos e um holocausto.
 

O território que hoje compreende o país foi parte da Índia até 1947, depois passou a ser Paquistão e desde a independência, em 1971, tornou-se uma república popular parlamentarista independente, intitulada Bangladesh. 

O islamismo chegou à região da antiga Bengal ainda no século XII, durante o império Mongol. No século XVIII, com a invasão dos britânicos, a região foi anexada à Índia com o nome de Bengal Oriental, e neste período, apesar do convívio com os hinduístas indianos, a comunidade muçulmana manteve sua identidade. 

Em 1947, sob pressão de movimentos nacionalistas hindus e muçulmanos, a Inglaterra partilhou o sub-continente indiano em dois países: a Índia hinduísta e o Paquistão islâmico. O território que hoje é Bangladesh foi incorporado pelo Paquistão e recebeu o nome de Paquistão Oriental, ficando separado do resto do país por 1,6 mil km de território indiano. 

Mesmo o oriente sendo a parte mais populosa, o poder do Paquistão ficou na parte Ocidental, colocando os bengaleses num isolamento político que durou 26 anos. Durante este período o Paquistão Ocidental se enriqueceu e desenvolveu-se a custa dos rendimentos providos do Paquistão Oriental, que se enfraquecia economicamente com a injustiça.  

O descontentamento explodiu em 1954, quando o urdu foi declarado idioma oficial do Paquistão, em detrimento do bengali, falado na parte oriental. Mas em 1955, depois de uma onda de protestos, o bengali também foi reconhecido igualmente como língua oficial e as duas partes do país passaram a ter o mesmo número de representantes na Assembléia Nacional.  

Mas em 1970, a Liga Awami, que era defensora de maior autonomia para o Paquistão Oriental, fortaleceu-se com a conquista de 167 das 313 cadeiras na Assembléia Nacional, nas primeiras eleições legislativas que abrangeu todo o país. Para impedir que seu líder, o xeque Mujibur Rahman, se tornasse primeiro-ministro, o presidente paquistanês (do ocidente), general Yahya Khan, fechou o Parlamento e enviou em revolta o exército nacional para esmagar o movimento separatista e prender o líder Mujib como traidor.  

Entretanto, no dia 26 de março de 1971, o xeque Mujib proclamou em uma cadeia de rádio a independência do Paquistão Oriental, com o novo nome de Bangladesh. Forças militares do governo paquistanês reagiram violentamente à proclamação, iniciando uma guerra civil que durou 9 meses e matou mais de 3 milhões de bengaleses num holocausto histórico e mundialmente acompanhado. De um lado os Estados Unidos apoiaram o Paquistão ocidental, interessados em suas riquezas petrolíferas, de outro a Rússia, que protegeu o Paquistão oriental em mais um episodio da Guerra Fria. 

Em apoio ao novo país, o governo indiano também declarou guerra ao Paquistão, que se rendeu em dezembro do mesmo ano. No ano seguinte, em 1972, Mujib tornou-se primeiro-ministro mas logo foi assassinado em um golpe de Estado. 

Após vários governos militares, somente em 1991 o país tornou-se uma república democrática. 

Os resquícios sociais da história
Homem-Bihari.jpg Durante o processo de repartição da Índia e Paquistão na independência da Inglaterra em 1947, milhões de famílias foram divididas, propriedades perdidas, casas destruídas e 20 milhões de pessoas ficaram despatriadas. Neste grupo se inclui os Biharis, originalmente indianos muçulmanos da região onde fica hoje o Estado de Bihar, no norte da Índia, que na divisão territorial, migraram para o Paquistão Oriental. Mas, diferente dos muçulmanos do lado oriental, os Biharis falavam urdu, a língua falada pelos muçulmanos do Paquistão Ocidental.
 

Com o processo de independência de Bangladesh do Paquistão, os Biharis, considerados pelos bengaleses como "simpatizantes do Paquistão", pediram para migrar para o lado ocidental. Muitos conseguiram, porém a maior parte deles, sem condições financeiras e sem receber ajuda, foram obrigados a ficar no país. 

A animosidade entre os Biharis e Bengaleses se tornou ainda maior depois da independência e os conflitos eram freqüentes entre os dois grupos. Com isso, os Biharis foram aos poucos abandonando suas casas e indo para campos de refugiados, na intenção de se protegerem contra os preconceitos sociais que estavam vivendo. A mudança era para ser temporária porque os Biharis acreditavam que iam conseguir ir para o Paquistão, mas os anos foram se passando e eles continuam em Bangladesh, abandonados, desprovidos de direitos e à margem da sociedade. Por outro lado, os paquistaneses reconhecem os Biharis como seus nacionais mas não fazem nenhum esforço para repatriá-los. 

Campo-de-ref.jpg Os Biharis estão vivendo nos campos de refugiados "temporários" por 27 anos à espera de uma solução. Não são considerados cidadãos bengaleses, nem paquistaneses, e muito menos indianos. Ironicamente os Biharis também não são refugiados, mas vivem como tais.  

Sem cidadania protegida, sem direitos políticos, sem benefícios sociais e oportunidades de trabalho, eles formam uma comunidade de quase 3 milhões de pessoas que vivem em 66 "campos de refugiados" em Bangladesh.  


Visita a um campo de refugiados
Nossa-visita.jpg Tivemos a oportunidade de visitar um campo de refugiados Biharis em Dhaka, capital de Bangladesh, e fomos surpreendidas com um quadro de desvalorização humana que beira a crueldade, fruto do descaso e desrespeito.
 

Cerca de 1500 famílias vivem amontoadas em uma área um pouco maior que o campo do Estádio Maracanã. Famílias com até 12 membros dividem o barraco com apenas um único cômodo. As casas não possuem banheiros e não existe saneamento básico no campo. Duas latrinas foram construídas pela comunidade para atender as 15 mil pessoas que lá vivem. 

 

Familias-int.jpg O governo de Bangladesh provê água somente de meia-noite às 6 da manhã e durante o dia ela é cortada. Não existe energia elétrica e as pessoas cozinham usando carvão em fogareiros improvisados.  

 

Tecelagem-e-.jpg O meio de sustento das pessoas é a tecelagem, que são sub-contratadas clandestinamente por grandes empresas têxteis a um custo de mão de obra desleal. O trabalho infantil também é um problema. Meninas de 8 anos trabalham bordando tecidos o dia inteiro e ao final do mês recebem R$ 20 pelo serviço. Os Biharis são analfabetos e as crianças não são aceitas nas escolas do governo.  

Pessoas-sem-.jpg Os Biharis não possuem documentos, não votam, não têm direito a hospitais públicos, segurança e educação, não podem adquirir propriedades em Bangladesh, não podem ser empregados em repartições públicas e muitas empresas privadas não os recrutam por não terem registros. Os Biharis não fazem parte das estatísticas e sensos de país nenhum, não possuem nacionalidade e a nova geração nem sequer certidão de nascimento tem. Os Biharis não existem para Bangladesh e nem para o Paquistão. Os Biharis estão esquecidos e o pior, estão ignorados enquanto seres humanos. 

Bangladesh, um país de trabalhadores 

Vídeo: Empresa Têxtil em Bangladesh ( video fabric.MPG ) 

Trinta-mil-t.jpg Durante a nossa visita ao país estivemos na maior indústria têxtil de Bangladesh, onde pudemos constatar as razões pelas quais centenas de empresas estrangeiras estão de olho no país: a mão de obra barata, numerosa e trabalhadora existente.  

A Sinhá Textile, do Grupo Opex, uma empresa 100% de capital nacional do país, emprega 30 mil trabalhadores em uma indústria de fabricação de tecidos e roupas que exporta para grandes companhias americanas e européias como a Nike, Gap e Wal Mart.  

Na indústria, homens e mulheres trabalham 6 dias por semana numa jornada de 10 horas diárias e ao fim do mês são remunerados com um salário médio de R$ 120, que corresponde à metade do salário mínimo no Brasil. 

Mao-sw-obra-.jpg Essa é a realidade da maioria das empresas de grande e médio porte de Bangladesh, que seguem a legislação trabalhista do país, cumprem as exigências internacionais de mercado, não empregando crianças por exemplo, e oferecem benefícios aos seus funcionários através de políticas de responsabilidade social que adotam. 

Saímos de lá pensando em como seria a realidades de milhões de trabalhadores empregados em outras centenas de empresas de menor porte que não remuneram devidamente, desrespeitam as normas de trabalho e descumprem os padrões mínimos exigidos pela Organização Internacional do Trabalho. 

Islamismo, uma religião de valores questionáveis
Mais de 89% da população de Bangladesh são seguidores do islamismo, a religião que acredita nos ensinamentos de Maomé, contidos no livro sagrado islâmico, o Alcorão. Fundado na região da atual Arábia Saudita, o islamismo é a segunda maior religião do mundo. Perde apenas para o cristianismo em número de adeptos.
 

A vida religiosa do muçulmano tem práticas definidas pela Sharia, o caminho que o muçulmano deve seguir na vida. A Sharia define normas de conduta, comportamento e valores que influenciam a vida social dos adeptos e no caso de nações, influenciam leis e costumes. 

Além disso, os muçulmanos devem respeitar e seguir os cindo pilares da religião que são: acreditar que existe um só Deus e ele é Alá, realizar as cinco orações diárias ajoelhados em direção a Meca, fazer caridades em dinheiro, cumprir o jejum completo do Ramadã e por fim, fazer a peregrinação a Meca pelo menos uma vez na vida. Neste caso abre-se exceção para os que não possuem capacidades físicas e econômicas para fazer.

A esses cinco pilares, a seita khawarij adicionou o jihad. Traduzido comumente como Guerra Santa, significa a batalha para reformar o mundo, um dos objetivos do Islamismo, onde é permitido o uso dos exércitos nacionais como meio de difundir os princípios do islã.
 

Em Bangladesh é possível sentir os efeitos dos preceitos do islamismo na vida cotidiana das pessoas, em suas condutas e crenças pessoais e no comportamento social e político do país. As pessoas respeitam e cumprem fielmente as orações diárias, as mulheres têm seu papel social esvaziado pela crença religiosa e as leis do país para direito de família se reportam aos ensinamentos do Alcorão, mas existe uma forte contradição em tudo o que se prega. 

Mulheres são obrigadas a respeitar o purdah, a tradição islâmica de reclusão feminina, mas muitos homens das regiões rurais, por exemplo, oferecem suas mulheres para outros parceiros em troca de remuneração; a prostituição no país apresenta números bastante expressivos e casos de estupro e violência contra a mulher cresce a cada dia. Bebida alcoólica é proibida pela religião mas o número de viciados em drogas injetáveis é um caso preocupante que está chamando a atenção de diversas organizações internacionais que trabalham com os grupos vulneráveis de transmissão e contaminação da Aids. 

Mulheres muçulmanas
A miséria e o fanatismo religioso do país às vezes tentam esconder, mas Bangladesh está se tornando um exemplo de luta pelos direitos da mulher.
Os números confirmam a contradição. Hoje mais de 95% da força de trabalho nas indústrias têxteis do país são mulheres. A primeira-ministra do país é uma mulher, Sheikh Hasina, e ela está implementando a duras resistências, leis de incentivo para educação de mulheres e rígidas penas para conter a violência feminina no país, que é recheado de histórias e casos trágicos.
 

Todos os anos centenas de mulheres morrem e outras mil são violentadas, a maioria delas porque o seu dote era menor do que o esperado pelo marido.  

Um crime em especial vem preocupando as autoridades: ataques com ácido. Os ataques mais freqüentes vêm de maridos e homens rejeitados que jogam ácido nítrico ou sulfúrico no rosto da mulher para desconfigurar suas feições e condená-la fisicamente pelo comportamento considerado desapropriado religiosamente.  

No ano passado 485 casos foram registrados, o que significa um aumento de 50% em relação a 2002. Diversas organizações de proteção à mulher estão engajadas em reverter essa situação. A "Fundação das Sobreviventes do Ácido" em relato na web, afirmou que as vítimas da violência ficam eternamente dependentes da família e que muitas delas nem saem mais de casa por vergonha e outras passam a usar burca para sempre. 

Ramadã, o jejum do sacrifício
Nós tivemos a sorte de estar em Bangladesh durante o nono mês lunar do ano islâmico, quando os muçulmanos fazem o Ramadã, o jejum que celebra a revelação do Alcorão a Maomé e comemora sua primeira vitória militar contra Meca.
 

Durante 29 dias ininterruptos, do amanhecer ao pôr-do-sol, o muçulmano não podem comer, beber ou fumar, embora trabalhem normalmente. Mas as restrições não são mantidas durante as noites, quando as ruas se enchem de pessoas que comemoram alegremente a revelação feita a seu profeta. 

Um país palco de catástrofes naturais
O pais inund.jpg Cerca de 90% do território de Bangladesh está a menos de 10 metros acima do nível do mar e por isso o país sofre com freqüentes inundações que provocam enormes prejuízos e mortes. Além disso, Bangladesh é alvo dos ciclones, que fazem grandes estragos em toda a costa do país.
 

Em 1991 Bangladesh sofreu uma das maiores catástrofes naturais do século XX, causada por um ciclone, que matou 250 mil pessoas e provocou enormes danos materiais. Em setembro de 1998, o país foi assolado por uma enchente que matou 1,5 mil pessoas e atingiu 60% da superfície de Bangladesh. Novas inundações em 2003 provocaram centenas de mortes e mais de 1 milhão de pessoas ficaram desabrigadas.  

Nossa pesquisa social em busca de iniciativas sociais
Apesar da fragilidade social de Bangladesh, uma experiência nascida no país tornou-se referência internacional. Trata-se do Grameen Bank, o "Banco do Povo", que desde 1976 está concedendo créditos à população mais pobre, principalmente mulheres, e esse foi o motivo da nossa visita ao país. Veja a matéria.
 


 




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