Vietnã

Espirito-de-.jpg O Vietnã se tornou internacionalmente conhecido por suas guerras em busca de independência e liberdade. Agora, 28 anos depois do fim dos conflitos, o país vem chamando a atenção do Ocidente pela maneira obstinada e bem-sucedida com que busca o crescimento econômico e a redução de suas mazelas sociais mais graves. 

Com o espírito de luta que venceu os colonialistas franceses que queriam dominar a Indochina em 1954, e logo depois os Estados Unidos em 1975, que atacaram o país para combater a expansão do socialismo, o povo vietnamita está mobilizado com a mesma energia revolucionária, com o mesmo elã, com o mesmo patriotismo e com a mesma inspiração comunista que tinha no passado para a construção econômica e social do país. 

Durante quinze dias da nossa jornada nos dedicamos a conhecer o Vietnã e alguns dos seus casos sociais mais impressionantes. Num trabalho de apuração quase investigativo, estivemos com órgãos governamentais do Partido Comunista, com a ONU, com entidades internacionais não governamentais como a Ford Foudation e a Care Foudation, com entidades sociais locais e com a Embaixada Brasileira em Hanói. A multiplicidade de visões dessas instituições com focos de trabalho diferentes e complementares, nos ajudaram a absorver um conhecimento amplo e realista da situação econômica, política, social e cultural do Vietnã, que temos o prazer de dividir com vocês nos relatos abaixo. 

Mais de trinta anos de guerra 

30-anos-de-g.jpg Para compreender o Vietnã é preciso levar em conta que ele passou, desde os anos 40 até a metade dos anos 70, um processo muito tumultuado de conflitos e guerras. Teve sua libertação nacional, sua primeira revolução, em 1945, mas o novo poder revolucionário não conseguiu generalizar-se por todo o país porque os colonialistas franceses voltaram a ocupar o Vietnã. Somente em 1954 os vietnamitas conseguiram afastar os franceses, tendo a frente o líder Ho Chi Min, que era o presidente do Partido Comunista na época. 

Mais o país ficou dividido em dois. O Vietnã do Norte, sob a hegemonia do PC e o Vietnã do Sul, sob a hegemonia de um governo capitalista e títere a serviço dos interesses do imperialismo. Nos anos 60 os americanos invadiram o Vietnã e o país viveu uma guerra sangrenta durante nove anos, que terminou somente em 1975, culminando na reunificação do país sobre o poder do Partido Comunista. 

Vietna-Comun.jpg O total de vítimas da Guerra do Vietnã (1964 a 1975) é impreciso, oscilando entre 1 milhão e meio a dois milhões de vietnamitas mortos, entre civis e militares, que de certa forma significavam a mesma coisa, pois o povo era quem compunha o exército da guerra. Parte considerável da população economicamente ativa do país morreu durante a guerra e essa situação fez com que o Vietnã estagnasse economicamente após o termino do longo conflito.  

Quando os vietnamitas começaram a construir o socialismo no país unificado, primeiramente eles optaram pelo velho modelo soviético que, por não levar em conta as peculiaridades e as realidades nacionais, fracassou. O país então entrou numa crise econômica que agravou ainda mais sua situação social. Em 1987 o Vietnã enfrentava uma inflação de quase 700%, uma grande carência no abastecimento de mercadorias e artigos de primeira necessidade como o arroz, por exemplo, estavam sendo importados. Além disso, o país só mantinha relações com países socialistas e sofria o bloqueio dos países capitalistas, sob imposição dos EUA. 

Reformas-pol.jpg Ao período de guerra seguiu-se um período de severa crise econômica da qual o Vietnã só começou a escapar na final da década de 80, quando o governo, inspirado pela URSS e China, implantou uma série de reformas liberalizantes no país, incluindo a abertura para o mercado. Os resultados vieram rapidamente.  

Em dois anos o país conseguiu reduzir pela metade a inflação e hoje ela é menor que 3% ao ano, o crescimento do PIB que ficava em torno de 4% hoje é comemorado com mais de 7% ao ano. De um importador de arroz o Vietnã passou a ser o segundo maior exportador do cereal do mundo e também é um grande concorrente do Brasil no mercado de exportação de café (em 2002 ganhou o segundo lugar no ranking mundial da Colômbia) e os seus números sociais também foram beneficiados com a nova política. 

A condição de vida da população, incluindo as que vivem nas montanhas isoladas e remotas do país, melhorou consideravelmente. A porcentagem de pessoas que viviam abaixo da linha da pobreza, ou seja, com menos de U$ 1 por dia, caiu de 60% em 1990 para 20% em 2003. A quantidade de pessoas que sofriam de fome também caiu dramaticamente de 30% em 1990 para 15% nos últimos anos.  

Os efeitos da redução da pobreza também refletiram no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, que o elevou para a posição 109º, estando a frente de países como a África do Sul e Egito. Como conseqüência, o número de crianças matriculadas no ensino fundamental saltou de 87% para 92% em cinco anos, mantendo a baixa porcentagem de analfabetismo no país, que não ultrapassa a 7% da população. Os números de desnutrição em crianças com menos de 5 anos também foram reduzidos da 1/2 para 1/3.  

Para um país colonial e por muitos anos semi-feudal, que durante décadas se fechou política e economicamente e foi tratado como periférico na Ásia por não jogar nenhum papel de maior importância na economia da região, os avanços são espetaculares.  

Um importante fator que contribui para tamanho progresso foi a política externa independente adotada pelo país na década de 90. Hoje o Vietnã não só saiu da crise econômica, como rompeu o bloqueio, promovendo maior abertura para o exterior e estabelecendo relações com muitos países. O Vietnã tem hoje relações diplomáticas com 170 países e relações comerciais e econômicas com 120 países, incluindo os Estados Unidos. 

O Vietnã esta tentando passar à construção do socialismo num cenário em que o regime ruiu na maior parte dos países onde foi construído. O socialismo hoje se resume no Vietnã, Coréia do Norte, China, Laos e Cuba. 

Mas as vitórias vêm acompanhando o destino do país. 

 

 

As ONG 

Com a abertura externa o número de organizações não governamentais internacionais triplicou no país, o que as fazem também co-responsáveis pelo progresso social vivido pelo Vietnã nas últimas duas décadas. Hoje mais de 500 ONG investem cerca de U$ 80 milhões por ano em mais de 16 mil projetos de desenvolvimento econômico, educação, saúde, prevenção à AIDS e proteção contra catástrofes naturais, comuns no país. 

Reuniao-no-P.jpg O papel das organizações não governamentais é tão grande no Vietnã que o governo criou em 1989 o PACCOM, uma agência reguladora e assistencialista que presta assessoria às entidades sociais no país. Além de conhecer os projetos em andamento, o governo também exerce total controle dos investimentos feitos e os regulamenta e direciona segundo seus princípios. Essa é mais uma prova de como o Partido Comunista têm acesso e controle a todas as instâncias no país. (Veja a matéria). 

Mais além das reformas políticas e das organizações não-governamentais, a reforma agrária realizada no final da década de 80 foi a principal razão para a redução tão drástica dos números de pobreza no país. Com uma população majoritária rural (80%), a reforma agrária era uma necessidade emergencial para o combate a fome principalmente. 

plantacoes-d.jpg A transferência de terras em forma de 'direito de uso' de grandes cooperativas para pequenas famílias de agricultores combinada a desregulamentação, investimentos em tecnologia agrária, diversificação de cultivos e importação de insumos ocasionaram um boom da produção agrícola do país e melhorou consideravelmente o padrão de vida das pessoas nas áreas rurais. 

Igualmente importante, o número de investimentos estrangeiros que recebe vem desempenhando um grandioso papel no desenvolvimento do país. Por ano mais de 1,5 bilhão são injetados, e outros 1 bilhão deixam de ser aplicados por falta de projetos, excesso de burocracia política e jogo de interesses. O Vietnã é o país que mais recebe investimentos do ODA - Official Development Aid, no mundo, é o segundo principal destino dos investimentos do Banco Mundial e além disso, o governo no Japão envia cerca de U$ 700 milhões por ano ao Vietnã.  

Youth-Union.jpg O sentimento de culpa mundial pela guerra, somado a potencialidade de sua população jovem e ativa, além da posição estratégia com o gigante Chinês, tem atraído investimentos bilionários de partes diferentes do mundo que pelos volumes grandiosos, o governo vietnamita não sabe o que fazer com tantos recursos e parte do dinheiro deixa de ser aplicado, inutilmente. A Austrália tem desenvolvido um projeto para ensinar o governo a aproveitar melhor os recursos em projetos de eficiência sustentáveis e dessa forma, otimizar seu desenvolvimento. 

Densidade-de.jpg Desde que resolveu se abrir economicamente há pouco mais de 15 anos, o Vietnã vem chamando a atenção dos vizinhos no sudeste asiático. O vizinho Laos é uma prova disso. O país, também de economia socialista, vem adotando as mesmas medidas políticas do Vietnã e espera alcançar os mesmo êxitos sociais no país.  

Mas o Vietnã ainda não pode comemorar. O país ainda é considerado muito pobre e depende do capital estrangeiro para manter as suas reformas. Com uma população densa, tendo em um território um pouco menor do que o Maranhão, cerca de 80 milhões de habitantes (o Estado nordestino tem cerca de 6 milhões de habitantes), seu PIB per capita ainda é de cerca de um quinto do brasileiro - miserável, portanto.  

Por outro lado, alguns especialistas suspeitam que o PIB per capita do país já esteja próximo a U$ 700, mas que oficialmente não pode ser contabilizado. Por questões culturais, os vietnamitas têm o costume de manterem as suas reservas financeiras em casa, o que desfavorece os indicadores financeiros do país.  

comercio-de-.jpg Mas a renda da população é em geral muito baixa. Os funcionários públicos recebem um salário médio de U$ 18 dólares mensais e não existe teto mínimo no país. A economia informal é uma realidade e nas grandes cidades, como Hanói, por exemplo, o comércio de rua ambulante está por toda a parte. Desde frutas e pão a relógios e DVD falsificados, tudo está disponível para a compra. A ausência de um preço fixo para as mercadorias também é uma peculiaridade do país. As mercadorias são comercializadas sem preço e o seu valor varia de comprador para comprador. Se a pessoa é provinciana, ou da cidade ou mesmo estrangeiro o preço muda substancialmente de um para outro, chegando a ser em certos casos 100% mais caros. 

A educação e treinamento profissional no país ainda estão abaixo das necessidades, especialmente em termos de qualidade. Um terço das crianças não terminam a 5º série e as meninas representam 70% da evasão escolar, que tradicionalmente abandonam os estudos para ajudar a família em casa. Um terço das crianças do Vietnã também estão desnutridas.  

As-minorias-.jpg A qualidade de vida das pessoas pertencentes às minorias étnicas, e que ironicamente representam pouco menos de 20% da população do país, ainda é muito baixa. Vivendo isolados nas montanhas no norte e centro do país em áreas remotas e de difícil acesso, 54 etnias diferentes representam mais de 30% dos pobres no Vietnã e 75% deles encontram-se abaixo da linha da pobreza, sem acesso à água potável, saúde, eletricidade e em áreas para agricultura muito deficientes onde constantemente sofrem com calamidades que acabam por piorar ainda mais a condição de vida dessas pessoas. 

Os impactos dos programas do governo para a redução da pobreza atravessou um número razoável de pessoas para acima da linha da pobreza, mas o próprio governo garante a venerabilidade desse grupo diante das mudanças econômicas do país, e muitos deles já tiveram recaídas expressivas, o que coloca em questão a sustentabilidade das ações sociais que estão sendo adotadas. 

As desvantagens capitalistas 

Quando se introduzem mecanismos de economia de mercado, obviamente surgem disparidades econômicas que resultam em problemas sociais "capitalistas" como a prostituição, drogas, contra-bando, HIV, êxodo urbano e desemprego, desafios que o país hoje precisa enfrentar.  

Em-campanha-.jpg Os casos de HIV/ Aids no Vietnã explodiram rapidamente. Na última pesquisa realizada pelo governo em outubro de 2002, cerca de 55 mil pessoas estavam infectadas e 4 mil já haviam morrido da doença. E os números mostraram que metade dos infectados pertencia ao grupo de 20-29 anos de idade. Se levarmos em conta que 70% da população do Vietnã tem menos de 30 anos, os números são muito preocupantes. Estima-se que em 2005 mais de 160 mil jovens estarão infectados pelo HIV e pelos cálculos de especializadas da doença, cerca de 50 jovens são infectados todos os dias no Vietnã.  

A prostituição e o número de viciados em drogas injetáveis são os principais responsáveis pela transmissão do vírus no país, apesar de serem ambos fortemente reprimidos pelas leis do Partido Comunista. Em todas as 64 províncias do Vietnã existem casos da doença registrados e diversas organizações não-governamentais estão implantando projetos para a erradicação do vírus. Durante a nossa estadia no país participamos do Dia do Voluntário da ONU onde pudemos ver o trabalho dessas instituições para o combate a Aids (Veja a materia). 

O Vietnã também libera a lista dos países em número de abortos, apesar de também ser condenado pelas leis do país. O governo vem investindo largos recursos para criar condições de saúde mais decentes para mulheres e crianças, na intenção de melhorar as taxas de natalidade e diminuir os casos de mortalidade infantil no país. 

Constrates-d.jpg Os contrastes criados por um sistema político fechado e por uma economia mais aberta levantam questões sobre a sustentabilidade do modelo socialista de mercado. O controle que o governo vietnamita exerce na população vai muito além da esfera política. Ele controla toda a produção jornalística e os servidores de acesso à Internet são obrigados a instalar filtros que proíbem o acesso a sites de políticas neoliberais, movimentos anti-socialistas, pornografia, dentre outros assuntos do gênero. Mesmo com uma população muito pequena que tem acesso ao mundo da Internet, apenas 2,5% , o comportamento do governo não deixa de ser uma censura. 

Por tradição de muitas décadas, a população vietnamita é bastante politizada e socialmente organizada em entidades de massa, cuja união e determinação os fizeram vencer as muitas guerras pelas quais lutaram. De uma integridade social invejável a qualquer país, o governo se beneficia dessa "harmonia" com a qual cria elos de interesses quando necessita. São organizações de jovens, mulheres, agricultores, veteranos e são poucos os vietnamitas que não são ativistas em algum desses grupos (Vejar matéria). 

Socialmente falando, é impossível pensar em êxito econômico no país sem uma afiliação ao Partido Comunista. A não-afiliação muitas vezes gera descriminação social e oportunidades menores no país. E a corrupção no Vietnã se beneficia dessa malha social tão coesa. É explícita até para os padrões brasileiros. O país ocupa a 75º posição na lista das nações mais corruptas do mundo, em que o Brasil é o 45º. Dos portos às delegacias e nas repartições públicas as coisas só andam empurradas pelas propinas, e quando não se é membro do PC as coisas são ainda mais dificultadas e mais caras. Obviamente a burocracia e a morosidade administrativa são características predominantes do governo. 

Halong-Bay.jpg Em se tratando de preservação do meio-ambiente, o Vietnã tem muito para se fazer. Metade de sua população não tem acesso à água potável e o reflorestamento é uma necessidade. Durante a Guerra do Vietnã parte considerável do país sofreu com o herbicida "agente laranja" lançado pelos EUA, que infertilizou parte de suas terras agrícolas. Mas de 700 espécies naturais estão correndo o risco de extinção e diversas organizações internacionais estão intervindo no país para conter os desastres naturais. Por outro lado, o Vietnã abriga quatro grandes "Patrimônios Mundiais" reconhecidos pela UNESCO e que recebem da entidade recursos para sua preservação. Os patrimônios são as cidades de Hue, Hoi An, a Baía de Ha Long e o santuário My Son. 

Reunioes.jpg Promover crescimento com igualdade, senso de distribuição de renda e recursos é um desafio para o governo do Vietnã. Promover o desenvolvimento econômico com vista ao combate à pobreza, realizando políticas sociais que assegurem que o conjunto da população tenha acesso aos serviços básicos e elevem seu nível de bem estar econômico e social é uma obrigação das 189 nações do mundo que assinaram em 2000 a Declaração das Nações Unidas para o Desenvolvimento do Milênio. O Vietnã faz parte desse tratado e tem muitos "deveres de casa" para cumprir até 2005. 


Mas se mantiver o espetacular ritmo de crescimento sustentado que vem mantendo há décadas, o Vietnã logo terá arrebentado a barreira que tolhe o progresso dos países pobres e honrará com o mesmo espírito de vitória que o fez vencer várias guerras, a sua assinatura na Declaração.
 

 


 




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