Uma viagem no deserto revela surpresas

Militares-do.jpg Numa mistura de aventura, desbravamento e imersão social, percorremos por dois dias o deserto do Thar, a 70 quilômetros de Jaisalmer, no norte da Índia. Pela proximidade com o vizinho Paquistão, Jaisalmer foi palco de uma disputa entre indianos e indo-paquistanes em 1947, data da Independência do país, e ainda nos dias de hoje a região é considerada delicada entre os dois países rivais. 

 

Base-militar.jpg A Índia possui uma estratégica base militar do exército no deserto, nas cercanias do Forte de Jaisalmer. Na região é comum encontrar soldados armados em revista, carros tanques e outras ornamentarias bélicas. 

 

 

Jaisalmer-01.jpg Jaisalmer, a Cidade Dourada
Jaisalmer é uma fortaleza dourada no meio do deserto e sua beleza e originalidade te transpõem para um outro tempo, a idade média oriental. Jaisalmer foi séculos atrás uma cidade estratégica para o comércio de camelos entre a Índia e a Ásia Central. Os comerciantes construíram naquele tempo magníficas mansões, chamadas de havelis, todas trabalhadas em madeira e pedras amarelas e douradas, que são as responsáveis pelo aspecto exótico da arquitetura do lugar.
 

 

Índia e Paquistão, uma história de disputas 

A região atual da Índia e Paquistão foi coabitada por diferentes religiões no decorrer da história. Em 1500 a.C., os arianos invadiram a região implantando o sistema de castas e o hinduísmo. No século III a.C, a região indiana passou a sofrer influência do budismo e no VIII os árabes invadiram o vale do Indo, trazendo a influência do Islamismo para o território. A partir de então, tornou-se visível a disputa entre muçulmanos e hindus pelo controle da Índia. 

Uma-disputa-.jpg Para completar, o território indiano passou a sofrer influência do Ocidente no final do século XV, quando os portugueses chegaram a Calicute e a Inglaterra assumiu o controle da Índia no século XVIII depois de uma guerra contra os franceses, eliminando outras pretensões estrangeiras na região.  

 

Em síntese, a Índia tornou-se uma colônia britânica do século XVII (fundação de Calcutá pelos Ingleses - 1690) até o fim da 2ª guerra mundial (1945), quando se iniciou com mais força o processo de descolonização. Em 1947, a região indiana foi dividida em dois países independentes para "solucionar" os problemas religiosos. De um lado foi criado o Paquistão, país de maioria muçulmana, de outro a Índia, nação majoritária hindu.  

A divisão do território em dois países causou a morte de aproximadamente 200 mil pessoas, devido aos deslocamentos e aos choques entre hindus e muçulmanos.  

deserto-do-T.jpg Uma viagem pelo deserto
Tivemos que planejar essa viagem com todo o cuidado porque a região não tinha nenhuma estrutura e era uma viagem de risco pela localização estratégica do deserto. Montadas em camelos enormes, passamos dois dias isoladas percorrendo regiões e comunidades remotas da região.
 

Conhecemos um colombiano chamado Alexandro que está realizando um estudo para uma Universidade da Holanda (Roterdam) em comunidades isoladas, onde pretende desenvolver projetos de auto-sustentabilidade de vilas em aéreas sem infra-estruturas de educação, moradia e comunicação principalmente. Nos juntamos a ele nessa viagem e fomos em busca de histórias sociais, de idéias e projetos possíveis. 

Encontramos uma região desértica com pequenas comunidades pinceladas em grupos pequenos, muitos distantes umas das outras. A fonte de renda dos moradores se abstinha a agricultura de uma espécie de melancia, que é cultivada na época das mansões, o período de chuva na Índia, e artesanatos locais, que são vendidos em grandes centros de comércio, como Jaisalmer, Jodhpur e Udaipur.  

Video: Deserto ( Deserto.MPG ) 

As casas são feitas de barro e lembram muito a arquitetura do sertão nordestino. Nessa época do ano é possível encontrar água nos poços artesanalmente construídos pelos habitantes, mas no verão, quando a temperatura chega a 50 graus, as pessoas migram do deserto para grandes centros urbanos, onde conseguem trabalhos informais, e o principal destino é Nova Dehli.  

Não encontramos escolas com freqüência e a maioria da população é iletrada. O meio de transporte dos habitantes é o camelo, que também é considerado uma fonte de renda local. Cada animal custa em média U$ 150 e são comercializados em grandes feiras no deserto. Em média um camelo vive entre 25 e 30 anos e as fêmeas parem uma média de 3 a 4 camelos em vida, o que garante a rentabilidade do negócio. Na maioria dos casos, este negócio é herança de família. 

Com-crianças.jpg Um outro aspecto é que a maioria dos habitantes do deserto são muçulmanos, o que é explicado pela influência da proximidade com o Paquistão e as pessoas possuem fisionomias mistas, fruto da mistura de persas com hindus. O idioma local é o Urdu, um dos 15 dialetos oficiais da Índia. 

Pelas vilas em que passamos não encontramos nenhum trabalho de projetos sociais, o que nos fez pensar que a pesquisa do colombiano de desenvolvimento de comunidades isoladas tem fundamento e campo de atuação vasto. Mas ainda mais importante do que isso, é preciso estudar uma maneira de ajudar socialmente essas pessoas sem agredir seus costumes e tradições. Esse é o ponto chave do trabalho dele, que tivemos o prazer de acompanhar nesses dois dias no deserto.  

desertosol-e.jpg Nossa rotina no deserto
Começamos a viajar no domingo bem cedo. Pegamos um Jipe e percorremos 70 km até chegar na primeira vila da nossa jornada, onde tomamos café e pegamos os camelos. Por duas horas viajamos montadas no animal e quando o Sol começou a ficar muito forte paramos na sombra de uma árvore para comer e descansar um pouco até que o calor diminuísse.
 

Por-do-sol-n.jpg Por volta das 16 horas voltamos a viajar e percorremos mais cerca de 20 km onde começamos a fazer as visitas nas vilas. Por volta das 18 horas, quando o Sol estava se pondo, paramos nas dunas para completá-lo e ali decidimos passar a noite.  

 

Improvisamos uma fogueira e comemos um jantarzinho bem gostoso, com direito a areia e tudo. Estendemos nossos sleep bags na areia e ficamos esperando o nascer da lua, que para a nossa surpresa estava cheia. 

Dormindo-ao-.jpg Um espetáculo natural emocionante. Dormimos ao relento, olhando para o céu e vendo estrelas cadentes. Acordamos na segunda-feira com o nascer do Sol e logo nos preparamos para seguir caminho e pela manhã paramos em outras vilas.  

 

Camelos-tamb.jpg Quando o Sol estava a pino paramos novamente para dar água aos camelos e descansar um pouco. O calor e o clima do deserto cansam muito e a tarde seguimos viagem, dessa vez em uma rota sem parada, porque precisamos alcançar a vila onde o carro nos buscaria antes do anoitecer.  

 

 

Chegamos ao final da expedição desértica destruídas fisicamente, mas com o espírito e a alma renovados. Tínhamos espinhos em todas as partes do nosso corpo e nossas coisas estavam cheias de areia, mas nossas cabeças estavam fervilhando de aspirações.  


 




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