Vale do Rishi: acreditando nas escolas como ponto de referência para a transformação social
"A paisagem era de uma terra árida com montes de rochas emergindo subitamente ao longo do horizonte. A vegetação de várzea e o sol escaldante aumentavam ainda mais a semelhança do local com o sertão brasileiro. Depois de 23 horas de uma cansativa viagem pudemos aos poucos perceber a mudança no clima e na paisagem. Ao saltarmos do nosso terceiro e último ônibus em frente à escola, de repente, de um ar seco e uma paisagem desértica nos vimos em meio a um caminho verde e um clima fresco de floresta. O silencio do local aumentava ainda mais o ruído dos pássaros e das folhas se debatendo com o vento."
Realices
A Índia é um país com uma enorme diversidade cultural e de comunidades, que vão desde as tribos primitivas até as mais ricas castas dos Brâmanes. Em seu território se falam mais de 70 idiomas, 90% da população vive em áreas rurais e a taxa nacional de analfabetismo é de 44,2%. Educar uma população analfabeta de um país como esse, cujas tradições derivam de milhares de anos, em um momento em que o mundo está mudando tão rapidamente, é um grande desafio.
No mesmo raciocínio, mudar a realidade de crianças que não vão à escola porque precisam trabalhar e sustentar uma família ou porque precisam cuidar de seus irmãos menores ou mesmo quando são trocadas pelos pais por dinheiro para trabalharem para grandes fazendeiros, não é uma tarefa fácil.
Desafios estes que foram transpostos com grande sucesso em uma região remota deste país...
Rushi Valley School - uma escola socialmente responsável
Tudo começou em 1930 quando o filósofo Krishnamurti estabeleceu uma escola de elite no Vale do Rishi, ao sul da Índia no Estado de Andhra Pradesh, em uma área árida coberta de rochas com 350 hectares aos pés da rocha Rishi Konda, uma antiga rocha onde há milhares de anos os rishis, ou monges, vinham se penitenciar.
A Escola do Vale do Rishi atraiu os filhos das ricas famílias dos Brâmanes pelo fato do ensino ser em inglês e pela metodologia de educação, que seguia os princípios de liberdade interior, bondade e responsabilidade com o meio ambiente do filósofo criador. Através de processos simples e inteligentes de irrigação e armazenamento de água, a região da escola foi totalmente reflorestada com a ajuda das comunidades da redondeza e dos alunos.
Tudo isso parece muito interessante, no entanto, quando vamos mais a fundo na história da escola, o que mais impressiona é a forte relação mantida com as comunidades pobres das cercanias ao longo dos anos. Somente assim, conseguimos entender o por quê do sucesso no trato das mazelas sociais e principalmente educativas dessa região.
River - a metodologia de ensino multi-nível
Tendo como base a afirmação comprovada de que as vilas e não as cidades são as chaves para a modernidade e que uma nação não pode ser moderna se suas pequenas comunidades ainda vivem em sistema medievais, a escola do Vale do Rishi tratou de tomar o desenvolvimento das vilas vizinhas como sua função principal e para isso, começou com o fator básico para o crescimento de qualquer cidadão ou comunidade: educação. Foi então que criaram o Instituto para Educação e Pesquisas do Vale do Rishi (RIVER).
Após quinze anos de estudo, o RIVER desenvolveu um conceito de educação para as vilas baseado em uma rede de "Escolas-satélites" que utiliza um revolucionário método de ensino multi-nível carinhosamente chamado de "escola na caixa".
O Sr. e Sra. Padmanaba Rao, o casal de educadores que criou o método, estavam insatisfeitos com o sistema de educação nas vilas rurais pelo alto índice de desistências, reprovações, faltas constantes, ausência de professores e qualificação precárias, e vieram para a Escola do Vale do Rishi há 15 anos em busca de liberdade de criação e autonomia para desenvolverem estudos sobre o assunto.
Segundo eles, o método regular de ensino mononível (ou mono-gradual, que trabalham com séries separadas), utilizado por todas as escolas do país, possui três grandes problemas: a distância dos livros de ensino com a realidade de cada comunidade; a liderança das salas por um ou dois professores que tem que administrar todas as séries e classes do ensino primário, e o fato de o professor não participar do processo de criação do sistema de ensino. "Os alunos estão sempre dependendo do professor e este dos livros de ensino. Tudo isso causa um clima de grande frustração", nos conta o Sr. Rao.
Os Raos reinventaram a educação. Uma escola não precisa ser sala de aula e professor. Uma escola não é para sentar, ouvir e memorizar. "Os currículos escolares comuns são incrivelmente abstratos", conta Sr. Rao. "Livros com figuras de avião e até mesmo carros não estão relacionados com a experiência dessas crianças daqui do interior", completa, afirmando que a maior virtude da metodologia é a adaptação do material de trabalho para a realidade das crianças e da comunidade. E um exemplo prático disso e que pudemos comprovar é que eles aprendem noções de horas e minutos com ampulheta, ao invés de relógio. "O conceito de tempo é urbano. Pessoas do interior não aprendem assim, e é por isso que na Índia e na África as pessoas estão com freqüência atrasadas". E isso é o que eles chamam de trazer os elementos culturais regionais para a educação propriamente dita.
Escola em Caixa: um professor, várias cartas e muita criatividade.
A metodologia consiste em 500 cartas ilustrativas para cada matéria e um manual para o professor, que na maior parte do tempo trabalha como "facilitador". O método funciona como um jogo de auto-ensino, com tabuleiro e cartas, onde cada aluno e o professor sabem onde se encontram no jogo e as próximas cartas que devem utilizar para praticar os exercícios."Os professores estão preocupados apenas em introduzir os conceitos, assim podem organizar muito bem o seu tempo e com as crianças certas. Isso permite que se tenham diversas idades em uma só classe", acrescenta o Sr. Rao.
Com isso, apenas uma sala pode comportar até 40 alunos entre 5 e 13 anos, aprendendo matemática, língua e ciências, todos juntos e ao mesmo tempo, com a presença de apenas um professor. Grupos de 5 crianças de níveis e idades diferentes trabalham juntas, sentadas no chão conforme o costume do país, e se ajudam mutuamente.
Outro ponto importante do método é que o folclore, cultura e tradições locais são trazidos para dentro do material e atividades de ensino. "A grande força do programa é colocar o contexto local dentro do material de aprendizado, permitir que as crianças e os pais e a comunidade venham com suas próprias soluções", ressalta o casal de educadores. "Toda essa escola cabe dentro de uma caixa", completa.
As crianças também devem escrever suas próprias histórias, que trazem de casa com a ajuda dos pais, que precisam aprender a ler para saber como ajudar os filhos. E é isso que está promovendo o crescimento do programa de alfabetização de adultos, que acontece a noite, usando a mesma metodologia de cartas. "Nós usamos somente o que as próprias crianças escrevem para ensinar os adultos a lerem", conta Sr. Rao.
Esse método revolucionou a educação nas quinze vilas que possuem escolas satélites na região do Vale do Rish. O analfabetismo que era predominante na região hoje representa menos de 15% da população, a evasão escolar caiu significantemente e o interesse dos pais pelo ensino dos alunos e pela escola é evidente. As escolas satélites se tornaram um centro referencial e social para as vilas.
Escola humanística
Além de ser um método de ensino que prega o auto-aprendizado, onde cada aluno se torna autodidata e responsável pelo seu crescimento e evolução na escola, o River é uma forma de educação que respeita as diferenças de cada criança, trabalha as limitações de aprendizado, a individualidade e o tempo de cada aluno.
Mais do que isso, as cartas instruem e implantam a noção de categorias e sub-categorias, fazendo a criança estudar e conhecer o mapeamento de sua própria vila, por exemplo. Eles precisam fazer estatísticas do número de mulheres e homens da região, quantos podem ler e escrever e o peso médio dos habitantes. "As crianças aprendem comparando e constatando, assim elas se desenvolvem objetivamente e acham razões para o seu próprio conhecimento", afirma Sr. Rao.
Outra razão para a afirmativa humanística está no fato de que toda escola tem um jardim, que as crianças cuidam e tratam. Mais importante do que o conceito - que as crianças tem que fazer as plantas crescerem - é o desenvolvimento do instinto. "A planta de bouganville dentro da escola ensina as crianças a apreciarem a beleza. Pessoas que apreciam a beleza tem menos tendência para a violência", afirma Sra. Rama Rao.
Auto-sustentabilidade
As crianças trabalham juntamente com os pais e a comunidade para manterem a escola; fazem a limpeza, preparam o jardim e cultivam hortas, verduras e frutas, que na maioria dos casos são vendidos nos mercados das vilas, transformando o rendimento em fonte de sustento para a escola.
Da Índia para o Mundo
Após tomar conhecimento do método de ensino e sua repercussão de sucesso na educação das quinze vilas da região do Vale do Rishi, diversos outros Estados indianos estão utilizando o RIVER e hoje 25 mil escolas em todo o país estão educando suas crianças com o método multi-nível. Conhecendo sua potencialidade, países como Nepal, Etiópia, Espanha e Israel estão estudando a aplicação da metodologia em seus países.
Esperança para a educação rural no Brasil
Ver crianças de diferentes idades tão compenetradas, felizes e realmente envolvidas com o ensino dentro das pequenas salas de aula das escolas-satélites e em vilas tão remotas, parece uma cena irreal e na mesma hora começamos a imaginar a mesma cena nas pobres regiões rurais do Brasil.
Descobrir esse programa nos proporcionou um grande entusiasmo e nos fez acreditar na clara importância dos objetivos do Projeto Realice. Estar aqui e poder levar ao Brasil essa fantástica idéia, sabendo que a reaplicação desse método poderia mudar a realidade de milhares de brasileiros, já nos faz sentir ter valido todo o nosso esforço.
Informações sobre o método multi-nível de ensino vide relatório da visita social, disponível em breve nesse site ou na apresentação da instituição (em inglês)
Maiores informações sobre a Escola do Vale do Rishi: http://www.rishivalley.org
Vejam os vídeos dessa visita social:
Entrando na escola do Vale do Rishi (
EntrandoEsco.MPG
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Um passeio por uma vila da região (
PasseioVilaR.MPG
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teatro folclórico criado pelas crianças (
TeatroFolclo.MPG
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Na escola satélite (
NaEscolaSaté.MPG
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